O jogo sombrio da máfia dos condomínios em Niterói (RJ)
Síndicos e conselheiros são acusados de manipular assembleias e inflar dívidas para tomar imóveis em bairros valorizados da cidade

Por trás das fachadas elegantes de Niterói, uma trama perigosa ameaça o patrimônio de moradores e herdeiros em bairros valorizados como Icaraí, Ingá e Santa Rosa. Trata-se da chamada “máfia dos condomínios”, um esquema no qual síndicos profissionais, conselhos administrativos e até administradoras manipulam regras internas e decisões assembleares para tomar posse de imóveis com dívidas condominiais.
O esquema revelado
O golpe tem início com a identificação de unidades endividadas. Em vez de buscar negociação ou oferecer meios de regularização, síndicos e conselheiros aceleram processos judiciais de cobrança. Em muitos casos, os valores são inflados com juros abusivos e honorários desproporcionais.
Quando o imóvel chega a leilão, compradores já previamente alinhados — muitas vezes ligados à própria gestão — arrematam os bens por valores muito abaixo do mercado.
Exemplos pelo país confirmam a gravidade da situação. Em São Paulo, um morador perdeu um apartamento de R$ 800 mil por uma dívida de apenas R$ 30 mil; o imóvel foi arrematado por R$ 200 mil por uma empresa ligada a um ex-síndico. No Rio de Janeiro, o Ministério Público investiga uma administradora acusada de agir em conluio com síndicos para adquirir imóveis em áreas valorizadas.
Assembleias manipuladas e abusos
Segundo especialistas, o esquema envolve práticas recorrentes:
- Assembleias manipuladas: realizadas com quórum mínimo e pouca divulgação.
- Honorários inflacionados: advogados ligados à gestão elevam artificialmente as dívidas.
- Falta de transparência: proprietários não têm acesso claro aos cálculos e extratos.
O advogado Marcio Rachkorsky alerta:
“Quando apenas as ordens do síndico são seguidas e os moradores ficam sem resposta, há indício claro de irregularidade”.
Outros golpes e reclamações
Além da expropriação de imóveis, moradores relatam abusos em cobranças. Uma proprietária de Vital Brazil, que preferiu não se identificar, denuncia taxas condominiais altíssimas em um prédio sem infraestrutura. Segundo ela, a administração não justifica os aumentos, o que desvaloriza o imóvel e dificulta sua venda.
Especialistas pedem fiscalização
Para a jurista Mariana Lopes, especialista em direito condominial, é urgente reforçar a fiscalização:
“O condomínio não pode se transformar em instrumento de expropriação. É preciso garantir ampla defesa e negociação justa ao morador”.
Como se proteger
Moradores podem adotar medidas para reduzir os riscos:
- Participar das assembleias e exigir atas detalhadas;
- Solicitar extratos e cálculos da dívida;
- Questionar cobranças abusivas;
- Denunciar casos suspeitos ao Ministério Público ou à Defensoria Pública.
A chamada máfia dos condomínios escancara a fragilidade da governança condominial no Brasil. Em tempos de crise e aumento da inadimplência, a transparência e a fiscalização tornam-se fundamentais para proteger o direito à moradia e o patrimônio dos proprietários.
Fonte: O Dia