Rio registra 25 mil lançamentos imobiliários em 12 meses
Mudanças no Plano Diretor, programas habitacionais, turismo e demanda por imóveis compactos impulsionam novos empreendimentos na cidade

O mercado imobiliário do Rio de Janeiro vive uma nova fase de expansão, impulsionada por mudanças nas regras de construção, programas habitacionais, aumento do turismo e procura por imóveis compactos. Nos 12 meses acumulados até junho de 2026, foram lançadas 25 mil unidades residenciais na cidade, segundo dados apresentados pela Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Rio (Ademi-RJ).
O movimento ocorre mesmo diante do cenário de juros elevados, que normalmente tende a dificultar o acesso ao crédito e reduzir a demanda por imóveis financiados. Para Leonardo Mesquita, presidente da Ademi-RJ, entretanto, a procura permanece resistente e apresenta bom desempenho mesmo diante de um ambiente econômico mais complexo.
O cenário atual também é resultado de transformações regulatórias. O novo Plano Diretor do Rio, aprovado em 2024, facilitou projetos residenciais em áreas como Zona Norte, Centro e Região Portuária, além de favorecer iniciativas relacionadas ao programa Minha Casa Minha Vida e à reocupação de áreas centrais.
Lançamentos aceleram no mercado carioca
O desempenho recente representa uma mudança significativa em relação aos anos anteriores. Em 2024, o número de unidades lançadas cresceu 42%, chegando a 21,2 mil imóveis, de acordo com a Brain Inteligência Estratégica. Em 2025, houve retração de 8% na quantidade de unidades, mas o Valor Geral de Vendas dos lançamentos alcançou R$ 16,5 bilhões, alta de 28%.
Em 2026, o ritmo voltou a acelerar. Somente no início do ano foram lançadas 6,6 mil unidades e, no acumulado de 12 meses até junho, o número chegou a 25 mil. A evolução indica uma retomada mais consistente da atividade de incorporação imobiliária na capital fluminense.
O aquecimento, porém, não ocorre de maneira uniforme em todos os segmentos. Segundo Thiago Lima, sócio da JGP Real Estate, o movimento é “seletivo” e está relacionado a fatores como mudanças urbanísticas, escassez de terrenos, demanda por locação, turismo e novos programas habitacionais.
Minha Casa Minha Vida impulsiona novos empreendimentos
Uma parcela importante da demanda está relacionada ao Minha Casa Minha Vida, que conta com condições de financiamento diferenciadas e juros subsidiados. As alterações no Plano Diretor e os incentivos concedidos pelo Porto Maravilha também ampliaram as possibilidades de desenvolvimento imobiliário em regiões que passaram por períodos de menor ocupação.
O programa Reviver Centro também participa desse processo ao estimular a reocupação de imóveis e áreas da região central. A combinação entre incentivos urbanísticos e demanda habitacional tem favorecido o surgimento de novos empreendimentos.
A Cury, incorporadora com atuação concentrada no Minha Casa Minha Vida, lançou oito empreendimentos no Rio em 2026, totalizando 5,4 mil unidades em bairros como Centro, Ramos, São Cristóvão e Piedade. Já a Tenda projeta crescimento de 30% no volume de lançamentos neste ano, com empreendimentos previstos para São Cristóvão, Cascadura e Tomaz Coelho.
Imóveis compactos ganham espaço
A expansão do mercado habitacional e o crescimento do turismo também estão modificando o perfil dos empreendimentos. Imóveis menores, próximos ao transporte público e com áreas comuns voltadas ao lazer e à prestação de serviços estão entre os produtos que ganharam espaço.
Academias, piscinas, lavanderias e outros ambientes compartilhados passaram a integrar projetos direcionados a consumidores que priorizam localização e praticidade.
Segundo dados apresentados pela MRV, cerca de 85% dos projetos recentes da empresa possuem piscina e os empreendimentos oferecem diversas opções de lazer e interação.
Vinicius Benevides, vice-presidente do Sinduscon-Rio, afirma que, em junho, um terço das unidades lançadas era composto por imóveis compactos. O executivo também ressalta que o formato não deve ser automaticamente associado ao aluguel por temporada.
No Centro e na Região Portuária, cerca de 70% das compras utilizam recursos do FGTS, indicando que uma parcela significativa dos imóveis compactos é adquirida por pessoas que pretendem utilizá-los como moradia.
Zona Sul mantém demanda por imóveis de alto padrão
Enquanto os empreendimentos compactos avançam em determinadas regiões, a escassez de terrenos em bairros valorizados mantém a procura por imóveis de padrão elevado.
Ipanema e Leblon estão entre as áreas onde a oferta de terrenos é mais limitada, fator que contribui para a valorização dos empreendimentos e para a manutenção da demanda por produtos de maior padrão.
O Opportunity Imobiliário, por exemplo, criou em 2024 a marca Be.in.Rio, voltada para estúdios em endereços estratégicos da Zona Sul. A empresa já lançou 11 residenciais e prepara outros cinco projetos.
Marcelo Naidich, gestor do Opportunity Imobiliário, avalia que o mercado não está aquecido de maneira indiscriminada, mas apresenta oportunidades específicas associadas à localização e à qualidade dos empreendimentos.
Turismo amplia demanda por hotelaria e locação
O crescimento do turismo é outro fator relevante para o novo ciclo imobiliário carioca. Em 2025, o Brasil recebeu 9,3 milhões de turistas estrangeiros, alta de 37% em relação ao ano anterior e recorde da série histórica da Embratur. Desse total, 2,2 milhões chegaram ao Rio de Janeiro.
O aumento do fluxo de visitantes estimula tanto os imóveis destinados à locação de curta temporada quanto novos investimentos em hotelaria.
A Glória Participações, holding de investimentos imobiliários, adquiriu o hotel Praia Ipanema, na Avenida Vieira Souto, com planos para instalar um empreendimento de ultraluxo. A empresa também possui outros hotéis no Centro e em Copacabana e atua no mercado carioca desde 2016.
Para Daniel Pierro, sócio da Glória, o avanço dos eventos e a retomada dos voos internacionais no Aeroporto do Galeão contribuem para fortalecer a atividade turística e, consequentemente, os investimentos imobiliários associados ao setor.
Mercado corporativo também apresenta sinais de recuperação
Os efeitos do novo ciclo não estão restritos ao segmento residencial. O aumento da circulação de pessoas e a recuperação de regiões centrais também começam a refletir no mercado corporativo.
A BGRE, braço da Brookfield responsável pelo desenvolvimento e operação de ativos imobiliários, possui seis edifícios corporativos no Rio. Juntos, os empreendimentos apresentam ocupação agregada de 89%, segundo Hilton Rejman, presidente executivo da empresa no Brasil.
O resultado indica que a retomada da atividade econômica e a revitalização de determinadas áreas da cidade podem produzir impactos também sobre os imóveis comerciais.
Novo ciclo combina mudanças urbanas e demanda
O atual momento do mercado imobiliário carioca reúne fatores distintos que passaram a atuar simultaneamente. De um lado, as mudanças na legislação urbanística ampliaram as possibilidades de construção e reocupação de determinadas regiões. De outro, programas habitacionais, demanda por locação, escassez de terrenos e crescimento do turismo aumentaram o interesse por novos projetos.
Para o setor condominial, o avanço dos lançamentos também representa mudanças no perfil dos empreendimentos. A maior presença de unidades compactas, áreas compartilhadas, serviços e estruturas de lazer exige planejamento adequado desde a concepção dos projetos até a administração dos condomínios.
O Rio de Janeiro encerrou os 12 meses até junho com 25 mil novas unidades lançadas, consolidando um cenário de maior atividade no mercado imobiliário. A continuidade desse movimento, contudo, dependerá da evolução dos juros, do acesso ao crédito, da demanda e da capacidade do setor de encontrar terrenos e projetos compatíveis com as novas necessidades dos consumidores.
Fonte: Infomoney