Solteiros transformam mercado imobiliário
Aumento de pessoas que vivem sozinhas impulsiona procura por imóveis compactos, funcionais e com serviços compartilhados

A era dos compactos: Como a vida 'solo' está redesenhando os apartamentos e os negócios em São Paulo
Quase 20% dos brasileiros moram sozinhos. Na capital paulista, mercado imobiliário e comércio local se adaptam à nova realidade de espaços de 20 a 30 metros quadrados e à busca por praticidade no dia a dia.
A paisagem urbana de São Paulo está mudando, e não é apenas na altura dos prédios, mas no tamanho do que existe dentro deles. As formas de se relacionar e viver estão, aos poucos, redesenhando o cotidiano das grandes cidades. Um reflexo direto disso é o boom dos apartamentos ultracompactos.
Em um recente lançamento imobiliário na capital paulista, os números impressionam: são 27 andares abrigando 315 apartamentos. O formato não é exceção, mas sim a regra de um novo estilo de vida que atende a uma parcela cada vez maior da população.
Segundo dados do IBGE, hoje 19,7% dos brasileiros moram sozinhos. De olho nessa fatia do mercado, o setor de construção civil se movimentou. Dados do Secovi-SP apontam que 3 em cada 10 novos empreendimentos em São Paulo são compostos por apartamentos compactos.
A reportagem visitou uma dessas unidades modelo, de apenas 30 metros quadrados. Logo na entrada, a cozinha já se mistura com a sala de estar, restando um espaço reduzido para sofá e mesa. O quarto, bastante pequeno, impõe o desafio de acomodar uma cama e um guarda-roupa. É, definitivamente, um espaço feito sob medida para quem leva uma vida solo.
Minimalismo e Praticidade na Prática
Mas como é, de fato, viver nesses espaços? A resposta está na rotina de pessoas como Elmo, um homem divorciado e pai de um adolescente de 13 anos, que escolheu viver em um apartamento ainda menor: 22 metros quadrados.
O espaço de Elmo é totalmente integrado. Cozinha, pequeno escritório, sofá e cama dividem o mesmo ambiente. "Tudo o que eu precisava de essencial eu consigo colocar nesses 22 metros quadrados e ser muito feliz", afirma o morador. Quando questionado se sente falta de algo, ele é categórico: "Eu só sinto falta do meu filho. Mas do espaço em si, não sinto falta de nada."
O filho, aliás, passa finais de semana alternados no local, e Elmo garante que os dois se adaptam bem, sendo "muito agarrados".
A Economia da Vida Solo
A mudança no tamanho das casas também movimenta a economia e cria novas oportunidades de negócios, especialmente no setor de serviços e alimentação. Ao abrir a geladeira de Elmo, a reportagem encontrou um cenário diferente do estereótipo do solteiro: nada de prateleiras vazias, mas sim potes organizados, saladas prontas e marmitas saudáveis.
A praticidade exigida por quem mora sozinho tem endereço certo. A poucos passos dali, o restaurante de Lucicleide Adelino dos Santos, a "Lu", encontrou um filão lucrativo. "Tem muito mais cliente solteiro do que casado", brinca a dona do estabelecimento.
Para atender a essa demanda, Lu criou um segundo turno em sua cozinha. Após o movimento do almoço, ela prepara marmitas reforçadas e caprichadas, que garantem uma renda extra para o restaurante. É a solução perfeita para quem não tem espaço ou tempo para cozinhar, mas não abre mão de uma comida caseira.
Novas Rotinas
Viver em menos de 30 metros quadrados também significa terceirizar e compartilhar. Sem espaço para área de serviço, Elmo utiliza a lavanderia compartilhada do próprio prédio, uma facilidade que já é padrão nesses novos condomínios.
A vida solo, como demonstra a reportagem, é feita de escolhas, desapego material e recomeços. E, entre um café passado na hora e a adaptação a um novo lar, cada brasileiro vai encontrando o seu lugar por menor que ele seja.
Fonte: O Globo