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Minha Casa, Minha Vida de um quarto pode impulsionar moradias no Centro do Recife

Mudança nas regras de financiamento para apartamentos de um dormitório pode ampliar a ocupação residencial e estimular a revitalização da região central

Minha Casa, Minha Vida de um quarto pode impulsionar moradias no Centro do Recife

A possibilidade de financiar apartamentos de apenas um dormitório pelo Minha Casa, Minha Vida (MCMV) pode abrir uma nova frente para a ocupação residencial e a revitalização do Centro do Recife. A discussão foi apresentada durante encontro do Lide Construção, realizado na capital pernambucana na segunda-feira (21), que reuniu representantes do mercado imobiliário e gestores para tratar de habitação, retrofit e regeneração urbana.

Atualmente, segundo informações apresentadas no evento, as regras da Caixa Econômica Federal criam obstáculos para o enquadramento de unidades de um quarto no programa habitacional. A restrição reduz as possibilidades de financiamento justamente para uma tipologia que pode atender parte do público interessado em morar nas regiões centrais.

Durante o encontro, Rafael Simões apontou a existência dessa lacuna no modelo atual. Segundo o executivo, uma parcela significativa da população não consegue financiar apartamentos de um dormitório pelo programa, embora exista demanda por esse tipo de imóvel. Ele afirmou ainda que o setor busca discutir uma possível atualização das regras.

Demanda por imóveis compactos

A discussão ganha relevância diante das mudanças no perfil dos potenciais moradores do Centro do Recife. Pesquisa apresentada por Bruno Cantalupo, da BCB Inteligência, ouviu mais de 3 mil pessoas e analisou o interesse por imóveis em áreas centrais da capital pernambucana.

Entre os entrevistados que demonstraram interesse em morar no Centro, 49% não eram casados e 41% não tinham filhos. O perfil indica a presença de pessoas que podem ter maior aderência a apartamentos compactos, especialmente unidades destinadas a quem vive sozinho ou busca uma primeira moradia.

A demanda, entretanto, não se limita a esse grupo. O levantamento também identificou interesse de investidores interessados em obter renda com locação, além de pessoas do interior de Pernambuco que consideram adquirir uma segunda residência na capital para utilizar como ponto de apoio, lazer e entretenimento.

Estudantes universitários e idosos que procuram maior autonomia e acesso facilitado a serviços também aparecem entre os públicos que podem se beneficiar de empreendimentos compactos localizados em áreas consolidadas.

Centro reúne infraestrutura e mobilidade

A possibilidade de ampliar a moradia no Centro está relacionada à infraestrutura já existente na região. A concentração de comércio, serviços, instituições de ensino, equipamentos públicos e transporte pode reduzir a necessidade de deslocamentos extensos no cotidiano.

Essa característica também se conecta à discussão sobre qualidade de vida e mobilidade urbana. Para determinados perfis de moradores, morar próximo ao trabalho, estudo e serviços pode representar economia de tempo e de despesas com transporte.

A reocupação residencial de áreas centrais também pode contribuir para aumentar a utilização de imóveis que atualmente apresentam baixa ocupação ou que perderam sua função original. Nesse contexto, o retrofit adaptação e modernização de edificações existentes aparece como uma das alternativas discutidas pelo setor para ampliar a oferta habitacional.

Mercado imobiliário já mostra demanda por compactos

O interesse por unidades menores ocorre em um mercado que já apresenta forte presença de imóveis compactos no Recife. Dados apresentados pela BCB Inteligência mostram que agosto registrou R$ 715 milhões em Valor Geral de Vendas na Região Metropolitana do Recife, com 1.261 unidades residenciais comercializadas. Deste total, 620 estavam vinculadas ao Minha Casa, Minha Vida e 641 pertenciam aos demais segmentos.

No Centro, o bairro de São José registrou 184 unidades vendidas em agosto, impulsionado por lançamentos recentes. O desempenho reforça a existência de movimentação imobiliária em áreas centrais da capital.

Outro levantamento divulgado recentemente pelo próprio setor aponta que o preço do metro quadrado de imóveis compactos e de um dormitório no Recife avançou 15% em 12 meses, chegando a R$ 15.138 no segundo trimestre de 2026. O dado demonstra que essa tipologia já possui presença relevante na dinâmica imobiliária da cidade.

Novos projetos começam a mirar o Centro

A discussão sobre habitação compacta também ocorre em paralelo à chegada de novos empreendimentos voltados para áreas centrais. A Morapê Construtora anunciou um projeto na Boa Vista, com 272 unidades, sendo 267 residenciais e cinco comerciais. Os apartamentos terão entre 23 m² e 36 m², predominantemente com um quarto, e serão direcionados especialmente ao público interessado em adquirir a casa própria pelo Minha Casa, Minha Vida.

O empreendimento não terá vagas de garagem, estratégia associada à localização central e à oferta de transporte público, comércio e serviços no entorno. A proposta considera a proximidade com os locais de trabalho e estudo como parte da solução habitacional.

Esse movimento indica que o debate sobre habitação no Centro não depende exclusivamente de novos terrenos. A adaptação de imóveis existentes e o desenvolvimento de projetos compactos podem formar parte de uma estratégia mais ampla de ocupação residencial.

Desafio está nas regras de financiamento

Apesar da demanda identificada, a inclusão de apartamentos de um dormitório no MCMV depende de mudanças nas regras de enquadramento e financiamento. A questão é especialmente relevante para projetos compactos destinados às áreas centrais, onde o tamanho reduzido das unidades pode ser uma característica adequada ao perfil dos moradores.

A eventual flexibilização, caso seja adotada, poderia ampliar o número de consumidores aptos a financiar esses imóveis dentro do programa. Também poderia criar novas oportunidades para incorporadoras interessadas em desenvolver empreendimentos de menor metragem em regiões com infraestrutura consolidada.

Ao mesmo tempo, a ampliação da oferta habitacional precisa ser acompanhada por condições urbanas capazes de sustentar a chegada de novos moradores. Pesquisa apresentada pela BCB Inteligência identificou que a ausência de comércio e serviços de proximidade é uma das principais barreiras apontadas por pessoas que não pretendem comprar imóveis no Centro.

Reocupação depende de mais fatores

A transformação do Centro do Recife em uma área mais residencial envolve, portanto, diferentes frentes. Além do financiamento, entram em cena a recuperação de edifícios, segurança, mobilidade, serviços, comércio, espaços públicos e infraestrutura urbana.

O modelo de apartamentos compactos pode atender a uma parcela específica dessa demanda, principalmente quando associado à localização próxima de oportunidades de trabalho, estudo e serviços. A oferta de imóveis de um dormitório também pode ampliar as alternativas para famílias unipessoais e outros perfis que não necessitam de plantas maiores.

Para o mercado condominial, a expansão desse modelo representa a possibilidade de novos empreendimentos com maior quantidade de unidades e áreas privativas reduzidas, exigindo planejamento específico para manutenção, segurança, circulação e administração das áreas comuns.

A discussão sobre o financiamento de apartamentos de um quarto pelo Minha Casa, Minha Vida coloca, assim, mais uma alternativa na agenda de revitalização do Centro do Recife. A eventual mudança nas regras poderá influenciar a produção de novos imóveis, mas a consolidação desse movimento dependerá também da capacidade de combinar moradia acessível, infraestrutura urbana, mobilidade e serviços.