Trânsito interno desafia gestão condominial
Especialistas orientam como síndicos devem agir diante de infrações de trânsito interno, uso irregular de vagas, danos em veículos e instalação de carregadores para carros elétricos

A convivência em condomínio muitas vezes se assemelha à gestão de uma pequena cidade. No quadro "Chama o Síndico", do telejornal Bom Dia Rio Grande, o repórter Raí Quadros visitou um dos maiores complexos residenciais do Rio Grande do Sul — com cerca de 4.500 moradores, mais de 1.250 vagas de garagem e uma circulação diária superior a 1.300 veículos — para entender como gerenciar os principais conflitos de trânsito interno.
O síndico profissional Diego Dornelles e o morador Luis Felipe Campos Medeiros explicaram as regras, os limites da administração e as soluções para os dilemas mais comuns nas garagens.
Excesso de velocidade: o Código de Trânsito vale dentro do condomínio?
Uma das principais reclamações dos moradores envolve o desrespeito à velocidade nas vias internas e subsolos, o que coloca em risco pedestres e crianças.
Quem dita as regras: Por se tratar de uma área privada, a legislação soberana é a Convenção do Condomínio e o seu Regimento Interno. No complexo visitado, por exemplo, o limite estabelecido é de 10 km/h.
Como denunciar: O morador que presenciar uma infração deve registrar o fato (por meio de fotos ou vídeos) e repassar à administração. A gestão confrontará as imagens com o circuito de câmeras de segurança.
Punições: O condomínio adota uma postura gradual. Primeiro, busca-se a conscientização; caso não funcione, envia-se uma notificação formal e, em caso de reincidência, aplica-se a multa.
"É só com a conscientização que se consegue mudar esse tipo de questão. Mas, às vezes, a coisa só funciona quando pesa no bolso, infelizmente", destacou o síndico Diego Dornelles.
Invasão de vagas e uso indevido das áreas comuns
O morador Luis Felipe ressaltou que a paciência e o diálogo direto entre vizinhos costumam resolver a maior parte dos problemas cotidianos, como a necessidade temporária de usar a vaga alheia.
"Se a pessoa precisa usar a vaga do companheiro, ela pode falar com educação, chamar e explicar a situação. Hoje existem os grupos de WhatsApp do condomínio para isso", sugeriu.
No entanto, quando a informalidade gera abusos, a sindicância precisa agir. O gestor exemplificou com o caso de motocicletas estacionadas fora das demarcações, em áreas de circulação comum:
Campanha informativa e avisos colados diretamente nos veículos.
Notificações formais aos proprietários identificados.
Aplicação de multas caso a irregularidade persista.
Batidas e arranhões na garagem: de quem é a responsabilidade?
Um questionamento frequente entre os condôminos é sobre os danos materiais causados por terceiros dentro do estacionamento — como a famosa "portada" que amassa o carro ao lado.
O síndico Diego Dornelles esclareceu de forma direta: a responsabilidade financeira é exclusivamente de quem causou o dano, e não do condomínio.
O papel da administração e do síndico, nesses casos, limita-se a fazer o "meio-campo": ajudar a identificar o responsável por meio das câmeras de segurança e facilitar o contato entre as partes para que resolvam o prejuízo de forma particular.
O novo desafio: carregamento de carros elétricos
Com a popularização dos veículos elétricos e híbridos, os condomínios enfrentam um novo gargalo estrutural. No residencial de grande porte, uma enquete realizada em março apontou a existência de 18 carros elétricos, mas 76 moradores declararam intenção de adquirir um modelo até o fim do ano.
Muitos proprietários questionam se podem instalar um carregador individual diretamente em suas vagas privadas. Segundo o especialista, isso é inviável na maioria dos prédios.
O problema: A infraestrutura elétrica original não possui carga suportável para atender centenas de carregadores individuais simultâneos.
A solução: A alternativa ideal é levar o tema para votação em assembleia e aprovar a instalação de pontos de carregamento coletivos. Dessa forma, o condomínio cria uma estrutura compartilhada, segura e dimensionada por engenheiros, evitando riscos de sobrecarga na rede elétrica do edifício.
Fonte: G1