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William Waack alerta para riscos ao ambiente de negócios

Painel da Convenção Secovi-SP 2026 debateu eleições, contas públicas, crédito, segurança jurídica e redução da jornada de trabalho

William Waack alerta para crise institucional, desajuste fiscal e riscos ao ambiente de negócios no Brasil
Foto: Reprodução

Painel da Convenção Secovi-SP 2026 reuniu lideranças do mercado imobiliário e da construção civil para analisar eleições, contas públicas, crédito, segurança jurídica e redução da jornada de trabalho

O Brasil chega às eleições de 2026 diante de uma combinação de tensão institucional, deterioração fiscal, incerteza política e aumento dos riscos para empresas, investidores e consumidores. O cenário foi debatido no Painel 6 Conjuntura: “O Brasil estrutural: economia, política e ambiente de negócios”, realizado durante a Convenção Secovi-SP 2026.

Participaram do painel Jorge Cury Neto, presidente do Secovi-SP; William Waack, jornalista, comentarista político e âncora da CNN Brasil; Ely Wertheim, presidente-executivo do Secovi-SP; Caio Portugal; Eduardo Aroeira Almeida, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC); Yorki Stefan, presidente do SindusCon-SP; Gustavo Siqueira; e Cícero Araújo, vice-presidente de Relações Institucionais e Governamentais da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc).

O encontro reuniu representantes do setor imobiliário e da construção civil para discutir o cenário político-eleitoral, os conflitos entre os Poderes, o desequilíbrio das contas públicas, a segurança jurídica e os impactos das decisões econômicas sobre os investimentos e o ambiente de negócios no país.

Tensão entre os Poderes amplia risco institucional

Em sua análise, William Waack afirmou que a tensão entre os Poderes permanece elevada e pode se agravar conforme o processo eleitoral avance. Segundo o jornalista, Supremo Tribunal Federal e Congresso Nacional dispõem de instrumentos capazes de provocar um conflito institucional de grandes proporções.

De um lado, está a possibilidade de o STF declarar a inconstitucionalidade de emendas parlamentares impositivas, atingindo diretamente a participação do Legislativo na destinação do orçamento público. Do outro, o Congresso mantém como instrumento político a possibilidade de abertura de processos de impeachment contra ministros da Corte.

Waack classificou como baixa, mas não desprezível, a possibilidade de um cenário de desobediência institucional, no qual um Poder deixe de cumprir uma decisão tomada por outro. Para ele, as disputas políticas e judiciais estão cada vez mais conectadas, ampliando a imprevisibilidade do ambiente brasileiro.

O jornalista também avaliou que existe atualmente uma convergência política incomum entre integrantes dos Poderes. A análise foi apresentada como uma leitura pessoal do cenário institucional e das estratégias de sobrevivência política que cercam as eleições.

Eleição poderá ser decidida por pequena parcela do eleitorado

No campo eleitoral, a avaliação apresentada foi de que a disputa presidencial permanece aberta e poderá ser definida por aproximadamente 2 milhões de eleitores indecisos, distribuídos pelo país e sem perfil ideológico claramente delimitado.

Segundo Waack, esse grupo costuma definir o voto nas últimas 72 horas antes da eleição. O comportamento dos indecisos torna o resultado ainda mais imprevisível, especialmente diante da expectativa de realização de dois turnos e da influência que a nova composição do Senado poderá exercer sobre a crise institucional.

O jornalista também apontou dificuldades das forças políticas de direita para estabelecer uma estratégia eleitoral coesa, apesar do desgaste do governo e da predominância de um eleitorado convencionalmente classificado como de centro-direita. Em sua avaliação, tanto a direita quanto a esquerda passaram a responder ao populismo com novas medidas populistas, sem enfrentar adequadamente os problemas estruturais do país.

Outro ponto destacado foi a crise de representatividade. Durante o painel, Waack chamou atenção para a distância existente entre eleitores e representantes, observando que até integrantes das classes economicamente mais favorecidas frequentemente não se recordam dos candidatos nos quais votaram para deputado federal.

Desajuste fiscal ameaça crédito, investimentos e financiamento imobiliário

As contas públicas foram apontadas como uma das principais ameaças estruturais à economia brasileira. Conforme a análise apresentada, o país necessitaria de um ajuste fiscal equivalente a aproximadamente 4% do Produto Interno Bruto. Entretanto, um ajuste dessa dimensão foi considerado politicamente inviável nas condições atuais.

Mesmo uma correção equivalente a 2% do PIB, embora insuficiente para solucionar o problema, poderia representar uma sinalização inicial de compromisso com a estabilização da dívida. Waack afirmou, contudo, não identificar, em qualquer campo político, disposição para assumir o desgaste decorrente das medidas necessárias.

O risco imediato seria o avanço de uma restrição de crédito, fenômeno conhecido como credit crunch. À medida que o governo amplia a necessidade de financiamento para administrar sua própria dívida, absorve parcela crescente dos recursos disponíveis no mercado. Como consequência, o crédito destinado às empresas e às famílias tende a ficar mais escasso e caro.

Esse processo afeta diretamente o ambiente de negócios, os investimentos produtivos, o consumo, a geração de empregos e o financiamento imobiliário. Para a construção civil e o mercado de imóveis, que dependem de crédito de longo prazo, previsibilidade econômica e segurança regulatória, a deterioração fiscal representa um obstáculo adicional à expansão.

Redução da jornada pode diminuir produção habitacional

A proposta de redução da jornada semanal de 44 para 40 horas também ocupou parte relevante do debate. Os participantes defenderam que a discussão sobre qualidade de vida e tempo de trabalho é legítima, mas criticaram a possibilidade de constitucionalização de uma escala rígida, aplicável indistintamente a setores com realidades produtivas diferentes.

O presidente da CBIC, Eduardo Aroeira Almeida, apresentou estimativas sobre os efeitos da medida na construção civil e nos principais programas sociais executados pelo setor. Segundo o estudo mencionado, a mudança poderá resultar na produção de aproximadamente 30 mil unidades habitacionais a menos por ano o equivalente a cerca de 150 mil moradias em cinco anos.

A entidade também estima aumento entre 6% e 8% nos custos de construção de hospitais, creches e outros equipamentos públicos. No saneamento básico, seriam necessários aproximadamente R$ 2 bilhões adicionais por ano para compensar os impactos da redução da jornada.

O alerta apresentado no painel é que os maiores efeitos poderão recair sobre as populações mais vulneráveis. A elevação dos custos tende a reduzir a capacidade de execução de programas habitacionais, obras públicas, infraestrutura urbana e saneamento, além de encarecer serviços consumidos também por trabalhadores informais.

Norte e Nordeste poderão ser especialmente afetados pelo atraso na expansão do saneamento básico, justamente por concentrarem parcelas expressivas da população ainda sem acesso adequado à água encanada e à coleta e ao tratamento de esgoto.

Para os debatedores, a jornada de trabalho deve ser analisada considerando produtividade, características de cada atividade, negociações coletivas e impactos econômicos. A inclusão de uma escala única na Constituição tornaria eventuais correções futuras mais difíceis e poderia produzir consequências por décadas.

Setor aponta insegurança jurídica e dificuldades regulatórias

Representantes da construção civil também destacaram problemas relacionados à insegurança jurídica, à multiplicação de normas municipais, ao licenciamento ambiental, às contratações públicas pelo menor preço e às disputas judiciais envolvendo o Minha Casa, Minha Vida e a alienação fiduciária.

A alienação fiduciária foi destacada como um dos instrumentos que possibilitaram a retomada e a expansão do financiamento imobiliário no Brasil. Mudanças em sua aplicação ou decisões judiciais que aumentem a insegurança contratual podem afetar a concessão de crédito e elevar os riscos das operações imobiliárias.

A existência de códigos de obras e exigências diferentes em cada município também foi apontada como um obstáculo à produtividade e à capacidade de expansão das empresas. A fragmentação regulatória dificulta a padronização dos processos, amplia prazos de aprovação e aumenta os custos dos empreendimentos.

O setor criticou ainda a contratação de serviços de engenharia pelo menor preço em pregões eletrônicos, modelo que pode desconsiderar critérios técnicos, qualidade, experiência profissional e complexidade das obras públicas.

Financiamento público reduziu influência empresarial

O painel também abordou os efeitos do financiamento público das campanhas eleitorais. Na avaliação apresentada, a retirada do financiamento empresarial tornou parlamentares mais dependentes das estruturas partidárias e dos recursos públicos destinados às campanhas, reduzindo a influência das entidades produtivas sobre a formulação de políticas públicas.

Com taxas de reeleição superiores a 80%, segundo os dados mencionados durante o debate, o sistema favoreceria a manutenção de grupos políticos já consolidados. Como exemplo de atuação organizada, foi citada a Frente Parlamentar da Agropecuária, que conta com estrutura técnica própria e agenda legislativa permanente.

A ausência de lideranças capazes de representar setores econômicos de maneira ampla foi apontada como um dos principais problemas do país. Para Waack, uma saída possível exigiria uma espécie de “concertação”: a convergência entre grupos com posições diferentes em torno de objetivos nacionais comuns.

Construção civil emprega milhões e permanece sensível às decisões políticas

A construção civil emprega atualmente cerca de 3,1 milhões de trabalhadores, conforme os números apresentados no painel. O setor, entretanto, já enfrentou quedas expressivas na ocupação durante crises econômicas anteriores, demonstrando sua sensibilidade às decisões fiscais, regulatórias e políticas.

O debate também chamou atenção para problemas sociais que afetam a força de trabalho, incluindo relatos de empregados que pedem demissão para acessar recursos do FGTS e quitar dívidas decorrentes de apostas on-line.

Esse fenômeno amplia a preocupação com o endividamento das famílias, a perda de produtividade, a rotatividade da mão de obra e os efeitos econômicos das plataformas de apostas sobre trabalhadores e empresas.

País precisará de sinal fiscal concreto após as eleições

A conclusão central do painel foi que o Brasil precisará apresentar, imediatamente após as eleições de outubro, uma sinalização fiscal clara, concreta e capaz de recuperar a confiança de investidores, empresas e consumidores.

A superação dos problemas estruturais dependerá de segurança institucional, responsabilidade nas contas públicas, estabilidade regulatória, aumento de produtividade, formação de capital humano e exploração racional dos recursos nacionais.

Para a construção civil e o mercado imobiliário, o desafio será impedir que decisões orientadas exclusivamente pela disputa eleitoral comprometam o crédito, a geração de empregos, a produção habitacional, o saneamento e os investimentos necessários ao desenvolvimento do país.

Fonte: Secovi-SP