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Papagaio atleticano é expulso de condomínio pela Justiça após gritar "Gol do Galo"

Decisão judicial determinou a retirada de um papagaio de um apartamento em Belo Horizonte, após vizinhos acionarem a Justiça por perturbação causada pelos gritos da ave em apoio ao Atlético-MG. Caso inusitado repercutiu no Brasil e no exterior.

Papagaio atleticano é expulso de condomínio pela Justiça após gritar "Gol do Galo"
Foto: Foto: Reprodução

Caso emblemático reacende debate sobre perturbação, regras condominiais e convivência entre vizinhos

Um caso inusitado e, ao mesmo tempo, emblemático, marcou a história dos condomínios em Belo Horizonte nos anos 1970. A Justiça determinou a expulsão de um papagaio atleticano, conhecido como Tzitzutzi, após vizinhos acionarem o Judiciário alegando perturbação causada pelos gritos constantes da ave em apoio ao Atlético-MG.

O episódio ocorreu em um dos condomínios mais tradicionais do Centro de Belo Horizonte, no Edifício Paulo Barbosa, na Rua Espírito Santo. A ave, de origem amazônica e extremamente carismática, foi adotada pelo casal Adolfo e Lea Goldstein durante uma viagem ao Norte do país, em 1968.

Apesar de encantar os moradores com músicas de Roberto Carlos, foi sua paixão pelo Atlético que gerou a polêmica. A cada gol do Galo, lá vinha o grito estridente: “Galoooo...”, além de bordões como “Gol do Dario” e “Cruzeiro é freguês”, provocando desconforto em vizinhos, especialmente torcedores rivais.

Diante da situação, o síndico da época, José Furtado Nunes, alegou que o barulho da ave, somado a supostas cascas de frutas jogadas da janela, configurava perturbação do sossego. A disputa foi parar na Justiça. A defesa do casal alegou que o regulamento permitia aves de pequeno porte, mas o síndico não cedeu.

A decisão foi proferida pelo juiz Francisco de Assis Figueiredo, da 9ª Vara Cível de Belo Horizonte, que lamentou a judicialização do conflito, mas determinou o despejo do papagaio. Segundo o magistrado, os moradores deveriam buscar mais harmonia e diálogo antes de acionar o Judiciário para conflitos de convivência.

A repercussão foi imediata. O caso ganhou as páginas dos principais jornais do país, como Estado de Minas, Diário da Tarde e a revista O Cruzeiro. Chegou até à imprensa internacional, com notas publicadas nos Estados Unidos e no Canadá. O apresentador Flávio Cavalcanti, da TV Tupi, se solidarizou com os donos do papagaio e convidou o casal para um apelo público em seu programa.

Apesar da comoção, a sentença foi confirmada pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais, por três votos a dois, que reforçou a obrigatoriedade do papagaio deixar o apartamento. Um dos desembargadores destacou, inclusive, que, apesar de serem de pequeno porte, aves como papagaios poderiam gerar incômodos significativos em ambientes coletivos, como condomínios.

O destino de Tzitzutzi permaneceu incerto. Propostas de compra da ave surgiram de todo o país, mas foram rejeitadas pelo casal, que afirmou que não abriria mão do animal por nenhum valor. Chegou-se ao ponto de um torcedor do Atlético adquirir um papagaio falso, acreditando ser o famoso Tzitzutzi, e só descobrir o golpe depois que percebeu que a ave não falava nada — muito menos gritava "Galooo!".

O episódio, além de inusitado, acendeu uma reflexão sobre os limites da convivência condominial, as interpretações das normas internas e o papel do Judiciário em mediações de conflitos entre vizinhos. Mesmo mais de cinco décadas depois, o caso do papagaio atleticano ainda ecoa como exemplo clássico de até onde podem ir os desentendimentos dentro de um condomínio — e o quanto o bom senso é essencial.

Fonte: Estado de Minas