Grupo teria hackeado e-mail de morador para fraudar portaria remota e furtar condomínios em Maceió
Segundo a Polícia Civil, suspeitos conseguiram cadastrar os próprios rostos no sistema de acesso e entraram em prédios de luxo na Ponta Verde

Grupo teria hackeado e-mail de morador para fraudar portaria remota e furtar condomínios em Maceió
Uma investigação da Polícia Civil de Alagoas apontou que um grupo suspeito de furtar condomínios de luxo em Maceió teria utilizado uma combinação de acesso indevido a e-mail, cadastro fraudulento e reconhecimento facial para entrar nos edifícios sem levantar suspeitas.
Segundo os investigadores, pelo menos dois furtos registrados em condomínios do bairro Ponta Verde apresentam características semelhantes. Em um dos casos, os suspeitos teriam obtido acesso à conta de e-mail de um morador e utilizado a credencial para realizar um cadastro fraudulento junto à empresa responsável pelo sistema de portaria remota.
A investigação foi apresentada pelos delegados Igor Diego e Bárbara Porto em entrevista à imprensa nesta segunda-feira (21). As autoridades afirmaram que os suspeitos teriam se passado por moradores e cadastrado os próprios rostos no sistema de controle de acesso.
E-mail de morador teria sido usado no cadastro
De acordo com o delegado Igor Diego, os investigados teriam localizado o endereço eletrônico de um morador, conseguido acessar a conta e utilizado esse recurso para realizar o cadastro junto à empresa responsável pela portaria.
A partir desse procedimento, segundo a investigação, os criminosos passaram a ser reconhecidos pelo sistema como se fossem moradores legítimos do empreendimento.
A delegada Bárbara Porto explicou que os suspeitos teriam fornecido os próprios nomes e números de telefone e solicitado o cadastramento facial. Com a autorização obtida dessa forma, passaram a conseguir abrir remotamente portas de áreas comuns.
O caso evidencia que a segurança de um condomínio com controle de acesso tecnológico não depende apenas do equipamento instalado na entrada. A validação da identidade de quem solicita um cadastro também integra a cadeia de proteção do empreendimento.
Reconhecimento facial foi utilizado pelos suspeitos
Após o cadastro fraudulento, os investigados teriam utilizado o reconhecimento facial para acessar os edifícios.
Segundo a Polícia Civil, a tecnologia funcionava normalmente: o problema estaria relacionado à forma como os dados foram inseridos no sistema.
Essa diferença é importante para a gestão condominial. Um sistema pode registrar corretamente o rosto de uma pessoa e liberar o acesso conforme suas configurações, mas isso não significa que a identidade apresentada no momento do cadastro tenha sido validada de maneira adequada.
O episódio, portanto, chama atenção para a necessidade de procedimentos complementares à biometria, principalmente quando novos usuários são cadastrados ou quando moradores solicitam alterações em seus dados.
Suspeitos teriam escolhido apartamentos sem moradores
Depois de conseguir entrar nos edifícios, os investigados procuravam identificar quais apartamentos estavam vazios naquele momento.
Segundo a Polícia Civil, os imóveis escolhidos eram posteriormente arrombados. Os suspeitos procuravam principalmente objetos de alto valor, como bolsas, joias e outros artigos de luxo.
A estratégia teria permitido que a quadrilha circulasse inicialmente pelo condomínio sem chamar a atenção, já que o acesso pelas áreas comuns ocorreria por meio de um sistema que identificava os próprios criminosos como usuários autorizados.
A investigação busca esclarecer a extensão da atuação do grupo e verificar se outros condomínios podem ter sido alvo do mesmo método.
Primeiro caso ocorreu em agosto
Um dos crimes investigados aconteceu em 15 de agosto.
Conforme a apuração policial, antes do arrombamento de um dos apartamentos, os suspeitos teriam realizado o cadastro fraudulento junto à empresa responsável pelo controle de acesso.
A partir daí, conseguiram entrar no condomínio e circular pelas áreas comuns. O caso passou a ser investigado pela Polícia Civil, que posteriormente identificou características semelhantes em outra ocorrência.
Novo furto revelou possível ligação entre os casos
No sábado (19), outro condomínio da Ponta Verde foi invadido. Câmeras de segurança registraram dois homens entrando pelo portão principal e, posteriormente, acessando apartamentos.
Pelo menos três unidades foram furtadas nessa segunda ocorrência. As imagens e o modo de atuação contribuíram para que os investigadores comparassem o episódio com o crime registrado anteriormente.
Segundo a delegada Bárbara Porto, o modus operandi identificado nos dois casos apresentava semelhanças.
A investigação também avançou após a identificação do veículo utilizado no crime mais recente. A partir do cruzamento dessas informações, a Polícia Civil chegou a pessoas que já apareciam na apuração do primeiro furto.
Investigação aponta atuação de grupo de fora de Alagoas
Segundo os investigadores, os suspeitos seriam provenientes de São Paulo e teriam alugado um veículo em Maceió para realizar as ações criminosas.
Após o furto mais recente, os envolvidos teriam deixado Alagoas em direção à Bahia.
A movimentação interestadual passou a fazer parte da investigação, que contou com atuação conjunta das polícias de Alagoas e da Bahia para localizar um dos suspeitos.
Um investigado foi preso na Bahia
Um homem de 38 anos foi localizado e preso no domingo (20), em Feira de Santana, na Bahia.
Segundo a Polícia Civil, objetos que teriam sido levados durante o furto mais recente foram encontrados com o suspeito. O veículo utilizado na ação também foi apreendido.
A investigação apontou que os bens recuperados estavam avaliados em aproximadamente R$ 113,8 mil. Entre os objetos estavam relógios, celular e acessórios.
A prisão ocorreu durante uma ação integrada entre as forças de segurança dos dois estados.
Portaria remota exige segurança além da tecnologia
O caso de Maceió coloca em evidência um aspecto importante da modernização das portarias: a tecnologia precisa estar acompanhada de procedimentos capazes de impedir que credenciais sejam criadas ou alteradas de maneira fraudulenta.
A portaria remota pode utilizar câmeras, reconhecimento facial, sistemas de comunicação e registros digitais para controlar o acesso. Entretanto, cada etapa do processo precisa ser protegida, desde o cadastramento do usuário até a autorização de entrada.
Uma vulnerabilidade em uma etapa anterior pode comprometer a eficiência das ferramentas utilizadas posteriormente.
Cadastro de moradores merece atenção especial
Para síndicos e administradoras, o episódio reforça a importância de estabelecer protocolos para inclusão, exclusão e alteração de usuários.
Solicitações de cadastro devem passar por mecanismos de confirmação de identidade e, sempre que necessário, por validação junto ao próprio condomínio. Também é recomendável manter registros das alterações realizadas e dos responsáveis pelas autorizações.
A definição desses procedimentos deve envolver o condomínio e a empresa responsável pela solução tecnológica, considerando as características específicas do sistema contratado.
Segurança digital passa a integrar a segurança condominial
O episódio também mostra que a proteção do condomínio não está restrita a portões, câmeras e barreiras físicas.
Contas de e-mail, aplicativos, sistemas de gestão e plataformas utilizadas pelas empresas de segurança podem fazer parte da infraestrutura de controle de acesso. Por isso, credenciais comprometidas podem representar um risco operacional.
A adoção de autenticação em múltiplos fatores, senhas individuais, controle de permissões, revisão periódica de usuários e mecanismos de confirmação de identidade pode contribuir para reduzir vulnerabilidades.
No caso investigado em Maceió, a Polícia Civil sustenta que o acesso ao e-mail de um morador teria sido justamente uma das portas utilizadas para viabilizar o cadastro fraudulento.
Câmeras continuam importantes na investigação
Mesmo com a fraude no controle de acesso, os sistemas de videomonitoramento tiveram papel relevante na apuração dos crimes.
As câmeras registraram a entrada dos suspeitos e ajudaram os investigadores a comparar a dinâmica do segundo furto com o caso anterior.
A combinação entre registros de acesso e imagens pode fornecer uma visão mais completa de uma ocorrência, permitindo verificar horários, trajetos e movimentações dentro das áreas comuns.
Para isso, é fundamental que os condomínios mantenham políticas adequadas de armazenamento e acesso às imagens, respeitando as regras de privacidade e proteção de dados.
Caso reforça necessidade de revisar protocolos
A investigação em Maceió demonstra que a modernização tecnológica dos condomínios precisa ser acompanhada por uma revisão permanente dos procedimentos de segurança.
Não basta instalar reconhecimento facial ou substituir a portaria presencial por uma central remota. É necessário verificar como novos moradores são cadastrados, quem pode autorizar alterações, quais informações são utilizadas para confirmar a identidade e como os acessos são registrados.
Também cabe avaliar a integração entre condomínio, administradora e empresa de segurança para estabelecer respostas rápidas diante de qualquer suspeita de comprometimento de credenciais.
O caso segue em investigação, e a Polícia Civil informou que continua realizando diligências para localizar outros suspeitos e verificar se o grupo pode estar relacionado a crimes semelhantes.
Para o setor condominial, a ocorrência serve como exemplo de que segurança física e segurança digital estão cada vez mais conectadas. A eficiência de uma portaria remota depende não apenas da tecnologia utilizada, mas também da confiabilidade dos processos que determinam quem pode ser reconhecido como morador e autorizado a entrar no empreendimento.