Fim da 6x1 pode encarecer imóveis e atrasar obras
Construção civil já enfrenta escassez de mão de obra, e entidades projetam aumento de custos, prazos de obras e preços dos imóveis

A possível extinção da escala 6x1 e a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas preocupam construtoras e incorporadoras pelos possíveis impactos sobre a contratação de trabalhadores, os custos e os prazos dos empreendimentos.
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou, em 2 de setembro, o relatório da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que trata do fim da escala 6x1. O texto ainda precisa ser analisado pelo plenário do Senado, em dois turnos.
Segundo estimativas do setor, seriam necessários aproximadamente 288 mil trabalhadores adicionais para compensar a redução da jornada. A dificuldade está no fato de que a construção civil já enfrenta escassez de profissionais qualificados.
Falta de mão de obra preocupa setor
A construção civil continua dependente de trabalhadores como pedreiros, carpinteiros, armadores, serventes e operadores de máquinas. Mesmo com o avanço da industrialização, da tecnologia e de sistemas construtivos, empresas relatam dificuldades para preencher vagas nos canteiros.
Para Yorki Estefan, presidente do SindusCon-SP, o principal problema atualmente não é a falta de ocupação das equipes, mas a dificuldade de encontrar profissionais disponíveis para atender à demanda do setor.
As entidades reconhecem que modelos mais flexíveis de trabalho podem contribuir para tornar a construção civil mais atrativa a novos profissionais e ampliar a participação feminina nos canteiros. No entanto, defendem cautela diante de uma eventual redução generalizada da jornada.
Obras podem ficar mais longas
Um dos principais impactos apontados pelo setor está relacionado ao cronograma dos empreendimentos.
A construção civil funciona por etapas sucessivas. Fundações, estruturas e revestimentos de fachada, por exemplo, dependem do cumprimento de determinadas fases anteriores. Quando uma etapa sofre atraso, o efeito pode se espalhar por todo o cronograma.
De acordo com o SindusCon-SP, a redução dos dias trabalhados poderia afetar especialmente atividades consideradas críticas para o andamento das obras. Nas fundações, por exemplo, poderia haver ociosidade de equipamentos pesados. Já em estruturas e revestimentos de fachada, o impacto poderia aparecer no prazo de execução e entrega.
O sábado também possui uma função importante na programação dos canteiros, sendo utilizado como margem para recuperar atrasos provocados por chuvas, interrupções de fornecimento e outros imprevistos.
Prédio de 30 meses poderia levar 33
Simulações realizadas pelo setor indicam que um empreendimento residencial que atualmente leva aproximadamente 30 meses para ser concluído poderia passar para cerca de 33 meses em um cenário de jornada semanal de 40 horas.
O aumento do prazo representa mais do que uma espera maior pela entrega das chaves. Obras prolongadas exigem maior volume de recursos financeiros, ampliam despesas administrativas e estendem contratos com fornecedores e prestadores de serviços.
Também existe preocupação com empreendimentos que já foram comercializados com datas de entrega estabelecidas.
Custo da mão de obra pode subir 15%
Além do impacto sobre os cronogramas, o setor estima aumento significativo nos custos.
Segundo cálculos da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), a redução da jornada poderia elevar em até 15% os custos de mão de obra, representando um impacto estimado de R$ 20,3 bilhões por ano para a construção civil.
Para as empresas, a combinação entre maior custo e prazo mais longo pode pressionar o fluxo de caixa. Segundo o SindusCon-SP, a obra passaria a demandar mais tempo e capital para entregar o mesmo produto.
Habitação popular pode sentir maior impacto
A preocupação é ainda maior no segmento de habitação popular. Conforme a Cbic, a mão de obra representa uma parcela relevante do custo total desses empreendimentos, fazendo com que uma elevação dos gastos tenha maior potencial de pressionar o preço final.
A entidade defende que os efeitos sejam considerados na discussão sobre uma eventual mudança na jornada, principalmente porque o aumento dos custos pode atingir diretamente a capacidade de produção de moradias.
Imóveis podem ficar mais caros
A possível elevação dos custos de construção também pode chegar ao consumidor.
Estimativas da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) indicam que os preços dos imóveis poderiam subir cerca de 5,5% caso a redução da jornada provoque aumento dos custos do setor.
A entidade calcula ainda que esse reajuste teria potencial para retirar aproximadamente 2,5 milhões de famílias das condições de acesso ao financiamento habitacional. O impacto também poderia atingir programas habitacionais financiados com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), já que imóveis mais caros reduziriam a quantidade de unidades que poderiam ser financiadas com o mesmo volume de recursos.
Tecnologia ainda não compensaria redução da jornada
As construtoras vêm ampliando investimentos em industrialização, digitalização, inteligência artificial aplicada ao planejamento e sistemas construtivos modulares.
Apesar disso, representantes do setor avaliam que essas ferramentas ainda não seriam suficientes, no curto prazo, para compensar uma redução ampla da jornada de trabalho.
A Cbic afirma que a produtividade da construção brasileira avançou nos últimos anos, mas ainda não atingiu um nível capaz de absorver uma mudança dessa dimensão sem provocar efeitos sobre custos e prazos.
Setor pede período maior de adaptação
As entidades da construção afirmam que não são contrárias a medidas voltadas à melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores. A preocupação está na velocidade de implementação de uma eventual mudança.
A proposta aprovada pelos deputados prevê uma transição de 14 meses para a jornada de 40 horas. A Abrainc, porém, defende um período maior, de pelo menos 60 meses, para permitir que o setor adapte seus ciclos de produção, que podem durar de três a quatro anos.
As pequenas e médias construtoras estão entre as mais preocupadas, devido ao menor acesso a crédito e à menor capacidade de realizar investimentos rápidos em industrialização e produtividade.
Para o setor, uma mudança abrupta poderia aumentar a pressão sobre margens já reduzidas e acelerar movimentos de consolidação no mercado da construção civil.
Fonte: Folha de São Paulo