Portaria 24h desafia condomínios com fim da escala 6x1
Redução da jornada de trabalho exige reorganização das equipes e pode elevar em cerca de 20% a folha de pagamento dos condomínios, segundo simulações da Lello

Portaria 24 horas desafia condomínios com o fim da escala 6x1
A mudança nas regras da jornada de trabalho deve exigir adaptações na gestão de funcionários dos condomínios brasileiros, especialmente daqueles que mantêm portaria presencial 24 horas por dia. A necessidade de garantir a cobertura contínua do serviço, sem comprometer a segurança e o atendimento aos moradores, coloca síndicos e administradoras diante do desafio de reorganizar as escalas e administrar possíveis aumentos de custos.
Segundo reportagem publicada pela Exame em 22 de outubro de 2026, simulações realizadas pelo Grupo Lello indicam que a folha de pagamento dos condomínios pode aumentar cerca de 20% caso os empreendimentos apenas ajustem as jornadas para cumprir as novas regras, sem promover outras mudanças na organização do trabalho.
A estimativa considera um cenário em que os condomínios mantêm a estrutura operacional atual e fazem somente as adequações necessárias para atender às exigências da jornada de trabalho.
Portaria é o serviço mais pressionado
A portaria está entre os setores mais afetados porque precisa funcionar continuamente, inclusive durante a noite, aos fins de semana e nos feriados.
Enquanto algumas atividades de limpeza, manutenção e zeladoria podem ser reorganizadas conforme a rotina do empreendimento, a recepção e o controle de acesso exigem cobertura permanente nos condomínios que oferecem atendimento presencial ininterrupto.
De acordo com Angélica Arbex, diretora de Marketing e Estratégia da Lello Condomínios, a portaria é a função mais impactada pela mudança justamente por operar 24 horas por dia, sete dias por semana.
A administradora atende aproximadamente 4.200 condomínios e possui cerca de 9.300 funcionários próprios vinculados aos empreendimentos de sua carteira. A empresa também administra postos de trabalho operados por prestadoras terceirizadas.
Folha de pagamento pode aumentar
O impacto financeiro dependerá da estrutura de cada condomínio, da distribuição atual das jornadas e das alternativas adotadas para reorganizar as equipes.
No cenário em que a escala é ajustada sem outras alterações operacionais, a estimativa apresentada pela Lello aponta para um possível aumento de aproximadamente 20% na folha de pagamento.
Entretanto, as primeiras simulações realizadas pela administradora também identificaram oportunidades de reorganização capazes de reduzir despesas em determinados empreendimentos.
Entre as possibilidades avaliadas estão a redistribuição dos horários, a redução de horas extras e a adoção de escalas alternativas, como a 12x36, desde que respeitados os requisitos legais e os instrumentos coletivos aplicáveis.
O resultado depende das características de cada condomínio. Por isso, uma solução utilizada em determinado empreendimento pode não produzir os mesmos efeitos em outro.
Inteligência artificial auxilia no planejamento
Para apoiar a adaptação, a Lello desenvolveu uma ferramenta de inteligência artificial capaz de analisar informações da folha de pagamento e simular diferentes configurações de jornada.
O sistema identifica possíveis incompatibilidades entre as escalas existentes e as novas exigências, além de apresentar alternativas de reorganização das equipes e estimativas dos impactos financeiros.
Até a publicação da reportagem, 86 condomínios haviam passado pela análise, a pedido de seus síndicos. A administradora estabeleceu como meta ampliar o levantamento para todos os empreendimentos de sua carteira que possuem funcionários submetidos à escala 6x1 ou a jornadas semelhantes.
A ferramenta, contudo, não substitui a avaliação profissional. Os cenários gerados são examinados por especialistas da administradora em conjunto com síndicos e conselhos, que precisam considerar as necessidades operacionais e a capacidade financeira de cada empreendimento.
Limpeza e zeladoria também exigem ajustes
Embora a portaria concentre parte importante das preocupações, outros serviços condominiais também podem precisar de mudanças.
Na limpeza e na zeladoria, por exemplo, a reorganização das jornadas pode exigir a revisão das rotinas, da frequência de determinadas atividades e da distribuição das tarefas ao longo da semana.
A gestão precisa avaliar quais serviços devem ser mantidos diariamente, quais podem ter sua frequência ajustada e como as equipes serão distribuídas para preservar o funcionamento do empreendimento.
Essas decisões exigem planejamento para evitar que a adequação das jornadas comprometa a conservação das áreas comuns e a qualidade dos serviços oferecidos aos moradores.
Mudança também pode impactar o mercado imobiliário
Os possíveis efeitos da redução da jornada não se limitam à administração dos condomínios. A construção civil também pode enfrentar pressões de custos decorrentes da necessidade de reorganizar equipes e manter a produtividade.
Segundo a reportagem da Exame, a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), em estudo realizado com a consultoria econômica Ecconit, estima que a mudança possa elevar em 5,5% os preços dos imóveis.
A entidade também alerta para os possíveis reflexos sobre o acesso ao financiamento habitacional, especialmente entre famílias que já possuem capacidade limitada de comprometimento da renda.
Na construção, a necessidade de manter equipes presenciais nos canteiros e cumprir cronogramas pode exigir novas estratégias de organização do trabalho e produtividade.
Planejamento será essencial para os síndicos
Diante das mudanças, síndicos e administradoras precisarão avaliar as escalas vigentes, os contratos de trabalho, as convenções e os acordos coletivos aplicáveis, além dos custos envolvidos na manutenção dos serviços.
A análise antecipada permite comparar alternativas, projetar impactos no orçamento e discutir as medidas necessárias com os conselhos e os condôminos.
Também é importante verificar se eventuais mudanças na contratação ou na terceirização dos serviços atendem às exigências legais e preservam a continuidade operacional do empreendimento.
O desafio será adequar as jornadas de trabalho sem comprometer a segurança, a qualidade dos serviços e o equilíbrio financeiro dos condomínios. Para isso, cada empreendimento precisará considerar sua estrutura, suas necessidades e as alternativas juridicamente permitidas.