Morar sozinho transforma mercado de imóveis
Brasil já tem 13,7 milhões de pessoas vivendo sozinhas, cenário que amplia a demanda por unidades menores, localização estratégica e serviços

O crescimento de quem vive sozinho
O Brasil passa por uma transformação importante na composição dos domicílios. Atualmente, 13,7 milhões de pessoas vivem sozinhas no país, e os imóveis ocupados por apenas um morador já representam quase um em cada cinco domicílios. O número praticamente triplicou em pouco mais de duas décadas, segundo dados apresentados em levantamento da Brain Inteligência Estratégica em parceria com a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc).
A mudança também aparece nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua). Os domicílios com apenas um morador passaram de 12,2% do total em 2012 para 19,7% em 2025.
O fenômeno não está concentrado entre os jovens, como poderia sugerir a percepção mais comum sobre o tema. Entre os brasileiros que vivem sozinhos, 47% têm entre 30 e 59 anos, enquanto 41% têm 60 anos ou mais. Apenas 12% estão na faixa entre 15 e 29 anos.
Mudança demográfica afeta o mercado imobiliário
O aumento das residências unipessoais está diretamente relacionado a transformações demográficas e sociais. Envelhecimento da população, maior longevidade, adiamento dos casamentos, redução do número de filhos, separações e maior autonomia individual estão entre os fatores apontados para explicar esse movimento.
Para o mercado imobiliário, a consequência é uma demanda cada vez mais diversificada.
Uma pessoa jovem que deixou a casa dos pais apresenta necessidades diferentes de alguém que passou a morar sozinho depois de uma separação. Da mesma forma, um idoso que decidiu trocar uma residência maior por um apartamento mais prático pode procurar características completamente diferentes das valorizadas por um profissional no início da carreira.
Por isso, o crescimento dos domicílios unipessoais não significa simplesmente que todos os consumidores querem apartamentos pequenos.
Apartamentos compactos ganham espaço
A expansão desse público ajuda a explicar a força dos imóveis de menor metragem em diferentes mercados brasileiros.
O apartamento compacto pode atender consumidores que priorizam localização, praticidade e facilidade de manutenção. Para quem mora sozinho, uma planta menor pode representar menor custo total de aquisição ou locação e uma rotina mais simples.
Em São Paulo, por exemplo, dados do Secovi-SP citados pela Exame mostram que unidades entre 30 e 45 metros quadrados responderam por 70% dos lançamentos em junho de 2026.
Esse movimento também aparece em outras grandes cidades, onde incorporadoras passaram a desenvolver empreendimentos voltados a moradores que valorizam proximidade de transporte, comércio, restaurantes, serviços e centros de trabalho.
Mas a metragem não é o único fator.
Localização ganha importância
Entre os moradores que vivem sozinhos, a localização pode assumir papel ainda mais relevante. Um imóvel próximo a serviços e transporte pode reduzir a necessidade de deslocamentos e facilitar atividades cotidianas.
A própria pesquisa apresentada pela Brain e pela Abrainc mostra diferenças entre gerações. Para a Geração Z, por exemplo, há maior disposição para aceitar menos espaço em troca de uma localização considerada conveniente, próxima do trabalho, restaurantes e opções de lazer.
Entre os moradores mais velhos, segurança, praticidade, elevador e proximidade de serviços aparecem com maior importância.
Isso demonstra que o mercado precisa observar não apenas quantas pessoas vivem sozinhas, mas quem são essas pessoas e em qual momento da vida estão.
Condomínios precisam acompanhar novos perfis
A transformação demográfica também produz efeitos sobre a gestão condominial.
Empreendimentos que recebem maior número de moradores individuais podem apresentar demandas diferentes das observadas em condomínios tradicionalmente ocupados por famílias maiores.
Serviços de conveniência, espaços compartilhados, lavanderias, minimercados, coworkings, áreas de convivência e soluções de entrega podem ganhar relevância, especialmente em empreendimentos com unidades compactas.
Ao mesmo tempo, a administração precisa considerar que um condomínio com muitos moradores individuais pode apresentar uma dinâmica de circulação diferente, com maior rotatividade de residentes e visitantes em determinadas situações.
Isso torna o controle de acesso, a comunicação interna e a organização das regras de convivência ainda mais importantes.
Morar sozinho não significa morar da mesma maneira
Um dos principais pontos do levantamento é justamente a diversidade existente dentro do grupo de pessoas que vivem sozinhas.
Entre os jovens da Geração Z, 90% consideram a residência atual temporária. Nesse grupo, a busca por independência e localização pode pesar mais do que a permanência definitiva no imóvel.
Na outra ponta, os idosos apresentam uma relação diferente com a moradia. Entre os Baby Boomers que vivem sozinhos, segurança e praticidade aparecem com destaque, e uma parcela significativa considera a residência atual definitiva.
Para o setor imobiliário e para os condomínios, isso significa que uma mesma metragem pode atender públicos completamente diferentes.
Um apartamento de 35 metros quadrados pode ser uma primeira moradia para um jovem, uma solução temporária para uma pessoa recém-separada ou uma alternativa de praticidade para um idoso.
Envelhecimento aumenta a necessidade de adaptação
O envelhecimento populacional torna essa discussão ainda mais relevante.
Segundo os dados apresentados no levantamento, a população brasileira com 60 anos ou mais deve chegar a 37,8% do total em 2070, quase o dobro dos 15,6% registrados em 2022.
Esse cenário pode aumentar a demanda por imóveis e condomínios preparados para diferentes níveis de mobilidade.
Elevadores, acessibilidade, circulação segura, iluminação adequada, pisos apropriados e facilidade de acesso aos serviços podem se tornar fatores cada vez mais importantes na escolha de um imóvel.
Para os condomínios existentes, o envelhecimento dos moradores também reforça a importância de manutenção e adequações que garantam acessibilidade e segurança.
Separações também reorganizam a demanda
Outro fator relevante é o aumento de pessoas que passam a morar sozinhas depois de uma separação.
O levantamento cita mais de 428 mil divórcios registrados em 2024 e mostra como a reorganização familiar também produz novas necessidades habitacionais.
Uma família que anteriormente ocupava uma única residência pode passar a demandar dois imóveis. Isso cria procura adicional por apartamentos menores e mais acessíveis, inclusive em regiões próximas à antiga residência ou aos locais de trabalho.
Esse fenômeno também pode alterar a procura por determinadas plantas. Uma pessoa separada que recebe os filhos regularmente, por exemplo, pode precisar de uma unidade compacta, mas com espaço suficiente para acomodá-los.
Portanto, a redução do número de moradores não significa necessariamente redução proporcional da necessidade de espaço.
Segurança continua sendo prioridade
Apesar das diferenças entre gerações, a segurança aparece como um dos principais fatores relacionados à moradia.
Na pesquisa, a segurança foi apontada como motivação para a compra por 36% dos entrevistados. Quando somada à formação de patrimônio, relacionada à estabilidade, a proporção chega a 51%. Qualidade de vida aparece com 18%.
Para os condomínios, esse resultado reforça a importância de sistemas de controle de acesso, iluminação, manutenção, monitoramento e protocolos de emergência.
No caso de moradores idosos que vivem sozinhos, esses cuidados podem assumir importância ainda maior.
A segurança, porém, não deve ser analisada apenas pela presença de equipamentos. Uma gestão eficiente também depende de procedimentos, funcionários treinados, comunicação e manutenção dos sistemas existentes.
Serviços podem se tornar diferencial
Com mais pessoas vivendo sozinhas, serviços que economizem tempo e facilitem a rotina podem ganhar espaço nos empreendimentos.
Lavanderias compartilhadas, minimercados, espaços de trabalho, áreas de convivência e soluções para recebimento de encomendas são exemplos de estruturas que podem aumentar a praticidade de quem passa boa parte do dia fora de casa.
Esse movimento já aparece no desenvolvimento de apartamentos compactos e empreendimentos com maior oferta de serviços.
Para o condomínio, entretanto, cada novo serviço representa também uma necessidade de planejamento. É preciso avaliar custos, manutenção, segurança, regras de utilização e impacto nas despesas condominiais antes de transformar uma comodidade em obrigação para todos os moradores.
Mercado terá de entender quem está por trás da metragem
A pesquisa mostra que a transformação do mercado imobiliário não pode ser resumida à construção de apartamentos cada vez menores.
O crescimento das pessoas que vivem sozinhas é real, mas reúne perfis muito diferentes. Jovens buscam independência e localização; pessoas separadas podem precisar reorganizar a vida familiar; idosos podem priorizar segurança, acessibilidade e praticidade.
O levantamento ouviu 1.142 pessoas entre 21 e 70 anos, com renda superior a R$ 2.500, e mostra justamente como idade, renda e momento de vida interferem na escolha do imóvel.
Para incorporadoras, administradoras e gestores condominiais, compreender essa diversidade será cada vez mais importante.
O desafio não está apenas em construir unidades menores, mas em desenvolver condomínios capazes de atender diferentes formas de morar, com segurança, praticidade, acessibilidade e serviços compatíveis com as necessidades dos novos moradores.
A tendência demográfica indica que viver sozinho deixou de ser uma situação restrita a um determinado grupo etário e passou a fazer parte da realidade de milhões de brasileiros. O mercado imobiliário e a gestão dos condomínios, portanto, terão de acompanhar essa transformação.