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Milícia cobrava taxas ilegais de moradores de condomínio

Grupo ligado a Juninho Varão é investigado por extorquir moradores de mais de mil apartamentos em Nova Iguaçu e substituir síndicos por pessoas ligadas à organização

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Foto: Reprodução

Milícia arrecadava até R$ 100 mil por mês

Uma investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro apontou que uma milícia ligada a Gilson Ingrácio de Souza Junior, conhecido como Juninho Varão, teria arrecadado entre R$ 80 mil e R$ 100 mil por mês por meio de cobranças ilegais impostas a moradores de um condomínio em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

O conjunto habitacional, localizado na região do Jardim Guandu, tem mais de mil apartamentos distribuídos em dez blocos e integra o programa Minha Casa, Minha Vida. Segundo a investigação, cada residência era obrigada a pagar uma taxa mensal de aproximadamente R$ 70 a R$ 80.

As informações foram divulgadas em 15 de outubro, após uma operação policial realizada no dia anterior para atingir a estrutura financeira e operacional do grupo.

De acordo com a Polícia Civil, o esquema envolvia cobranças recorrentes, fiscalização dos pagamentos e ameaças contra moradores que se recusassem a entregar o dinheiro exigido.

Moradores eram ameaçados de expulsão

Segundo os investigadores, o pagamento das taxas era imposto por meio de intimidação. Moradores que não cumprissem as exigências poderiam sofrer ameaças de violência física, morte ou expulsão das próprias residências.

A investigação aponta que o valor cobrado poderia aumentar em caso de atraso, ampliando a pressão financeira sobre as famílias.

A Polícia Civil também apura se a organização tem relação com a morte de Vitor Hugo Pereira Tomaz. Segundo as informações divulgadas, o morador teria sido retirado de casa por homens armados e, posteriormente, encontrado morto no Rio Guandu, em setembro de 2025. A possível ligação entre o homicídio e as cobranças ilegais ainda é objeto de investigação.

Grupo teria substituído síndicos regulares

Além da extorsão financeira, a apuração identificou uma possível interferência direta na administração do conjunto habitacional.

Segundo a delegada Luciana Fonseca, da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco/IE), pessoas ligadas à organização teriam substituído os antigos síndicos dos blocos e assumido a responsabilidade pelas cobranças.

A estrutura, conforme a investigação, permitia controlar os pagamentos e repassar os valores aos integrantes apontados como responsáveis pela arrecadação.

Esse tipo de interferência ultrapassa uma disputa administrativa convencional. Quando há ameaças e imposição de cobranças por grupos criminosos, os moradores podem perder a liberdade de escolher seus representantes e participar da gestão do próprio condomínio.

Operação investigou nove suspeitos

Em 14 de outubro, a Polícia Civil realizou uma operação para cumprir dois mandados de prisão preventiva e dez mandados de busca e apreensão contra suspeitos ligados à organização.

Segundo as informações divulgadas, nove pessoas foram indiciadas por suspeita de participação na estrutura criminosa. Entre os alvos estão Felipe Alves da Silva, conhecido como Felipinho ou Portugal, apontado como responsável por coordenar parte das cobranças, e Marcos Francisco dos Prazeres Júnior, conhecido como MJ, investigado por supostamente pressionar moradores que se recusavam a pagar.

Os dois eram procurados por meio dos mandados de prisão, conforme as informações publicadas sobre a operação.

Durante as diligências, os agentes apreenderam celulares, computadores, anotações e outros materiais que poderão contribuir para o aprofundamento das investigações.

Policial militar também é investigado

A investigação também alcançou um policial militar da ativa, suspeito de exercer influência na administração do condomínio e de participar da estrutura de intimidação.

Segundo a Polícia Civil, o agente teria mantido contato com integrantes do núcleo de comando da organização. Ele foi alvo de busca e apreensão e encaminhado para prestar esclarecimentos, mas acabou liberado.

O policial negou participação no esquema, conforme informações divulgadas pela imprensa. A suspeita investigada pelas autoridades não representa, por si só, uma condenação ou comprovação definitiva de responsabilidade criminal.

A Polícia Civil busca esclarecer o papel de cada investigado e identificar como a organização mantinha o sistema de cobrança e controle dos moradores.

Caso expõe riscos para a gestão condominial

O episódio evidencia como a atuação de grupos criminosos pode comprometer a autonomia administrativa de um condomínio e a segurança dos moradores.

Em situações de intimidação, a escolha de síndicos, a arrecadação de recursos e a tomada de decisões deixam de ocorrer de forma livre e regular. O controle da administração pode ser utilizado como instrumento para facilitar cobranças ilegais e manter a influência do grupo sobre as famílias.

Para síndicos, administradoras e conselhos, o caso também reforça a importância de preservar registros financeiros, atas, contratos e documentos de gestão, além de manter canais seguros para o relato de ameaças ou irregularidades.

Quando houver suspeita de extorsão ou coação, a orientação é procurar as autoridades competentes e evitar confrontos diretos com os envolvidos. A proteção dos moradores deve ser priorizada, especialmente quando há risco de violência.

A investigação sobre a milícia ligada a Juninho Varão continua, com o objetivo de esclarecer a extensão do esquema, a participação dos suspeitos e a possível relação com outros crimes na Baixada Fluminense.