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Vendas de imóveis avançam mesmo com juros altos

Mercado comercializou 113.676 unidades entre abril e junho, enquanto lançamentos recuaram 1,3% e o prazo de venda caiu para 9,5 meses

Vendas de imóveis crescem 5,3% no segundo trimestre mesmo com juros elevados
Foto: Reprodução

O mercado imobiliário brasileiro demonstrou resiliência no segundo trimestre de 2026, mesmo diante do cenário de juros elevados. As vendas de imóveis novos cresceram 5,3% entre abril e junho, na comparação com o mesmo período de 2025, alcançando 113.676 unidades, segundo levantamento da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) em parceria com a Brain Inteligência Estratégica.

O resultado chama atenção porque ocorre em um momento em que a taxa básica de juros permanece em 14% ao ano, cenário que encarece o crédito e aumenta o custo de financiamento para consumidores e empresas. Ainda assim, a demanda por imóveis permaneceu aquecida e contribuiu para a redução do estoque disponível no mercado.

Enquanto as vendas avançaram, os lançamentos apresentaram retração de 1,3% em relação ao segundo trimestre de 2025. A diferença entre oferta e demanda ajudou a reduzir o prazo estimado para comercialização dos imóveis disponíveis, que chegou a 9,5 meses.

Minha Casa, Minha Vida impulsiona o mercado

Um dos principais responsáveis pelo desempenho positivo foi o programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV). O segmento representou 58% dos lançamentos realizados no segundo trimestre, superando a participação dos empreendimentos voltados aos consumidores de médio e alto padrão.

A força do programa também ajuda a explicar a sustentação da demanda em um período de crédito mais caro. As condições específicas de financiamento e o acesso a recursos destinados à habitação ampliam a capacidade de compra de parte das famílias e mantêm o segmento econômico como um dos principais motores do mercado imobiliário.

Norte, Sudeste e Nordeste apresentaram as maiores participações do MCMV. Já a região Sul registrou desempenho inferior, associado à menor oferta de unidades subsidiadas e à maior exposição dos compradores ao crédito com custos elevados.

Crédito imobiliário mantém ritmo de crescimento

Outro indicador relevante foi o desempenho dos financiamentos com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE). O volume de financiamentos cresceu 29% no período, enquanto o crédito destinado à construção apresentou alta de 107%.

O avanço demonstra que, apesar do custo elevado do dinheiro, o mercado continua encontrando alternativas para sustentar a produção e a comercialização de imóveis.

A expansão do crédito para construção também possui impacto direto sobre toda a cadeia produtiva, envolvendo incorporadoras, construtoras, fornecedores de materiais, prestadores de serviços e profissionais especializados.

Ao mesmo tempo, o cenário de juros elevados permanece como um dos principais pontos de atenção para o setor. A manutenção da Selic em patamar elevado aumenta os custos de captação e pode pressionar as condições de financiamento habitacional.

Intenção de compra atinge maior nível da série histórica

A demanda potencial também apresentou um sinal positivo. A intenção de compra de imóveis alcançou 52%, o maior nível registrado na série histórica do indicador. Entre os fatores que contribuem para esse movimento estão o desejo de deixar o aluguel e a necessidade de formar uma nova residência.

O resultado indica que o interesse dos consumidores permanece elevado mesmo diante das dificuldades relacionadas ao crédito.

Para parte das famílias, a compra do imóvel continua sendo uma prioridade de longo prazo, o que ajuda a explicar por que o mercado consegue manter volume expressivo de vendas mesmo em um ambiente de juros elevados.

Oferta menor exige atenção das incorporadoras

A combinação entre crescimento das vendas e retração dos lançamentos merece atenção das incorporadoras.

Com a comercialização crescendo em ritmo superior ao lançamento de novas unidades, o estoque tende a diminuir. Embora esse movimento possa representar um sinal positivo de absorção da oferta, também exige planejamento para evitar desequilíbrios futuros entre demanda e disponibilidade de imóveis.

O prazo de venda de 9,5 meses mostra que o estoque ainda apresenta capacidade de atender ao mercado, mas a evolução dos próximos trimestres será importante para determinar se a redução dos lançamentos é pontual ou representa uma estratégia mais prolongada das empresas diante das condições financeiras.

Reflexos para o setor condominial

O desempenho do mercado imobiliário também possui reflexos diretos sobre o segmento condominial.

O aumento das vendas de imóveis novos representa a formação de novos empreendimentos residenciais e, consequentemente, futuras demandas por síndicos, administradoras, empresas de manutenção, segurança, limpeza, tecnologia, seguros e outros serviços especializados.

A expansão do mercado habitacional também exige que incorporadoras e gestores estejam atentos às características dos novos condomínios, especialmente diante do avanço da tecnologia, da necessidade de eficiência operacional e da crescente preocupação dos moradores com segurança e qualidade dos serviços.

Para o setor condominial, acompanhar os indicadores imobiliários permite antecipar oportunidades e compreender como o comportamento das incorporadoras e dos consumidores poderá impactar a formação de novos empreendimentos.

Juros continuam como principal desafio

Apesar do desempenho positivo, o cenário financeiro continua exigindo cautela.

A Selic em 14% ao ano pressiona o custo do dinheiro e pode limitar o acesso ao financiamento para determinados grupos de consumidores. O setor também acompanha as discussões sobre as condições de crédito habitacional e os mecanismos de funding utilizados para financiar a construção e a aquisição de imóveis.

O crescimento dos financiamentos pelo SBPE demonstra que ainda existe demanda por crédito, mas a manutenção de juros elevados pode comprometer parte desse potencial caso o custo das operações continue aumentando.

O mercado imobiliário chega, portanto, ao segundo semestre de 2026 com um cenário de contrastes: vendas em alta, lançamentos em queda, estoque menor e forte participação do Minha Casa, Minha Vida.

Os números indicam que a demanda permanece resistente e que o setor encontrou mecanismos para continuar avançando mesmo diante de condições financeiras adversas. Para incorporadoras, investidores, profissionais do mercado imobiliário e gestores condominiais, o acompanhamento desses indicadores será fundamental para compreender os próximos movimentos do setor.

Fonte: FOLHA DE SÃO PAULO