Sobe para 128 o número de mortos em incêndio devastador em condomínio de Hong Kong; construtora é alvo de investigação
Autoridades apontam possível negligência grave da empresa responsável pela reforma do complexo; três profissionais foram presos por homicídio culposo, e quase 300 pessoas seguem desaparecidas.

O número de mortos no incêndio que atingiu o condomínio Wang Fuk Court, no distrito de Tai Po, em Hong Kong, subiu para 128, segundo autoridades locais. O fogo — um dos mais devastadores da cidade desde 1948 — deixou ainda cerca de 300 pessoas desaparecidas, dezenas de feridos em estado crítico e centenas de moradores desalojados. O caso reacendeu debates sobre segurança predial, responsabilidade técnica e fiscalização de obras em grandes complexos residenciais.
As operações de resgate foram encerradas nesta sexta-feira, conforme informou Chris Tang, chefe de segurança de Hong Kong. O conjunto, composto por oito torres e mais de 2 mil apartamentos, abrigava aproximadamente 4.600 moradores, muitos deles beneficiários de programas habitacionais subsidiados.
As autoridades afirmam que o incêndio pode ter sido agravado por negligência grave da empresa responsável pela reforma em andamento no condomínio, a Prestige Construction and Engineering Company Limited. Três profissionais — dois diretores e um consultor de engenharia — foram presos sob suspeita de homicídio culposo após a polícia identificar indícios de falhas críticas na obra, que estava em execução há um ano ao custo de HK$ 330 milhões.
De acordo com a superintendente Eileen Chung, os edifícios estavam revestidos com malhas de proteção e coberturas plásticas potencialmente inadequadas para contenção de chamas. Além disso, investigações descobriram janelas vedadas com espuma em uma das torres, material que pode ter dificultado a ventilação e acelerado a propagação do fogo.
Durante uma operação de busca realizada na quinta-feira, policiais apreenderam documentos de licitação, uma lista de funcionários, 14 computadores e três celulares.
“Temos razões para acreditar que os responsáveis da empresa foram gravemente negligentes, o que levou a este acidente e permitiu que o fogo se espalhasse de forma incontrolável”, afirmou Chung.
As imagens que circulam nas redes sociais mostram chamas intensas consumindo ao menos duas torres de 32 andares, envoltas em andaimes de bambu e telas verdes de construção — estruturas tradicionais na cidade, mas agora questionadas pela autoridade de desenvolvimento urbano, que discute substituir gradualmente o bambu por andaimes metálicos.
Moradores relataram momentos de desespero. Wan, de 51 anos, disse ter perdido tudo:
“Compramos neste prédio há mais de 20 anos. Todas as nossas coisas estavam lá. Agora que tudo queimou assim, o que sobrou?”
Entre as vítimas está um bombeiro que morreu durante as operações. O Ministério das Relações Exteriores da Indonésia confirmou ainda duas mortes de trabalhadores migrantes do setor doméstico, além de outros dois feridos.
A tragédia, comparada à do Edifício Grenfell, em Londres, em 2017, também levantou suspeitas de corrupção na reforma. O órgão anticorrupção de Hong Kong abriu investigação sobre o contrato da obra.
Para auxiliar os moradores, o líder de Hong Kong, John Lee, anunciou a criação de um fundo de US$ 38,6 milhões. Empresas como Xiaomi, Xpeng, Geely e a fundação de Jack Ma também prometeram doações.
Com 279 pessoas ainda incomunicáveis e 900 moradores abrigados emergencialmente, o incêndio se consolida como uma das maiores tragédias residenciais da história de Hong Kong, intensificando a pressão pública por reformas urgentes nas normas de segurança de condomínios e na fiscalização de obras de manutenção.
Fonte: Valor Econômico