Serviços fazem condomínio ficar mais caro no país
Taxa condominial média passou de R$ 413 para R$ 516 entre 2022 e 2025, enquanto custos de mão de obra e segurança pressionam despesas

O valor médio das taxas de condomínio aumentou quase 25% no Brasil entre os primeiros semestres de 2022 e 2025. O levantamento, baseado em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Receita Federal, aponta que a média mensal passou de R$ 413 para R$ 516 no período.
Os números fazem parte do balanço Censo Condominial, realizado pela Ucondo, e mostram que o aumento ocorreu em quatro das cinco regiões brasileiras. O avanço mais expressivo foi registrado no Sudeste, onde a taxa condominial cresceu 30%. Na contramão desse movimento, a região Norte apresentou redução de 17%.
Além do aumento das despesas, o levantamento chama atenção para outro problema que afeta diretamente a administração financeira dos empreendimentos: a inadimplência. Em 2025, 11,95% dos condôminos estavam inadimplentes, índice 2,12 pontos percentuais superior ao registrado em 2022.
O cenário cria uma combinação desafiadora para síndicos e administradoras. De um lado, os condomínios precisam manter serviços essenciais e atender às novas expectativas dos moradores. De outro, precisam controlar despesas e lidar com a perda de receita provocada pelos atrasos nos pagamentos.
Mais serviços pressionam as taxas
A ampliação da oferta de serviços dentro dos condomínios é apontada como um dos fatores que ajudam a explicar o aumento das taxas.
A expansão das comodidades oferecidas aos moradores trouxe novas necessidades para a administração. Serviços de segurança, manutenção e outras estruturas que passaram a integrar a rotina dos empreendimentos representam despesas permanentes e precisam ser incorporados ao planejamento financeiro.
Em entrevista ao Conexão Record News, Ana Maria Castelo, coordenadora dos índices de preços do FGV Ibre, explicou que a maior oferta de serviços acaba sendo refletida no valor pago pelos moradores.
Segundo a especialista, existe ainda um aspecto frequentemente ignorado por quem compra ou aluga um imóvel: o peso da taxa condominial no orçamento familiar.
“Muitas vezes, quando as pessoas vão adquirir o imóvel, normalmente essa aquisição é feita por financiamento. Há uma preocupação muito grande, claro, quanto ao que a prestação vai representar do orçamento. E muitas vezes as pessoas esquecem do condomínio, não prestam atenção nessa tarifa, que pode representar uma parte importante também do aluguel, portanto, da renda, e pode até comprometer a capacidade de pagamento”, alerta Castelo.
A avaliação evidencia que o custo de moradia não se limita ao valor da prestação do financiamento ou do aluguel. Para quem vive em um condomínio, a taxa mensal representa uma despesa recorrente que precisa ser considerada no planejamento financeiro.
Custos com mão de obra ganham peso
Entre os componentes que vêm pressionando as despesas condominiais está o custo da mão de obra e dos serviços contratados pelos empreendimentos.
Condomínios precisam manter equipes e estruturas responsáveis por atividades como segurança, limpeza, conservação e manutenção. Quando esses custos aumentam, o impacto acaba sendo incorporado ao orçamento necessário para manter o funcionamento das áreas comuns.
A situação é especialmente relevante em empreendimentos que dependem de equipes numerosas para manter determinados serviços disponíveis durante grande parte do dia.
Segundo Ana Maria Castelo, os custos relacionados aos serviços de segurança estão entre os fatores que influenciam o valor da taxa condominial.
“O custo dos serviços tem encarecido e a resposta tem sido, muitas vezes, a adoção da portaria eletrônica. Então, assim, a questão também da segurança, dos serviços de segurança, é todo um conjunto de coisas que tem influenciado e tem passado a pesar nessa taxa condominial”, aponta.
A mudança mostra como o aumento de custos pode estimular os condomínios a buscar alternativas tecnológicas para determinadas atividades.
Portaria eletrônica aparece como alternativa
A substituição ou redução de determinadas atividades presenciais por soluções eletrônicas é uma das respostas encontradas por condomínios diante do aumento dos custos.
A portaria eletrônica pode ser utilizada como alternativa em determinados empreendimentos, dependendo das características do condomínio, do perfil dos moradores e da avaliação dos riscos relacionados à segurança.
A adoção da tecnologia, porém, também exige investimento. Equipamentos, instalação, monitoramento, manutenção e suporte técnico passam a integrar a estrutura de despesas do condomínio.
Por isso, a decisão não deve considerar somente o valor da folha de pagamento. É necessário analisar o custo total do sistema e comparar os resultados esperados com o modelo tradicional.
A segurança, por sua natureza, exige ainda uma avaliação criteriosa dos riscos antes de qualquer alteração no modelo de controle de acesso.
Inadimplência agrava desafio financeiro
Enquanto os custos aumentam, os condomínios também precisam enfrentar a inadimplência.
O levantamento aponta que 11,95% dos condôminos estavam inadimplentes em 2025, um crescimento de 2,12 pontos percentuais em relação a 2022.
Para a administração, o atraso no pagamento das cotas representa redução na receita disponível para cumprir compromissos financeiros.
Mesmo quando uma parte dos moradores deixa de pagar a taxa no prazo, o condomínio continua tendo despesas com funcionários, fornecedores, contratos, manutenção, serviços essenciais e contas de consumo.
Esse desequilíbrio pode pressionar o caixa e aumentar a necessidade de medidas de cobrança.
Quando a inadimplência permanece elevada, o impacto pode atingir o planejamento financeiro do empreendimento e dificultar a formação de reservas para despesas futuras.
Moradores precisam considerar custo total da moradia
O levantamento também coloca em evidência a importância de considerar a taxa condominial no momento de comprar ou alugar um imóvel.
Uma unidade com valor de venda ou aluguel aparentemente compatível com o orçamento pode se tornar mais onerosa quando são acrescentadas despesas recorrentes, como condomínio, impostos, consumo e outras obrigações.
No caso dos imóveis financiados, o comprometimento mensal pode envolver simultaneamente a prestação do financiamento e a taxa condominial.
A avaliação antecipada desses custos pode evitar que o comprador ou locatário assuma uma despesa acima de sua capacidade financeira.
A orientação também é relevante para o mercado imobiliário, já que o valor da taxa pode influenciar a atratividade de determinados empreendimentos.
Sudeste registra maior alta
Entre as regiões brasileiras, o Sudeste apresentou o maior crescimento da taxa condominial no período analisado.
A alta chegou a 30% entre os primeiros semestres de 2022 e 2025, superando a média nacional de quase 25%.
Já a região Norte apresentou comportamento diferente, com retração de 17% no mesmo período.
Os dados mostram que a evolução das despesas condominiais não ocorre de maneira uniforme em todo o país. Características regionais, estrutura dos empreendimentos, custos de serviços e mão de obra podem influenciar o comportamento das taxas.
Para administradoras e síndicos, acompanhar os indicadores do próprio condomínio continua sendo fundamental, uma vez que a média nacional não necessariamente representa a realidade financeira de cada empreendimento.
Gestão financeira ganha importância
O aumento das taxas e da inadimplência reforça a importância de uma gestão financeira organizada.
O orçamento condominial precisa considerar despesas fixas, contratos, manutenção, mão de obra, segurança, consumo e eventuais gastos extraordinários.
O acompanhamento periódico também permite identificar quais categorias estão pressionando o caixa e avaliar alternativas para reduzir desperdícios sem comprometer serviços essenciais.
A análise de contratos pode ser outro instrumento utilizado pela administração. A revisão de fornecedores, a comparação de propostas e o acompanhamento da qualidade dos serviços ajudam a identificar oportunidades de otimização.
A redução de custos, entretanto, não deve ocorrer de forma indiscriminada. Serviços relacionados à segurança, manutenção preventiva e conservação precisam ser avaliados considerando também os riscos de uma eventual redução de estrutura.
Mais serviços exigem planejamento
A expansão dos serviços oferecidos nos condomínios acompanha uma mudança nas expectativas dos moradores. Estruturas que antes eram consideradas diferenciais passaram a ser incorporadas com maior frequência aos novos empreendimentos.
Esse movimento pode aumentar o conforto e a conveniência dos usuários, mas também amplia a responsabilidade financeira da administração.
Cada novo serviço representa um compromisso com custos de implantação, operação e manutenção. Por isso, antes de aprovar uma nova despesa, o condomínio precisa avaliar o impacto que ela terá sobre a taxa mensal.
A decisão também deve considerar a utilização efetiva do serviço pelos moradores. Uma estrutura pouco utilizada pode representar um custo permanente sem retorno proporcional para a coletividade.
Nesse sentido, a gestão condominial precisa conciliar as demandas dos moradores com a realidade financeira do empreendimento.
Desafio para síndicos e administradoras
O cenário apresentado pelo levantamento coloca o síndico diante de uma tarefa cada vez mais complexa: administrar uma estrutura com mais serviços, custos maiores e moradores com diferentes capacidades financeiras.
A gestão precisa acompanhar receitas e despesas, controlar contratos, monitorar a inadimplência e planejar investimentos e manutenções.
A transparência também se torna fundamental. Os moradores precisam compreender quais despesas estão elevando a taxa e quais serviços são responsáveis por determinada parcela dos custos.
Uma comunicação clara pode reduzir conflitos e facilitar a discussão sobre medidas de economia, investimentos e prioridades.
Além disso, decisões relacionadas a alterações significativas nos serviços ou nas despesas devem seguir as regras legais e condominiais aplicáveis, incluindo, quando necessário, a deliberação dos condôminos em assembleia.
Tecnologia pode ajudar no controle de despesas
A busca por maior eficiência também deve estimular os condomínios a avaliar o uso estratégico da tecnologia.
Sistemas de gestão financeira, plataformas de comunicação, controle de acesso e soluções de monitoramento podem contribuir para organizar processos e reduzir determinadas atividades operacionais.
Entretanto, a tecnologia não deve ser tratada como solução automática para todos os problemas financeiros.
Cada empreendimento precisa avaliar o custo de implantação e manutenção, além dos ganhos esperados em produtividade, segurança ou redução de despesas.
A escolha de uma solução tecnológica precisa estar alinhada ao perfil do condomínio e aos objetivos definidos pela administração.
Equilíbrio entre qualidade e custo
O aumento da taxa condominial não está relacionado a um único fator. Os dados apresentados mostram a combinação entre expansão de serviços, custos de mão de obra e segurança, além dos efeitos da inadimplência sobre o orçamento dos empreendimentos.
Nesse cenário, a gestão condominial precisa buscar equilíbrio entre a manutenção da qualidade dos serviços e a capacidade de pagamento dos moradores.
O desafio não está apenas em reduzir a taxa, mas em garantir que os recursos arrecadados sejam utilizados de forma eficiente e que cada despesa tenha justificativa dentro da realidade do empreendimento.
Para o morador, o cenário reforça a necessidade de considerar a taxa condominial como parte relevante do custo de moradia. Para síndicos e administradoras, evidencia a importância de planejamento, transparência, controle de despesas e acompanhamento permanente da inadimplência.
Os números nacionais servem como um alerta para um setor que vem incorporando novas soluções e serviços, mas que precisa administrar os impactos financeiros dessa transformação.
Com a taxa média passando de R$ 413 para R$ 516 em três anos, a gestão eficiente do orçamento deixa de ser apenas uma questão administrativa e passa a ser um dos principais instrumentos para preservar a sustentabilidade financeira dos condomínios brasileiros.
Fonte: R7