Polícia revela medo em condomínio controlado por milícia no RJ
Investigação aponta cobranças ilegais, ameaças de morte, agressões e interferência na administração de conjunto habitacional com mais de mil apartamentos na Baixada Fluminense

Polícia revela rotina de medo em condomínio controlado por milícia em Nova Iguaçu
Denúncias de moradores levaram a Polícia Civil do Rio de Janeiro a investigar um esquema de extorsão, ameaças e agressões em um conjunto habitacional do programa Minha Casa, Minha Vida, no bairro Jardim Guandu, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Segundo as investigações, integrantes de uma milícia teriam assumido o controle da administração do condomínio, que reúne mais de mil apartamentos.
A apuração, conduzida pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco/IE), começou nos primeiros meses de 2026, após os primeiros relatos de moradores sobre cobranças ilegais e intimidações.
De acordo com reportagem publicada pelo jornal O Dia em 16 de outubro de 2026, os investigadores avançaram com cautela para verificar as denúncias e evitar que os moradores fossem expostos a novos riscos. As apurações identificaram uma estrutura que, segundo a polícia, utilizava ameaças e pressão psicológica para exigir pagamentos.
Cobranças ilegais e ameaças contra moradores
Segundo a Polícia Civil, cada apartamento era obrigado a pagar valores entre R$ 70 e R$ 80. Em caso de atraso, a cobrança poderia dobrar. A arrecadação mensal estimada pelos investigadores ficaria entre R$ 80 mil e R$ 100 mil.
Os relatos apontam que moradores que se recusavam a pagar poderiam sofrer agressões, ameaças de morte e até expulsão das próprias residências.
A investigação também identificou indícios de que representantes ligados ao grupo monitoravam as compras dos moradores e usavam a entrada de eletrodomésticos e outros bens no condomínio como argumento para pressionar o pagamento das cobranças.
Além disso, a polícia recebeu relatos de possível assédio sexual contra moradoras por parte de homens que atuariam na estrutura de controle do residencial.
Síndicos teriam sido substituídos por representantes da milícia
Outro ponto identificado na investigação envolve a administração condominial. Conforme a Polícia Civil, os síndicos que atuavam nos blocos teriam sido substituídos por representantes indicados pelo grupo criminoso, que ficariam responsáveis pela arrecadação dos valores.
A suposta interferência na gestão permitia à organização exercer controle sobre o cotidiano do conjunto habitacional e fiscalizar os pagamentos exigidos dos moradores.
O caso evidencia os riscos que surgem quando grupos criminosos passam a interferir na administração de empreendimentos residenciais e utilizam a estrutura condominial para impor cobranças e intimidar famílias.
Policial militar está entre os investigados
Entre os nove indiciados está um sargento da Polícia Militar investigado por suspeita de participação no esquema. Segundo a apuração, ele teria frequentado reuniões e interferido na administração do condomínio, além de supostamente contribuir para a intimidação dos moradores.
O policial também é investigado por possível participação na organização de grupos de WhatsApp utilizados para manter contato com síndicos e porteiros e exercer controle sobre a rotina do residencial.
Na quarta-feira (14), agentes da Draco, com apoio da Corregedoria da Polícia Militar, cumpriram um mandado de busca e apreensão relacionado ao caso. O sargento foi conduzido à delegacia, permaneceu em silêncio e acabou liberado. A investigação não equivale a uma condenação, e a participação atribuída a ele ainda precisa ser apurada judicialmente.
Polícia apura possível relação com morte de morador
A Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense investiga se a morte de Vitor Hugo Pereira Tomaz tem relação com as práticas atribuídas ao grupo. Segundo a reportagem, ele teria sido retirado de casa por homens armados e encontrado morto no Rio Guandu em 29 de setembro de 2025.
Até o momento, a possível ligação entre o homicídio e o esquema de extorsão não foi confirmada.
Durante as diligências, os policiais apreenderam celulares, computadores, cadernos com anotações, chaves de imóveis, um distintivo com suspeita de falsificação e um bastão de madeira. A operação buscou cumprir mandados de prisão e de busca e apreensão contra pessoas apontadas como integrantes da estrutura investigada.
Segurança e autonomia da gestão condominial
O caso de Nova Iguaçu chama a atenção para a vulnerabilidade de moradores submetidos a ameaças e para os impactos da interferência criminosa na administração de conjuntos habitacionais.
A gestão condominial depende de procedimentos legítimos, transparência na arrecadação e participação dos moradores, sem coerção ou cobranças impostas por terceiros. Quando há suspeita de extorsão ou violência, a apuração pelas autoridades é essencial para identificar os responsáveis e proteger as vítimas.
As investigações sobre o condomínio Jardim Guandu seguem em andamento, com o objetivo de esclarecer a estrutura do grupo, a participação dos investigados e a possível relação entre os crimes relatados.