Menos de 50% dos condomínios de Niterói aderem à Lei dos Contêineres e enfrentam desafios na coleta seletiva
Nova legislação expõe falhas na logística, baixa adesão popular e sobrecarga nos condomínios, enquanto especialistas alertam para perdas financeiras e necessidade urgente de educação ambiental.

A adesão à nova Lei dos Contêineres e aos programas de coleta seletiva em Niterói permanece abaixo do esperado, trazendo impactos diretos para a gestão condominial, para o meio ambiente e para a rotina dos moradores. Segundo estimativa da prefeitura, apenas cerca de 45% dos condomínios da cidade se adaptaram integralmente às normas, evidenciando dificuldades estruturais e operacionais tanto por parte dos edifícios quanto do poder público.
A legislação, criada para padronizar o uso de contêineres e fortalecer o sistema de coleta seletiva, encontrou forte resistência de síndicos e gestores. Eles apontam falhas na logística da Companhia de Limpeza de Niterói (Clin), especialmente nos horários irregulares dos caminhões, que acabam sobrecarregando funcionários e gerando acúmulo de lixo nas calçadas.
Aparecida Defante, representante de um grupo que reúne cerca de 400 condomínios, explica que a equipe de limpeza enfrenta dificuldades diárias.
“A Clin não tem regularidade nos horários. Em alguns dias o caminhão passa às 20h; em outros, só depois da meia-noite. Isso exige permanecer com funcionários de plantão para recolocar os contêineres”, afirma.
O síndico profissional José Olivan reforça que o problema vai além do incômodo: a permanência prolongada dos contêineres nas calçadas facilita a ação de catadores autônomos, que acabam espalhando lixo pelas ruas e exigem retrabalho dos condomínios. Para muitos edifícios, isso significa custo extra com horas adicionais ou contratação de mão de obra complementar.
A prefeitura, entretanto, afirma que o período inicial de vigência da lei exige adaptação gradual e que condomínios que ainda não utilizavam contêineres estão recebendo orientação. Em casos de reincidência no descumprimento, notificações são emitidas.
Por sua vez, a Clin destaca que oferece diferentes iniciativas para incentivar a coleta seletiva, como o programa Recicla Niterói, os Pontos de Entrega Voluntária (PEV), a Coleta Porta a Porta e ações de educação ambiental. Contudo, reconhece que ainda enfrenta baixa adesão por parte da população — especialmente nos condomínios.
Coleta seletiva: um desafio cultural e econômico
Para a professora Dirlane Carmo, especialista em Engenharia Agrícola e Meio Ambiente da UFF, a baixa adesão representa não apenas um problema operacional, mas também um enorme desperdício financeiro.
“Sem a separação adequada, materiais recicláveis vão direto para o aterro sanitário. Estamos enterrando dinheiro e recursos diariamente”, alerta.
Ela complementa que o maior entrave é cultural: muitos moradores não aceitam manter recicláveis dentro dos apartamentos pelo desconforto ou pelo odor, mesmo que a coleta ocorra apenas uma vez por semana.
“Ainda falta muita educação ambiental. Em Itaipu, por exemplo, vejo lixo reciclável sendo descartado em dias errados com frequência.”
A professora defende o fortalecimento da logística reversa, modelo adotado na Alemanha, que exige participação mais ativa dos cidadãos no descarte correto dos resíduos.
Cooperativas tentam avançar, mas enfrentam baixa renda
Um exemplo é a cooperativa Recicla Niterói, que colabora com a Clin realizando separação, prensagem e comercialização dos recicláveis. Apesar do esforço, os catadores relatam dificuldades financeiras: com pouco material chegando, a renda média mensal gira em torno de R$ 450, valor insuficiente para sustentação das famílias.
Priscilla Marques, uma das cooperadas, conta que precisa buscar outras atividades para complementar a renda.
“Tenho filhos e a separação dos recicláveis ajuda, mas não é suficiente.”
Dirlane reforça que o sucesso das cooperativas depende não só da coleta adequada, mas também de políticas públicas e da participação efetiva dos moradores.
“Sem volume, nenhuma cooperativa se sustenta. É preciso organizar a logística de recebimento, incentivar os condomínios e envolver a população.”
Um alerta para os condomínios de Niterói
A baixa adesão à Lei dos Contêineres expõe um problema maior: a necessidade urgente de integrar condomínios, poder público e moradores em uma agenda conjunta de sustentabilidade. Para gestores condominiais, o momento é de revisão de procedimentos, comunicação clara com os moradores e busca de soluções que unam eficiência e responsabilidade ambiental.
Fonte: O Globo