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Risco climático começa a pesar na escolha e no valor dos imóveis

Ferramenta permite consultar pelo CEP a exposição de casas, apartamentos e condomínios a alagamentos, vendavais e granizo.

Risco climático começa a pesar na escolha e no valor dos imóveis

Risco climático começa a pesar na escolha e no valor dos imóveis

Eventos climáticos extremos começam a ganhar espaço entre os fatores considerados por quem compra, vende ou administra imóveis no Brasil. Alagamentos, vendavais e granizo, que durante muito tempo foram tratados principalmente como questões relacionadas ao seguro e à manutenção, passam também a ser observados como elementos capazes de influenciar a decisão de compra e a atratividade de um imóvel.

Essa mudança ocorre em um cenário de maior atenção aos impactos das mudanças climáticas sobre as cidades e sobre o patrimônio imobiliário. Para compradores, conhecer previamente a exposição de determinado endereço a eventos extremos pode ajudar na avaliação dos riscos antes da aquisição de uma casa, apartamento ou unidade em condomínio.

Uma ferramenta lançada pela Allianz no Brasil passou a permitir justamente esse tipo de consulta. A plataforma GloRiA, sigla para Global Risk Assessment, estima a exposição de imóveis a eventos climáticos extremos a partir do CEP. O serviço é gratuito e pode ser utilizado por qualquer pessoa, mesmo que não seja cliente da seguradora.

Depois que o endereço é informado, a plataforma apresenta uma classificação de risco que varia entre baixo, médio, significativo e alto. A avaliação é feita separadamente para três tipos de ocorrência: alagamento, vendaval e granizo. O resultado também apresenta recomendações de prevenção relacionadas aos riscos identificados.

Segundo a Allianz, o modelo combina dados históricos, informações geoespaciais e modelos preditivos para chegar ao diagnóstico de cada endereço. A proposta é permitir que o proprietário ou interessado tenha uma visão mais específica da vulnerabilidade do imóvel, em vez de considerar apenas informações gerais sobre a cidade ou a região.

A ferramenta pode ser utilizada antes da compra de uma propriedade, durante o planejamento de reformas ou na definição de medidas para reforçar a proteção da residência. No caso dos condomínios, esse tipo de informação também pode ajudar a identificar pontos que merecem atenção na infraestrutura das áreas comuns.

A preocupação não é apenas teórica. De acordo com os dados apresentados pela Allianz, o Brasil registrou quase 1,5 mil ocorrências de enchentes, enxurradas e deslizamentos em 2025. O aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos amplia a importância de avaliar a vulnerabilidade dos imóveis e das regiões onde estão localizados.

No mercado imobiliário, essa avaliação pode ganhar importância porque o risco climático passa a integrar uma análise mais ampla sobre localização. Assim como segurança, mobilidade, infraestrutura urbana, preço e custos mensais, a exposição a eventos extremos pode ser considerada por compradores na comparação entre diferentes imóveis.

Uma pesquisa do DataZAP, divulgada pelo Portas, mostra a dimensão dessa preocupação entre compradores. Segundo o levantamento, 91% dos entrevistados evitam áreas com risco de enchentes. O estudo também identificou que áreas verdes e acesso a transporte público ou mobilidade ativa estão entre os fatores considerados na escolha da localização.

Esse comportamento pode ter reflexos sobre a liquidez dos imóveis. Propriedades localizadas em regiões percebidas como mais vulneráveis podem enfrentar maior resistência de determinados compradores, especialmente quando os riscos estão associados a históricos recorrentes de alagamentos ou outros eventos que possam provocar danos ao patrimônio.

A liquidez, porém, não deve ser confundida automaticamente com perda de valor. Uma análise publicada pelo próprio Portas aponta que imóveis que permanecem mais tempo no mercado não necessariamente sofreram desvalorização. Preço, custo mensal, conservação, documentação e quantidade de alternativas disponíveis também influenciam diretamente a velocidade de venda.

No caso dos condomínios, o risco climático pode envolver tanto a unidade privativa quanto as áreas comuns. Garagens subterrâneas, sistemas de drenagem, fachadas, coberturas, áreas externas, equipamentos elétricos e estruturas de contenção estão entre os elementos que podem exigir atenção especial em locais sujeitos a determinados eventos climáticos.

A prevenção também pode envolver decisões de gestão. Síndicos e administradoras podem avaliar a necessidade de manutenção de sistemas de drenagem, inspeção de coberturas, revisão de equipamentos, poda preventiva, proteção de áreas vulneráveis e elaboração de protocolos para situações de emergência, sempre considerando as características específicas do empreendimento.

Outro ponto relacionado ao tema é o seguro. O conhecimento prévio dos riscos pode ajudar o proprietário ou condomínio a avaliar quais coberturas são relevantes e quais medidas preventivas podem reduzir a exposição a determinados eventos. A consulta climática, entretanto, não substitui uma análise das condições e coberturas efetivamente previstas em uma apólice.

Para quem pretende comprar um imóvel, a análise do risco climático pode ser incorporada ao processo de avaliação da propriedade antes da assinatura do contrato. Ela se soma a outras verificações, como documentação, matrícula, situação do condomínio, regularidade da construção, débitos e eventuais restrições jurídicas.

Essa análise documental, conhecida como due diligence imobiliária, tem justamente a função de identificar riscos antes da conclusão da compra. Especialistas ouvidos pelo Portas destacam que a verificação deve ser especialmente cuidadosa em operações de maior valor ou complexidade.

A tendência indica que a localização de um imóvel poderá ser analisada de maneira cada vez mais ampla. Não basta observar apenas a distância até centros comerciais, escolas, transporte ou áreas de lazer. Questões relacionadas à resiliência urbana e à exposição a eventos extremos podem ganhar peso na formação da percepção de valor de uma propriedade.

Para o setor imobiliário, isso também representa uma mudança na forma de apresentar os empreendimentos. Informações sobre infraestrutura, drenagem, soluções construtivas e medidas de proteção podem se tornar mais relevantes para compradores que desejam reduzir a exposição a riscos futuros.

No caso de ativos corporativos, a avaliação pode ser ainda mais abrangente. A Allianz já oferece o CAReS, ferramenta voltada para riscos climáticos presentes e futuros e que considera 12 tipos de eventos, com diferentes horizontes temporais, incluindo projeções para 2030, 2050 e 2080.

A discussão sobre risco climático, portanto, deixa de estar restrita à prevenção de danos depois que um evento acontece. Ela começa a fazer parte da própria análise de localização, aquisição, manutenção e gestão dos imóveis.

Para compradores, a principal mudança é a possibilidade de incorporar informações climáticas à decisão antes da assinatura do negócio. Para condomínios, o avanço dessas ferramentas reforça a necessidade de considerar a prevenção e a adaptação climática dentro do planejamento de manutenção e gestão patrimonial.

Em um mercado no qual preço, localização, condomínio e documentação já são fatores decisivos para a liquidez, o risco climático surge como mais uma variável capaz de influenciar a percepção dos compradores. A tendência é que informações sobre a vulnerabilidade de cada endereço ganhem espaço nas decisões imobiliárias à medida que eventos extremos se tornam uma preocupação mais presente nas cidades brasileiras.