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Entregadores ganham espaço no mercado imobiliário

Nova regra da Caixa permite usar ganhos de plataformas de delivery e mobilidade na análise de crédito para financiamento da casa própria

Entregadores de aplicativos entram no radar do mercado imobiliário após mudança na comprovação de renda
Foto: Reprodução

Entregadores e motoristas que trabalham por meio de aplicativos passaram a ser vistos como um novo público potencial pelo mercado imobiliário após uma mudança nas regras de comprovação de renda para financiamento habitacional. A Caixa Econômica Federal passou a aceitar os ganhos obtidos em plataformas de delivery e mobilidade como parte da documentação utilizada na análise de crédito.

A alteração ataca uma das principais dificuldades enfrentadas por trabalhadores de aplicativos: a comprovação formal de uma renda que, embora possa ser recorrente, não se encaixa nos modelos tradicionais utilizados pelas instituições financeiras.

Com a possibilidade de apresentar o histórico de recebimentos das plataformas, esses profissionais passam a ter uma barreira documental a menos para buscar a casa própria. A mudança, porém, não significa aprovação automática do financiamento, já que outros critérios continuam sendo considerados pelo banco.

Nova forma de comprovar renda

Para esse tipo de análise, a Caixa exige documentação que demonstre os recebimentos obtidos pela atividade. Entre os documentos considerados estão extratos de quatro meses consecutivos da mesma plataforma e o resumo fiscal mensal gerado pelo aplicativo.

O documento mais recente deve ter sido emitido dentro do prazo estabelecido pelo banco. A análise também considera a consistência e a recorrência dos valores recebidos.

A mudança permite que uma atividade anteriormente vista como de difícil comprovação passe a contar com registros financeiros mais estruturados. Na prática, o histórico de pagamentos realizado pelas plataformas pode ajudar a demonstrar a capacidade de geração de renda do trabalhador.

Ainda assim, a instituição financeira avalia a situação cadastral, o nível de endividamento e a capacidade de pagamento antes de decidir pela concessão do crédito.

Um novo público para as incorporadoras

A mudança também altera a estratégia comercial de empresas do setor imobiliário. Trabalhadores de aplicativos representam um contingente expressivo de potenciais compradores que, até então, encontravam dificuldades para acessar o financiamento por não conseguirem comprovar renda da mesma maneira que trabalhadores com vínculo formal.

Dados do IBGE citados na reportagem indicam que havia 1,7 milhão de pessoas trabalhando por meio de plataformas digitais e aplicativos de serviços no terceiro trimestre de 2024. Desse total, 485 mil tinham como principal atividade o trabalho em aplicativos de entrega.

Esse universo passou a despertar a atenção de incorporadoras interessadas principalmente no segmento econômico e em empreendimentos enquadrados no Minha Casa, Minha Vida.

A mudança amplia o público que pode chegar à etapa de análise de crédito e cria novas possibilidades de abordagem comercial para empresas que atuam com imóveis de menor valor.

Primeiras ações já movimentam vendas

O interesse do setor deixou de ser apenas uma possibilidade. Após o anúncio da nova regra, uma incorporadora realizou uma ação comercial voltada especificamente a entregadores de aplicativos em São Paulo e vendeu 50 imóveis em um único dia, segundo a reportagem.

O iFood também criou o programa Rota da Casa Própria, que aproxima entregadores de construtoras e permite que trabalhadores elegíveis utilizem o histórico de ganhos registrado na plataforma para iniciar a busca por um imóvel.

A iniciativa demonstra como empresas de tecnologia e incorporadoras começam a atuar conjuntamente para transformar uma base de trabalhadores em potenciais compradores.

Minha Casa, Minha Vida amplia oportunidade

A aproximação entre trabalhadores de aplicativos e o mercado imobiliário também ocorre em um momento de expansão da habitação popular.

O Minha Casa, Minha Vida atende uma parcela significativa da demanda por imóveis novos e depende fortemente do financiamento para viabilizar as compras. Por isso, facilitar a comprovação de renda pode ampliar o número de consumidores capazes de chegar às etapas de contratação.

Para trabalhadores que se enquadram nas condições do programa, a combinação entre renda comprovada, financiamento e condições específicas de crédito pode abrir novas possibilidades de acesso à casa própria.

A elegibilidade, entretanto, continua dependendo das regras do programa e da análise individual realizada pela instituição financeira.

Faturamento não é o mesmo que renda

Um dos principais cuidados para quem trabalha por aplicativo é diferenciar o valor recebido das plataformas da renda efetivamente disponível para assumir uma dívida de longo prazo.

Um entregador pode apresentar determinado volume de recebimentos, mas também possui despesas relacionadas diretamente à atividade, como combustível, manutenção, seguro e outros custos operacionais.

Por isso, a capacidade de pagamento deve considerar o valor que permanece disponível depois dessas despesas. O planejamento financeiro também precisa levar em conta a possibilidade de variação dos ganhos entre diferentes meses.

Essa avaliação é especialmente importante no financiamento imobiliário, que normalmente envolve compromissos financeiros de longo prazo.

Compra exige planejamento além da entrada

A aprovação do crédito também não encerra os custos relacionados à aquisição de um imóvel. O comprador precisa considerar despesas com documentação, impostos, registro, mudança e eventuais reformas ou aquisição de móveis.

Depois da compra, entram no orçamento despesas recorrentes como condomínio, IPTU, seguro e manutenção.

Para trabalhadores com renda variável, manter uma reserva financeira antes de assumir o financiamento pode ser ainda mais importante. Uma queda temporária nos ganhos não elimina a obrigação de pagar a parcela do imóvel.

A capacidade de manter o compromisso durante períodos de menor faturamento deve fazer parte da decisão antes da assinatura do contrato.

Mercado passa a enxergar renda de outra forma

A mudança promovida pela Caixa representa uma alteração importante na maneira como o mercado financeiro pode avaliar trabalhadores de plataformas digitais. A renda não deixa de ser variável, mas passa a contar com mecanismos formais de comprovação por meio do histórico das próprias plataformas.

Para incorporadoras e construtoras, isso significa a possibilidade de alcançar consumidores que já tinham renda e demanda por moradia, mas encontravam uma barreira na documentação necessária para obter financiamento.

Para os trabalhadores, a mudança representa uma oportunidade, mas também exige planejamento para evitar que a facilidade de comprovação seja confundida com capacidade automática de assumir uma dívida.

O movimento tende a aproximar o mercado imobiliário de uma parcela relevante da força de trabalho que atua por meio de aplicativos. Com a expansão dessa modalidade de renda e a busca por alternativas de acesso à moradia, entregadores e motoristas passam a ocupar um espaço cada vez mais visível nas estratégias de vendas do setor.

Fonte: Diário do Litoral