Mais de 300 famílias ficam impedidas de se mudar para condomínio em Sorocaba após construtora entrar em recuperação judicial
Moradores do condomínio Superquadra, na zona oeste de Sorocaba, enfrentam uma série de problemas como falta de energia, documentação pendente e abandono por parte da construtora, que acumula dívidas superiores a R$ 95 milhões.

Mais de 300 famílias seguem impedidas de ocupar apartamentos em condomínio na zona oeste de Sorocaba após construtora entrar em recuperação judicial
Além do atraso na entrega e da falta de energia elétrica, moradores denunciam abandono pela construtora Múltipla Engenharia, que acumula dívida superior a R$ 95 milhões.
A crise financeira enfrentada pela construtora Múltipla Engenharia, que entrou em processo de recuperação judicial, deixou mais de 300 famílias impossibilitadas de se mudar para seus apartamentos no condomínio Superquadra, localizado no bairro Wanel Ville, na zona oeste de Sorocaba (SP).

O empreendimento, que deveria ter sido entregue entre setembro de 2023 e março de 2024, só teve as chaves repassadas aos compradores em março de 2025 — e ainda assim, sem condições plenas de habitabilidade. As unidades da ala norte do condomínio foram liberadas sem a conclusão de obras essenciais, como infraestrutura elétrica, o que inviabiliza que os futuros moradores ocupem seus imóveis.
Obra entregue, mas inabitável
Apesar de a Prefeitura de Sorocaba ter emitido o Habite-se — documento que atesta que o imóvel está apto a ser habitado —, a realidade no local é completamente diferente. A falta de ligação de energia elétrica é apenas um dos problemas. Segundo os próprios moradores, as calçadas sequer foram concluídas, o que impede a instalação dos cabeamentos pela CPFL Piratininga, fornecedora de energia da região.
A reportagem esteve no local e constatou que as obras nas calçadas estão, de fato, inacabadas. A Companhia Paulista de Força e Luz confirmou que não pode realizar a ligação elétrica sem a finalização da infraestrutura exigida, além da apresentação de documentação que é de responsabilidade exclusiva da construtora.
Construtora desaparecida e famílias abandonadas
Desde que ingressou com o pedido de recuperação judicial, a Múltipla Engenharia interrompeu qualquer tipo de comunicação com os proprietários. O site da empresa está fora do ar, e os canais oficiais foram desativados. Moradores relatam que não conseguem sequer localizar representantes da empresa para resolver pendências burocráticas e técnicas.
A situação tem causado desespero. Muitos compradores estão arcando com parcelas do financiamento, taxas de condomínio, IPTU e, em alguns casos, aluguel de outro imóvel, sem qualquer perspectiva de mudança. Há relatos de famílias que, além de enfrentar dificuldades financeiras, estão prestes a serem despejadas dos imóveis onde residem atualmente, sem ter para onde ir.
"É uma situação insustentável. Pagamos por um imóvel que não podemos usar, enquanto acumulamos dívidas e não temos nenhuma resposta da construtora. É um verdadeiro pesadelo", desabafa uma moradora que preferiu não se identificar.
A recuperação judicial da Múltipla Engenharia
A Múltipla Engenharia, que também é responsável por obras do programa habitacional municipal "Casa Nova Sorocaba", declarou à Justiça possuir uma dívida que ultrapassa os R$ 95 milhões. No pedido de recuperação judicial, os sócios atribuíram a crise financeira a fatores como a recessão econômica iniciada em 2015, os impactos da pandemia da Covid-19, o aumento no custo de insumos e a desvalorização de commodities.
O processo, que tramita sob a responsabilidade do juiz Jomar Juarez Amorim, determinou a suspensão de todas as ações e execuções contra a empresa durante a tramitação da recuperação. A lista de credores já ultrapassa 20 empresas, incluindo bancos, transportadoras, prestadoras de serviços públicos como água, luz, internet, além de fornecedores e indústrias.
Posicionamento dos envolvidos
Prefeitura de Sorocaba
Em nota, a Prefeitura informou que a emissão do Habite-se e do Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) ocorreu dentro dos trâmites legais, baseando-se na documentação apresentada pela responsável técnica da obra. Sobre a liberação para uso das calçadas — necessária para que a CPFL execute a ligação de energia —, a Prefeitura confirmou que o despacho foi autorizado somente em 16 de maio de 2025, após três meses de tramitações internas.
CPFL Piratininga
A CPFL informou que a ligação elétrica do condomínio depende da conclusão de obras de infraestrutura e da apresentação de documentos que são de inteira responsabilidade da construtora. A empresa esclareceu que mantém contato com os condôminos e a Prefeitura, estando à disposição para efetuar a ligação tão logo as pendências sejam sanadas.
Famílias vivem impasse jurídico e financeiro
Enquanto aguardam soluções, os moradores cogitam acionar a Justiça de forma coletiva para buscar responsabilização civil da construtora e, possivelmente, da administração pública, diante da emissão do Habite-se sem que o empreendimento estivesse, de fato, em condições de habitabilidade.
O caso evidencia não apenas a fragilidade de muitas empresas do setor da construção civil, mas também levanta questionamentos sobre a fiscalização, os critérios de emissão de licenças e o papel do poder público na proteção dos consumidores e compradores de imóveis.
Fonte: G1