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Professora sofre ameaças em condomínio por disputa eleitoral

Conflitos entre moradores no WhatsApp evoluíram para ameaças de morte; Letícia se isola e vive sob tensão constante

Professora relata crise de ansiedade e medo de sair de casa após ameaças políticas no condomínio
Foto: Imagem ilustrativa

A rotina de Letícia Meirelles, 27 anos, mudou radicalmente. Desde que se mudou para um condomínio no Tucuruvi, Zona Norte de São Paulo, para exercer aulas de idiomas online, ela precisou encarar um novo inimigo: vizinhos que transformaram o espaço residencial em palco de hostilidade verbal e ameaças de morte.

A tensão começou em 2022, com troca de figurinhas políticas no grupo de WhatsApp do condomínio, mas escalou durante a campanha presidencial. Segundo Letícia, um morador exaltado anunciou que, se muito continuassem postagens com apoio a Lula, ele sairia da própria casa e “ia mostrar quem de verdade são os eleitores do Bolsonaro”, dizendo que possuía arma.

Ameaças desse tipo despertaram nela “crise de ansiedade muito grande”, tornando o lar um espaço inseguro. Ela conta que deixou de levar amigos ou familiares ao prédio, passear com os cães e até sair. A falta de ação formal aumentou a sensação de vulnerabilidade.

“Eu fiquei muito tempo preocupada e até pensei em me mudar do prédio após esse evento”
“Por um tempo eu tive medo de sair, até porque não sabia o rosto dele”

A professora relata que tentou acionar o síndico e a administração via grupo, mas a única medida foi restringir postagens, sem coibir o autor das ameaças. No momento em que o grupo reabriu para os moradores, o agressor reativou ataques.

Evolução das ocorrências de injúria

O Terra fez levantamento com base em dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Em 2025, até julho, já foram registradas 711 ocorrências de injúria, um aumento de 43,3% em relação ao início de 2024.

Historicamente, foram 496 casos em 2020, 549 em 2021 (alta de 11 %), e picos em 2022 com 916 registros no primeiro semestre. Já em 2023 e 2024 houve queda — 686 e 605 casos, respectivamente — até este avançar para nova escalada neste ano.

Violência psicológica dentro do lar

Para o psicólogo Paulo Porto, esse tipo de conflito cria “doença invisível e silenciosa”, já que o local onde se deveria sentir proteção se converte em fonte de medo constante. Em casos extremos, ele alerta para risco de suicídio ou colapso psicológico.

Ele destaca que os efeitos físicos podem se manifestar como queda de cabelo, enxaqueca, distúrbios gastrointestinais, comprometimento imunológico ou até sintomas respiratórios e cardiovasculares — sinais de estresse profundo prolongado.

A psicanalista Cintia Castro complementa: o isolamento, a evitação das áreas comuns e o medo constante são indícios de alerta para transtornos como depressão, crise de pânico ou transtorno de estresse pós-traumático.

Papel do síndico e medidas para proteção condominial

Christiane Faturi, vice-presidente da ANSÍNDICOS, orienta que o morador reúna evidências (prints, áudios, vídeos, testemunhas), faça boletim de ocorrência, solicite mediação e, se necessário, ação judicial com base no artigo 1.337 do Código Civil, relacionado ao condômino antissocial.

A lei permite que condôminos cuja conduta prejudique o convívio social sejam expulsos judicialmente. Segundo Faturi, silenciar não é medida eficaz — é preciso reagir institucionalmente para proteger a segurança dos moradores.

Renato Daniel Tichauer, da Assosíndicos, encara o aumento de conflitos como preocupação crescente. Ele sugere ações preventivas como palestras e tratamento institucional para atendimento psicológico a moradores vulneráveis.

Fonte: Terra