Maresia exige atenção redobrada em condomínios litorâneos
Exposição ao sal e à umidade acelera corrosão de metais, equipamentos e armaduras de concreto, tornando inspeções e manutenção essenciais em edifícios próximos à costa

O alto preço da vista para o mar: como a maresia ameaça imóveis no litoral e exige manutenção constante
Morar perto da praia é um privilégio que atrai milhares de moradores, mas a ação silenciosa dos ventos marítimos pode corroer ferragens, destruir caixas de ar-condicionado e até comprometer a estrutura de prédios inteiros. Especialistas alertam: efeitos chegam a até 15 km da costa.
A brisa constante, a vista privilegiada e a facilidade de ter a praia como "quintal de casa". Morar no litoral, especialmente em bairros valorizados como Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, é um sonho para muitos. Contudo, essa proximidade com o oceano cobra um pedágio invisível e implacável: a maresia.
O que parece ser apenas uma brisa úmida carrega agentes químicos altamente corrosivos que atuam diariamente contra as edificações. De portões de ferro a elevadores, passando pelas entranhas de concreto armado dos edifícios, a falta de manutenção preventiva pode transformar o sonho litorâneo em um pesadelo financeiro e de segurança.
"A localização é espetacular, tem tudo próximo: shopping, farmácia, supermercado. Mas a proximidade do mar leva a desgastes em várias coisas do prédio", relata o contador Edmundo Soares, morador de um edifício situado a apenas 400 metros da orla.
"Portões de ferro e motores exigem uma manutenção constante. Tem que ter uma prevenção muito bem feita para não ter dor de cabeça toda hora."
O perigo oculto: quando o concreto "explode"
O senso comum costuma associar a maresia apenas àquela ferrugem superficial que descasca a pintura de portões. No entanto, o verdadeiro perigo mora dentro do concreto.
O engenheiro civil Luiz Fernando Bernhoeft alerta que a corrosão das armaduras de aço é a principal patologia da construção civil no Brasil. O processo é desencadeado por dois grandes vilões: o dióxido de carbono (CO2) e o íon cloreto a essência da maresia.
"Quando a maresia penetra na estrutura, ela gera a corrosão do aço que está lá dentro. O problema é que o aço enferrujado aumenta de volume. Ao inchar, ele expulsa o concreto, causando fissuras e fazendo com que partes da estrutura se desprendam. É o maior risco, o maior custo para recuperar e o que gera mais transtornos, como a necessidade de colocar escoras e isolar áreas", detalha o especialista.
Em alguns casos, o problema avança silenciosamente. A síndica Suian do Amaral Medeiros conta que, no prédio de 15 anos que administra, o dano estava camuflado.
"A maresia foi corroendo as ferragens da laje, mas tinha um forro de gesso que cobria o problema. Nós só fomos perceber durante uma inspeção mais profunda, quando começamos a tirar o gesso."
Interdições e a urgência da troca de materiais
Quando a manutenção preventiva falha ou a estrutura é antiga demais, o risco se torna iminente. No prédio administrado pelo síndico Israel Gomes, construído na década de 1980, as antigas caixas de concreto dos aparelhos de ar-condicionado começaram a ceder.
"Elas apresentavam risco de queda de partes do concreto, forçando o condomínio a fazer interdições de áreas de circulação importantes, como o mezanino", relata Israel. A solução definitiva doeu no bolso, mas garantiu a segurança: "Fizemos um trabalho de captação de recursos com aprovação de taxa extra e trocamos todas as estruturas por caixas de alumínio, que têm resistência superior ao efeito da maresia."
Elevadores: o calcanhar de Aquiles dos condomínios
Outro equipamento que sofre de forma acelerada com a umidade salina são os elevadores. E, surpreendentemente, o problema não se restringe à beira-mar. Segundo Roberto Silva, dono de uma empresa especializada em manutenção, os efeitos da maresia chegam a alcançar edifícios localizados a até 15 km de distância da praia.
"Há uma estatística no mercado de que 70% dos problemas de elevadores têm relação com as portas, que possuem muitos contatos elétricos e mecânicos de abertura e fechamento. A maresia influencia diretamente nisso", explica Roberto.
O administrador de condomínios Marcondes Bernardo sentiu esse impacto na pele.
"O momento em que mexeu diretamente nos nossos bolsos foi na manutenção dos elevadores. Tínhamos problemas constantes de paradas e precisamos aprovar uma taxa extra expressiva para consertar. Mas o problema está em tudo: corrimões, parapeitos e até nos pequenos parafusos."
Água e sabão: a prevenção mais barata
Apesar do poder destrutivo da maresia, especialistas garantem que é possível prolongar a vida útil das estruturas com atitudes surpreendentemente simples. A principal delas? Lavar o prédio.
O engenheiro Luiz Fernando Bernhoeft explica que o sal precisa "impregnar" na superfície antes de penetrar no concreto.
"As pessoas não têm o costume de lavar as fachadas. Se a cada dois ou três anos o condomínio lavasse a estrutura, estaria tirando esses agentes agressivos. O processo de infiltração teria que começar do zero. Só o ato de lavar já é uma grande ação preventiva", ensina.
Outra mudança de mentalidade necessária é sobre a pintura.
"No Brasil, costumamos ver a pintura apenas como estética. Mas na engenharia, revestimento é sinônimo de proteção. Eu revisto a fachada para proteger a estrutura armada, não apenas para o prédio ficar bonito", conclui o engenheiro.
📌 GUIA PRÁTICO: Como proteger seu condomínio da maresia
Para evitar que as taxas extras saiam do controle, especialistas recomendam que moradores e síndicos adotem um cronograma rigoroso:
- Lave a fachada: Programar a lavagem externa do prédio (e das caixas de ar-condicionado) a cada 2 ou 3 anos remove os íons de cloreto antes que penetrem no concreto.
- Pintura em dia: A tinta atua como uma capa impermeabilizante. Não espere a fachada ficar encardida ou descascando para refazer a pintura.
- Substituição inteligente: Ao reformar, troque grades e suportes de ferro ou concreto antigo por materiais resistentes à oxidação, como o alumínio, aço inox (de boa liga) ou PVC.
- Inspeção de elevadores: Nos meses de maior umidade, exija da empresa contratada uma manutenção preventiva mais longa e detalhada, com foco nas portas e contatos elétricos.
- Olho vivo no forro: Infiltrações e ferrugem podem se esconder atrás de forros de gesso, especialmente em garagens e pilotis. Faça inspeções estruturais regulares com engenheiros capacitados.
Fonte: G1/NE1