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Selic alta preocupa construção civil e reduz expectativas

Juros elevados foram citados por 36,2% dos empresários, superando carga tributária e custo de trabalhadores qualificados entre os principais entraves

Selic alta se torna principal preocupação da construção civil e freia expectativas do setor
Foto: Reprodução

A manutenção dos juros em patamar elevado passou a ser o principal fator de preocupação entre empresários da construção civil brasileira. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), as taxas de juros elevadas foram citadas por 36,2% dos empresários do setor, superando a carga tributária e o custo da mão de obra qualificada.

O resultado mostra que a política monetária ganhou ainda mais peso nas decisões das empresas. A preocupação com os juros aumentou 1,3 ponto percentual em relação ao trimestre anterior e permaneceu na liderança do ranking pelo segundo levantamento trimestral consecutivo.

O cenário ocorre em um momento de contrastes para a construção civil. Enquanto alguns segmentos apresentam sinais positivos, as expectativas para a atividade e os investimentos demonstram perda de força diante da perspectiva de uma redução mais lenta da taxa básica de juros.

Juros ultrapassam carga tributária entre as preocupações

Na pesquisa, as taxas de juros foram apontadas por 36,2% dos empresários como um dos principais problemas enfrentados pelo setor. A carga tributária apareceu em seguida, com 33% das citações, enquanto a falta ou o alto custo de trabalhadores qualificados foi mencionada por 28% dos entrevistados.

A mudança no ranking acompanha a percepção de que o processo de redução da Selic deverá ocorrer em ritmo mais lento do que o anteriormente esperado. Segundo análise do BB Investimentos, esse movimento está relacionado às expectativas de um afrouxamento monetário mais gradual.

O ambiente de juros elevados afeta diretamente a construção civil porque encarece o crédito, dificulta a viabilização de projetos e pode reduzir a capacidade de consumidores e investidores de adquirir imóveis.

Confiança apresenta avanço moderado

Apesar das preocupações, o Índice de Confiança da Construção (ICST), medido pelo FGV Ibre, avançou para 92,3 pontos em julho, alta de 0,7 ponto percentual em relação ao mês anterior. Na comparação anual, entretanto, houve queda de 0,2 ponto percentual.

O resultado foi influenciado principalmente pela melhora da percepção no segmento de edificações residenciais, que compensou parte da desaceleração observada na área de infraestrutura.

O indicador de Situação Atual também apresentou avanço mensal, chegando a 92,2 pontos, enquanto o Nível de Expectativas recuou para 92,6 pontos e atingiu o menor patamar registrado em 2026.

A combinação mostra que as empresas ainda identificam condições de atividade relativamente favoráveis no presente, mas demonstram maior cautela em relação aos próximos meses.

Atividade e intenção de investimentos recuam

Outro sinal de atenção aparece no Nível de Atividade da indústria da construção. O indicador caiu para 47,2 pontos, recuo de 1,9 ponto na comparação mensal e de 1,6 ponto em relação ao mesmo período do ano anterior.

A Intenção de Investimentos também apresentou queda. O indicador chegou a 42,4 pontos, 1,3 ponto percentual abaixo do mês anterior. Apesar da retração, o resultado ainda permaneceu dois pontos acima do registrado no mesmo período de 2025.

Para o setor imobiliário, a redução da intenção de investimentos representa um ponto de atenção, já que novos empreendimentos dependem de condições adequadas de financiamento, demanda e viabilidade econômica.

Capacidade de construção também perde força

O Nível de Utilização da Capacidade da Construção recuou para 76,1%. O resultado ficou estável em relação a junho, mas apresentou queda de 2,1 pontos percentuais na comparação anual e representou o menor nível para um mês de julho desde 2020.

A Utilização da Capacidade Operacional apurada pela CNI, por outro lado, permaneceu em 67%, mantendo o maior patamar registrado ao longo de 2026.

Os indicadores evidenciam um setor que ainda mantém atividade e geração de empregos, mas enfrenta maior dificuldade para sustentar o ritmo de expansão diante das condições financeiras.

Juros afetam crédito e novos empreendimentos

A preocupação com a Selic ultrapassa o ambiente financeiro e chega diretamente ao mercado imobiliário. Taxas elevadas tendem a aumentar o custo do crédito e podem dificultar tanto a compra de imóveis quanto a estruturação financeira de novos projetos.

A CBIC mantém para 2026 uma projeção de crescimento de 1,2% para a construção civil, mas também identifica os juros elevados como um dos principais obstáculos para novos investimentos.

Mesmo nesse cenário, segmentos como infraestrutura e programas habitacionais continuam sustentando parte da atividade. O Minha Casa Minha Vida e os recursos do FGTS, por exemplo, seguem contribuindo para a manutenção da demanda imobiliária.

Mercado imobiliário acompanha cenário com cautela

Para incorporadoras e empresas de construção, o atual ambiente exige maior atenção à estrutura financeira dos empreendimentos, ao perfil dos compradores e às condições de crédito.

O impacto dos juros também pode chegar aos condomínios de forma indireta. Um mercado de novos empreendimentos menos aquecido pode alterar o ritmo de lançamentos, enquanto mudanças nas condições de financiamento influenciam o perfil dos compradores e a velocidade de comercialização das unidades.

Além disso, o custo do dinheiro interfere nas decisões de investimento de empresas e fundos que participam do mercado imobiliário, tornando a trajetória da Selic uma variável importante para o planejamento de médio e longo prazo.

Construção mantém resistência, mas enfrenta cenário desafiador

Os dados mais recentes mostram que a construção civil não perdeu completamente sua capacidade de resistência. A confiança avançou em julho, as edificações residenciais apresentaram melhora na percepção empresarial e a capacidade operacional permaneceu em nível relevante.

Por outro lado, a queda nas expectativas, na atividade e na intenção de investimentos revela uma postura mais cautelosa entre os empresários.

Nesse contexto, a Selic passou a ocupar o centro das preocupações do setor. Com juros elevados e perspectiva de redução mais lenta, construtoras, incorporadoras e demais empresas da cadeia produtiva precisam equilibrar oportunidades de mercado com custos financeiros e riscos associados à expansão.

O cenário reforça a importância do crédito imobiliário, da previsibilidade econômica e de condições financeiras mais favoráveis para que o setor consiga transformar a atual resiliência em um ciclo mais consistente de crescimento.

Fonte: FORBES