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Crédito mais restrito afeta vendas do Minha Casa, Minha Vida

Vendas sobre oferta recuaram para 11,5% em agosto; construtoras registraram mais distratos e dificuldades nos repasses de financiamentos

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Crédito mais restrito afeta vendas do Minha Casa, Minha Vida · Foto: AngelaMacario /iStock

Maior rigor da Caixa desacelera vendas do Minha Casa, Minha Vida em São Paulo

O programa Minha Casa, Minha Vida perdeu velocidade nas vendas de imóveis novos na cidade de São Paulo em agosto de 2026, em um cenário marcado por critérios mais rigorosos na concessão de crédito habitacional e dificuldades operacionais na formalização de financiamentos. Segundo dados do Secovi-SP analisados pelo BTG Pactual e divulgados pelo portal Portas, a velocidade de vendas sobre a oferta disponível (VSO) do programa recuou de 13% em julho para 11,5% em agosto.

A desaceleração ocorre em um mercado que continua registrando crescimento nas vendas e nos lançamentos em comparação com o ano anterior, mas no qual a oferta de novos imóveis tem avançado mais rapidamente. A situação também afeta a conversão das vendas em contratos efetivados e o recebimento dos recursos pelas construtoras.

Análise de crédito mais rigorosa afeta compradores

A Caixa Econômica Federal tem papel central no financiamento habitacional brasileiro e concentra praticamente todas as operações de crédito do Minha Casa, Minha Vida. Por isso, mudanças nos critérios de avaliação dos compradores podem repercutir diretamente no ritmo de contratação de imóveis destinados às famílias de menor renda.

Em julho, o banco reduziu temporariamente, por dez dias, o limite de comprometimento da renda permitido aos clientes, de 30% para 27%. A instituição também passou a realizar avaliações mais seletivas em determinadas operações, em um contexto de endividamento das famílias e preocupação com a capacidade de pagamento.

Quando o financiamento não é aprovado ou a análise demora mais do que o previsto, uma negociação imobiliária pode não avançar para a assinatura do contrato. Isso afeta tanto os compradores, que aguardam a conclusão da aquisição, quanto as incorporadoras, que dependem da formalização das operações para receber os recursos correspondentes.

Oferta de imóveis cresce em ritmo superior às vendas

Os dados do mercado paulistano mostram que a desaceleração da velocidade de vendas ocorreu mesmo com crescimento anual das comercializações.

Em agosto, foram vendidas aproximadamente 10 mil unidades residenciais novas em São Paulo, alta de 37% em relação ao mesmo mês de 2025. Os lançamentos chegaram a cerca de 17,8 mil unidades, avanço de 90% na comparação anual.

Com a oferta aumentando mais rapidamente, o estoque disponível atingiu aproximadamente 98 mil imóveis, volume 51% superior ao registrado um ano antes. Nesse contexto, a VSO total do mercado ficou em 9,9%, enquanto os segmentos de médio e alto padrão registraram 7,4%.

O Minha Casa, Minha Vida continuou tendo participação expressiva no mercado paulistano: respondeu por 77% dos lançamentos e 71% das vendas de imóveis novos em agosto, conforme os dados citados na reportagem.

Os números mostram que o programa permanece relevante para a atividade imobiliária da capital paulista, embora o ritmo de absorção da oferta tenha diminuído no período analisado.

Greve da Caixa atrasou contratos e liberações

Além das condições de crédito, a greve dos funcionários da Caixa em setembro contribuiu para atrasos na assinatura de contratos e na liberação de recursos para as empresas do setor.

A formalização de um financiamento depende de diferentes etapas, que podem incluir análise documental, avaliação da capacidade de pagamento, vistoria do imóvel e assinatura dos instrumentos contratuais. Quando há interrupções ou acúmulo de processos, a conclusão das operações pode demorar mais.

Para as incorporadoras, esse intervalo afeta o fluxo de caixa, pois a venda comercial de uma unidade não significa necessariamente que todos os recursos serão recebidos de imediato. O atraso nos repasses pode pressionar o capital de giro e alterar o planejamento financeiro das empresas, mesmo quando existe procura pelos imóveis.

Distratos aumentam em grandes construtoras

Os efeitos do ambiente de crédito mais restritivo apareceram nos indicadores de algumas incorporadoras que atuam no segmento de baixa renda.

Na Tenda, os distratos passaram de R$ 136,2 milhões no terceiro trimestre de 2025 para R$ 292,8 milhões no mesmo período de 2026, conforme os dados apresentados pela reportagem do Portas. Na Cury, os cancelamentos cresceram 59,3% em um ano, chegando a R$ 358,2 milhões.

A Cury também registrou queda de 35,8% nos repasses em relação ao trimestre anterior. Na MRV, foram contabilizados 7.428 repasses, redução de 16,4% na comparação anual e de 24,2% em relação ao segundo trimestre.

Os indicadores não devem ser atribuídos exclusivamente à greve. O maior rigor na concessão de crédito, as condições específicas de cada mercado e o tempo necessário para concluir as operações também influenciam os resultados.

O aumento dos distratos merece atenção porque representa o cancelamento de negócios anteriormente contabilizados como vendas brutas. Dependendo das condições contratuais e do momento em que ocorre o cancelamento, a operação pode deixar de gerar a receita esperada e exigir novas estratégias comerciais para a unidade.

Empresas e analistas avaliam possibilidade de normalização

Apesar da desaceleração observada, empresas do setor e analistas citados nas reportagens consideram que parte dos impactos pode ser temporária.

A Direcional, por exemplo, adiou lançamentos diante das incertezas sobre a operação da Caixa, mas informou melhora mensal nas vendas, que em setembro ficaram próximas do dobro do volume registrado em julho.

O BTG Pactual também avalia que a demanda pelo programa permanece resiliente e que as condições de crédito podem se normalizar. A análise, contudo, aponta diferenças entre os mercados regionais, com maior restrição no Rio de Janeiro em razão dos níveis de inadimplência observados.

Os resultados completos das incorporadoras e os dados dos meses seguintes serão importantes para avaliar se os atrasos e as dificuldades de aprovação representam principalmente efeitos operacionais temporários ou se podem persistir por mais tempo.

Impactos para o mercado imobiliário e o setor condominial

A evolução do Minha Casa, Minha Vida tem reflexos que vão além das construtoras. O ritmo de comercialização de imóveis novos influencia a ocupação dos empreendimentos, o planejamento de serviços e a formação de novas comunidades residenciais.

Para administradoras e profissionais da gestão condominial, acompanhar o desenvolvimento dos empreendimentos e as condições econômicas do mercado pode ajudar no planejamento de equipes, contratos de serviços e demandas futuras. Esses efeitos, porém, variam de acordo com a localização, o estágio de ocupação e as características de cada condomínio.

Para os compradores, a principal atenção está na análise das condições de financiamento e na capacidade de assumir as obrigações previstas no contrato. A aprovação do crédito depende da avaliação individual da operação, e as condições anunciadas pelo programa não garantem aprovação automática a todos os interessados.

O cenário de 2026 mostra que o Minha Casa, Minha Vida continua com participação relevante no mercado de imóveis novos, mas enfrenta obstáculos operacionais e financeiros que afetam a velocidade das vendas. O acompanhamento dos próximos indicadores será essencial para compreender a duração desses efeitos e suas consequências para compradores, construtoras e demais agentes do mercado imobiliário.