Síndico é acusado de ameaçar moradora em SP
Vendedora afirma ter sido intimidada após expor falhas na gestão e suspeitas de desvio de recursos; casos de violência em condomínios voltam a crescer na capital paulista

Uma vendedora de 54 anos afirma ter vivido um verdadeiro pesadelo após denunciar supostas irregularidades cometidas pelo síndico de seu condomínio, localizado no bairro do Socorro, Zona Sul de São Paulo. O caso, revelado em reportagem do Terra, mostra como a falta de transparência e o abuso de poder na gestão condominial podem desencadear situações de intimidação e medo entre moradores.
De acordo com a moradora, identificada como Roberta* para preservar sua identidade, o síndico — indicado pela construtora — teria deixado de pagar contas essenciais, permitido o vencimento de certificados obrigatórios e até utilizado recursos do fundo de reserva sem justificativa.
“Nós tínhamos um fundo de caixa, e esse fundo sumiu. Quando comecei a investigar, descobri contas de água atrasadas, extintores descarregados e até ausência de AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros)”, relatou.
Ao tentar denunciar as falhas de gestão, Roberta diz ter sido ignorada pela empresa responsável pela administração. A partir daí, passou a registrar e confrontar o síndico, apontando inconsistências nas contas do condomínio. Segundo ela, foram cobrados valores superfaturados — como R$ 70 mil por câmeras de segurança e R$ 180 mil em contas de água atrasadas.
A situação se agravou quando, junto de outros moradores, Roberta organizou um abaixo-assinado pedindo o impeachment do síndico.
“Ele me ligava ameaçando, dizia que ia me processar, que tiraria meu apartamento, que nada daria em nada”, contou.
As ameaças, que se repetiram por semanas, afetaram a saúde mental da moradora, que relatou episódios de ansiedade e insônia.
O síndico acabou sendo substituído após pressão dos condôminos, mas o rastro de irregularidades permanece. Uma auditoria para apurar o sumiço de R$ 90 mil chegou a ser discutida, mas não foi executada por falta de recursos.
Violência condominial em alta
Um levantamento divulgado pelo Terra com base em dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo revela que os casos de violência em condomínios da capital voltaram a crescer em 2025. Entre janeiro e julho, foram registradas 1.952 ocorrências, o maior número em cinco anos — quase o dobro dos registros de 2020.
Entre os crimes mais comuns estão injúria e lesão corporal, seguidos por ameaças e perseguições, muitas delas relacionadas a conflitos entre síndicos e moradores.
Especialistas alertam para os riscos da violência institucional
A psicanalista e mediadora de conflitos condominiais Cíntia Castro explica que situações como a vivida por Roberta podem gerar impactos psicológicos profundos.
“Quando o morador começa a se isolar, evita áreas comuns e passa a temer represálias, é um sinal claro de alerta. O ideal é buscar apoio familiar e, se necessário, ajuda profissional”, destaca.
Já o presidente da Associação de Síndicos de Condomínios Comerciais e Residenciais do Estado de São Paulo (Assosíndicos), Renato Daniel Tichauer, orienta que moradores se organizem para garantir transparência e prestação de contas.
“A recomendação é contratar auditoria e exigir assembleias regulares. A lei prevê mecanismos para destituir síndicos que abusem do cargo”, afirma.
A vice-presidente da Associação Nacional dos Síndicos e Gestores Condominiais (ANSINDICOS), Christiane Faturi, reforça a importância da transparência:
“O síndico deve apresentar as contas de forma clara e permitir acesso às informações. Conflitos sempre existirão, mas o respeito e a boa gestão são fundamentais para manter a harmonia.”
O caso reforça a necessidade de profissionalização e fiscalização na administração condominial. Especialistas destacam que a atuação ética e transparente do síndico é essencial para proteger o patrimônio coletivo e o bem-estar dos moradores.
Fonte: Terra