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Golpes com falsos entregadores colocam segurança de condomínios em alerta

Criminosos podem usar supostas entregas para tentar burlar controles de acesso; procedimentos padronizados e tecnologia ajudam a reduzir riscos

Golpes com falsos entregadores colocam segurança de condomínios em alerta

O crescimento das compras pela internet e do número de encomendas recebidas diariamente mudou a rotina dos condomínios e aumentou os desafios relacionados ao controle de acesso. Com entregadores chegando a todo momento às portarias, a movimentação de pessoas e volumes passou a exigir procedimentos cada vez mais organizados para evitar que criminosos utilizem uma suposta entrega como justificativa para tentar entrar no empreendimento.

A estratégia conhecida como golpe do falso entregador pode explorar justamente a aparência de normalidade de uma atividade que já faz parte do cotidiano dos condomínios. A pessoa chega à portaria com uma encomenda ou afirma ter uma entrega destinada a determinado morador e tenta convencer o funcionário a flexibilizar as regras de acesso.

Em situações de grande movimento, a abordagem pode ser acompanhada de argumentos que aumentam a pressão sobre o profissional responsável pelo controle de entrada. Alegações de urgência, dificuldade para localizar o destinatário ou pedidos para confirmar informações podem ser utilizadas para criar uma situação na qual o funcionário tome uma decisão sem realizar todas as verificações necessárias.

O problema se torna ainda mais relevante nos horários de maior concentração de entregas. Nesses períodos, a portaria precisa lidar simultaneamente com diferentes entregadores, moradores, visitantes e encomendas, o que aumenta a possibilidade de falhas quando não existem procedimentos previamente estabelecidos.

A identificação do entregador e a confirmação da entrega são medidas importantes, mas dependem de regras claras e conhecidas por toda a equipe. A simples afirmação de que determinada pessoa está realizando uma entrega não deve ser suficiente para permitir sua circulação pelas dependências internas do condomínio.

Uma das medidas de segurança apontadas para reduzir esse tipo de risco é a criação de uma área específica para recebimento de encomendas. Dessa maneira, o entregador permanece em um espaço determinado e não precisa ter acesso às demais áreas do empreendimento.

Também é importante evitar que a liberação de acesso seja baseada exclusivamente nas informações fornecidas pelo próprio visitante. Sempre que houver dúvida sobre a entrega, a orientação é seguir o protocolo definido pelo condomínio e realizar as confirmações necessárias antes de permitir qualquer avanço para áreas restritas.

A definição prévia dos procedimentos também reduz a necessidade de decisões improvisadas. Quando o funcionário sabe exatamente como agir diante de um entregador, de uma encomenda de grande volume ou de uma situação considerada fora do padrão, diminui a possibilidade de que a pressão do momento resulte em uma flexibilização indevida do controle de acesso.

A segurança, portanto, não depende exclusivamente da atenção individual do porteiro. O modelo de funcionamento da portaria, as regras estabelecidas pelo condomínio, a comunicação com os moradores e os recursos tecnológicos disponíveis também fazem parte da estratégia de prevenção.

Uma alternativa que vem sendo utilizada para organizar o recebimento são os armários inteligentes, também conhecidos como smart lockers. Os equipamentos possuem compartimentos com abertura controlada eletronicamente e permitem que as encomendas sejam depositadas em um local específico para posterior retirada pelo destinatário.

Nesse modelo, dependendo da estrutura adotada pelo condomínio, o entregador pode deixar o volume no compartimento destinado ao recebimento sem precisar circular pelas áreas internas ou manter contato direto com o morador. O sistema pode registrar a operação e enviar uma notificação ao destinatário informando que a encomenda está disponível para retirada.

A utilização de armários inteligentes também pode ajudar a separar o momento da entrega do momento em que o morador recebe efetivamente o produto. Em vez de o entregador precisar aguardar a abertura do acesso ao condomínio ou procurar diretamente o destinatário, a encomenda fica armazenada em um espaço controlado.

Esses sistemas podem ainda manter registros de armazenamento e retirada, permitindo maior rastreabilidade das operações. Dessa forma, a tecnologia passa a funcionar como uma camada complementar de segurança e organização dentro do processo de recebimento.

A adoção de tecnologia, entretanto, não elimina a necessidade de procedimentos tradicionais. Identificação, controle de visitantes, regras para acesso às áreas internas e orientação dos funcionários continuam sendo elementos fundamentais da segurança condominial.

A principal diferença está na redução das situações em que o funcionário precisa tomar decisões rápidas diante de uma pessoa desconhecida. Quanto mais automatizado e previsível for o processo de recebimento, menor tende a ser a dependência de avaliações realizadas sob pressão.

O tema ganhou ainda mais relevância diante das discussões recentes sobre a permanência de entregadores dentro de condomínios. Em São Paulo, por exemplo, a Câmara Municipal aprovou em primeiro turno, em setembro de 2026, um projeto que estabelece que o consumidor deve retirar a encomenda na portaria, recepção ou entrada principal do prédio, com exceções previstas no próprio texto. A proposta ainda depende de segunda votação e eventual sanção para entrar em vigor.

A discussão sobre o acesso de entregadores às áreas internas também envolve questões de segurança dos próprios trabalhadores. O projeto aprovado em primeiro turno na capital paulista foi apresentado sob o argumento de reduzir a exposição dos entregadores a situações de violência. O texto prevê exceções para idosos, pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida e também admite a entrada quando houver concordância do condomínio e do entregador.

A adoção de regras que concentram as entregas na portaria pode, portanto, produzir efeitos tanto sobre a segurança dos condomínios quanto sobre a rotina dos trabalhadores e moradores. Para que a medida funcione adequadamente, é necessário que o empreendimento estabeleça uma estrutura capaz de receber, armazenar e entregar os volumes sem criar novos pontos de vulnerabilidade.

Outro aspecto importante é a orientação dos próprios moradores. Mesmo quando o condomínio possui procedimentos rigorosos, a segurança pode ser comprometida caso o residente solicite que o entregador entre ou pressione a portaria para flexibilizar determinada regra.

Por isso, as normas internas precisam ser comunicadas de forma clara aos moradores, funcionários e prestadores de serviço. O objetivo é evitar que situações excepcionais sejam tratadas como rotina e que diferentes funcionários adotem procedimentos contraditórios diante do mesmo tipo de ocorrência.

O treinamento da equipe também possui papel importante. Os profissionais responsáveis pela portaria precisam conhecer os protocolos definidos pelo condomínio e saber como proceder diante de situações que fujam do padrão. A orientação deve contemplar não apenas entregadores, mas também visitantes, prestadores de serviços e demais pessoas que solicitem acesso ao empreendimento.

Em situações de dúvida, a confirmação com o morador ou com a empresa responsável pela entrega deve seguir os procedimentos previamente estabelecidos. O importante é evitar que a pressão exercida por quem está do lado externo determine a decisão do funcionário.

A experiência de outros empreendimentos também demonstra que o chamado golpe do falso entregador pode assumir diferentes formas. Há registros de situações em que criminosos utilizam uma suposta entrega para tentar convencer a portaria a abrir o acesso ou até mesmo entram após renderem um entregador verdadeiro. Também existem abordagens em que o criminoso utiliza um pacote de grandes dimensões como argumento para solicitar a abertura de determinados acessos.

Por esse motivo, a segurança deve considerar não apenas a identidade aparente do entregador, mas o comportamento, a autorização e o procedimento pelo qual a encomenda será efetivamente recebida.

Para síndicos e administradoras, o crescimento do comércio eletrônico representa a necessidade de revisar periodicamente os protocolos de portaria. Regras que funcionavam quando o volume de encomendas era menor podem precisar de adaptações diante da realidade atual dos condomínios.

A definição de um ponto específico para entregas, a manutenção de registros, a orientação dos funcionários, a comunicação com os moradores e, quando possível, a utilização de soluções tecnológicas podem contribuir para tornar o processo mais previsível.

O objetivo não é dificultar o recebimento de encomendas, mas estabelecer uma rotina que permita conciliar praticidade e segurança. O fluxo de entregas deve ser organizado de forma que a comodidade dos moradores não resulte em abertura de brechas no controle de acesso.

Com o aumento das entregas, a segurança condominial passa, portanto, a depender também da forma como os volumes são recebidos, armazenados e disponibilizados aos moradores. O desafio está em criar um processo que reduza interações desnecessárias, evite decisões improvisadas e mantenha sob controle o acesso às áreas internas.

Nesse cenário, os armários inteligentes podem ser utilizados como uma ferramenta complementar, enquanto protocolos de identificação e controle permanecem como parte essencial da operação. A combinação entre procedimentos, treinamento e tecnologia pode ajudar os condomínios a enfrentar um problema que tende a ganhar importância à medida que o volume de entregas continua fazendo parte da rotina dos empreendimentos.