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Responsáveis por prédio que desabou em São Paulo seguem foragidos após tragédia na Zona Leste

Engenheiro e sócia da construtora são procurados pela polícia após desabamento que matou seis pessoas e revelou histórico de irregularidades na obra

Responsáveis por prédio que desabou em São Paulo seguem foragidos após tragédia na Zona Leste

Dez dias após o desabamento de um prédio em construção na Zona Leste de São Paulo, dois responsáveis ligados à construtora responsável pela obra continuam foragidos. O colapso ocorreu em 12 de setembro, na Rua Tequici, na região da Penha, atingiu uma residência vizinha e provocou a morte de seis pessoas, incluindo uma mulher grávida e uma criança. Outras duas pessoas foram resgatadas com vida.

A Polícia Civil investiga as circunstâncias do acidente e apura a eventual responsabilidade de pessoas envolvidas na construção, na fiscalização e na liberação administrativa do empreendimento. O engenheiro Cristiano Salgado Vivacqua, responsável técnico pela obra, e Isis de Freitas Rodrigues Brandão, apontada como sócia-administradora da construtora New Home, são considerados foragidos. Ronaldo dos Santos Vivaqua, apontado pelos investigadores como sócio oculto da empresa e pai de Cristiano, foi preso temporariamente.

Investigação apura possível responsabilidade pelas mortes

A Polícia Civil informou que os envolvidos podem ser indiciados por homicídio com dolo eventual. Até o momento, porém, os investigados ainda não haviam sido formalmente indiciados quando essa informação foi divulgada. A definição dependerá do avanço da investigação e dos elementos reunidos pelas autoridades.

A perícia deverá desempenhar papel central na apuração. Segundo a polícia, o trabalho técnico deverá esclarecer as causas do colapso e verificar as condições da estrutura antes da queda. A previsão divulgada pelas autoridades era de aproximadamente 30 dias para a conclusão do laudo pericial.

A investigação também analisa documentos relacionados à construção e ao histórico administrativo do imóvel. Entre os pontos levantados está a existência de uma determinação anterior para demolição da estrutura que ocupava o terreno.

Obra tinha histórico de irregularidades

Segundo informações da Prefeitura de São Paulo, a construção começou em 2019 e foi alvo de fiscalizações, multas e interdições. A administração municipal chegou a recorrer à Justiça em 2021 para solicitar a paralisação dos trabalhos, após identificar irregularidades no empreendimento.

Em 2023, um novo alvará foi emitido para o terreno, mas havia uma condição específica: a estrutura existente deveria ser demolida para dar lugar a uma nova edificação.

Uma vistoria realizada em 2024 resultou em um documento que atestava que a demolição havia sido realizada. Posteriormente, entretanto, as autoridades passaram a investigar indícios de que a estrutura não teria sido efetivamente demolida conforme determinado. O episódio levou também à apuração administrativa sobre a fiscalização municipal.

A servidora responsável pela vistoria foi afastada e passou a ser investigada pela Prefeitura. Segundo informações divulgadas pelas autoridades, ela afirmou que teria sido enganada pela construtora e que sua atuação no local não correspondeu a uma inspeção estrutural completa. A defesa da servidora contesta irregularidades.

Histórico da construtora também é investigado

Além das condições específicas da obra que desabou, a Polícia Civil e outros órgãos passaram a analisar o histórico das empresas relacionadas ao empreendimento.

Levantamento divulgado pela imprensa identificou embargos, multas, obras paralisadas e reclamações de compradores envolvendo a New Home e empresas relacionadas. Também foram identificados registros de clientes que afirmam ter adquirido imóveis que não foram entregues.

Segundo investigação divulgada anteriormente pelo G1, cerca de 20 clientes teriam registrado boletins de ocorrência contra empresas relacionadas à New Home e à Hastiforme, apontando problemas como imóveis não entregues e prejuízos financeiros. O levantamento apontou mais de R$ 4 milhões em prejuízos relatados pelos compradores.

A existência dessas reclamações, entretanto, não significa que todos os fatos tenham sido comprovados judicialmente. As denúncias fazem parte do conjunto de informações analisadas pelas autoridades.

Segurança estrutural exige controle durante toda a obra

O caso chama atenção para uma questão que ultrapassa a investigação criminal: a importância do controle técnico e documental durante todas as etapas de uma construção.

Projetos, licenças, execução, materiais empregados, alterações realizadas durante a obra, inspeções e registros de responsabilidade técnica precisam permanecer alinhados às exigências legais e às condições reais encontradas no empreendimento.

Quando uma obra sofre embargo ou recebe determinação de paralisação, o cumprimento da medida também integra o processo de segurança. A continuidade de trabalhos sem a devida regularização pode ampliar os riscos para trabalhadores, vizinhos, futuros moradores e demais pessoas que circulam nas proximidades.

No caso da construção que desabou, a Prefeitura informou que havia histórico de intervenções administrativas anteriores e que a estrutura chegou a ser alvo de determinação judicial relacionada à sua demolição.

Fiscalização municipal também está sob análise

O desabamento levou a Prefeitura de São Paulo a abrir uma apuração interna sobre os procedimentos de fiscalização relacionados ao imóvel. A Controladoria-Geral do Município passou a investigar a atuação da servidora que atestou a demolição da estrutura anterior.

Além disso, a administração municipal determinou a suspensão de obras vinculadas às construtoras envolvidas e interrompeu novos pedidos de alvará relacionados às empresas enquanto as apurações avançam.

O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo (Crea-SP) também informou que realizou diligências no local e apura a conduta dos profissionais envolvidos.

Responsabilidade técnica ganha destaque

Em empreendimentos residenciais, a responsabilidade pela segurança não se limita ao momento da entrega das unidades. Durante a construção, profissionais habilitados e empresas precisam observar os projetos aprovados, as normas técnicas aplicáveis e as condições de estabilidade da edificação.

A utilização de sistemas construtivos específicos também exige atenção aos procedimentos de execução. No empreendimento que desabou, informações levantadas pela imprensa indicam o uso de alvenaria estrutural, sistema que pode ser utilizado com segurança quando corretamente projetado e executado, mas que possui características técnicas próprias e exige controle adequado.

A apuração sobre o desabamento deverá determinar se houve falhas de projeto, execução, materiais, alterações na obra, condições do terreno ou outros fatores que possam ter contribuído para o colapso. A empresa, por sua vez, já afirmou que não seria possível atribuir antecipadamente a causa do acidente exclusivamente à construtora e que outras possibilidades também deveriam ser analisadas.

Investigação continua

Enquanto Cristiano Vivacqua e Isis Brandão permanecem foragidos, as autoridades continuam reunindo documentos, depoimentos e informações técnicas sobre o empreendimento. A Polícia Civil também analisa outras possíveis irregularidades relacionadas às empresas investigadas.

O caso reúne diferentes frentes de apuração: perícia sobre o desabamento, investigação criminal, fiscalização municipal, atuação dos responsáveis técnicos e reclamações de compradores. Cada uma deverá produzir elementos próprios para esclarecer as circunstâncias da tragédia.

Até a conclusão das perícias e dos procedimentos investigativos, eventuais responsabilidades devem ser tratadas como objeto de apuração, sem antecipação de culpa. O desabamento, contudo, reforça a importância de fiscalização efetiva, acompanhamento técnico e cumprimento rigoroso das exigências de segurança em obras de edifícios residenciais.