Juros e dívidas freiam construção civil
Análise do FGV IBRE aponta que crédito caro e famílias mais endividadas reduziram o ritmo da construção, apesar da expansão acumulada no semestre

Endividamento das famílias e juros altos pressionam construção civil no segundo trimestre
A construção civil perdeu ritmo no segundo trimestre de 2026 em um cenário marcado pelo alto custo do crédito, endividamento das famílias e menor capacidade de consumo. A avaliação do FGV IBRE ajuda a explicar parte da desaceleração registrada pelo setor dentro de um ambiente econômico que também apresentou perda de velocidade no período.
O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro avançou 0,5% entre abril e junho, abaixo do crescimento de 1,1% registrado nos três primeiros meses do ano. No mesmo período, a construção civil recuou 0,4%, enquanto o consumo das famílias também apresentou queda de 0,4%.
Endividamento limita capacidade de consumo
O aumento do endividamento das famílias aparece como um dos fatores que restringem a demanda. Dados do FGV IBRE mostram que o endividamento das pessoas físicas junto ao Sistema Financeiro Nacional chegou a 49,7% da renda disponível bruta em novembro de 2025 e permaneceu próximo desse nível até o fim daquele ano.
Quando uma parcela maior da renda está comprometida com dívidas, sobra menos espaço no orçamento para novas compras e investimentos. O efeito alcança especialmente decisões de maior valor, como aquisição de imóveis, reformas e contratação de serviços ligados à construção.
O próprio FGV IBRE destaca que períodos de expansão acompanhados de forte crescimento do endividamento podem ser seguidos por fases de desaceleração econômica, já que as famílias passam a reduzir despesas para recompor sua capacidade financeira.
Juros elevados dificultam recuperação do setor
Além das dívidas acumuladas, o custo do dinheiro permanece como um obstáculo para a construção. Taxas elevadas encarecem financiamentos, aumentam o custo de capital das empresas e dificultam a tomada de crédito por consumidores.
O impacto ocorre em diferentes etapas da cadeia. Para as incorporadoras, o ambiente financeiro mais restritivo pode limitar investimentos e aumentar o custo dos projetos. Para os compradores, parcelas maiores reduzem a capacidade de aquisição. Já para quem pretende reformar ou ampliar um imóvel, o crédito mais caro pode levar ao adiamento da obra.
A construção civil também é sensível ao comportamento dos investimentos. No segundo trimestre, a Formação Bruta de Capital Fixo cresceu 1,2%, mas desacelerou em relação à expansão de 3,4% registrada no primeiro trimestre.
Construção mantém resultado positivo no semestre
Apesar da retração trimestral, o setor não apresenta uma trajetória de queda generalizada. No primeiro semestre de 2026, a construção civil acumulou crescimento de 1,1% em relação ao mesmo período de 2025.
O resultado mostra que a atividade ainda encontra sustentação em determinados segmentos, mas opera em um ambiente de menor dinamismo. A diferença entre o desempenho acumulado e o resultado do segundo trimestre indica uma perda de velocidade ao longo do ano.
A construção também teve desempenho inferior ao de setores como a agropecuária, que cresceu 2,8% no segundo trimestre, e a indústria extrativa, com alta de 3,4%.
Mercado imobiliário sente efeitos do crédito mais restritivo
O comportamento da construção tem reflexos diretos sobre o mercado imobiliário. Menor disponibilidade de crédito e maior comprometimento da renda podem alterar o momento da decisão de compra, principalmente entre famílias que dependem de financiamento.
Ao mesmo tempo, incorporadoras precisam equilibrar o custo de produção com a capacidade de pagamento dos consumidores. Esse cenário favorece projetos mais alinhados à demanda efetiva e exige maior atenção à formação de preços, velocidade de vendas e estrutura de financiamento.
O movimento também ajuda a explicar por que diferentes segmentos imobiliários apresentam comportamentos distintos. Empreendimentos voltados ao público que possui acesso a condições específicas de crédito podem apresentar maior resiliência, enquanto compradores dependentes de financiamento tradicional ficam mais expostos ao custo dos juros.
Impactos chegam à cadeia da construção
Os efeitos não ficam restritos às incorporadoras. A desaceleração pode alcançar fornecedores de materiais, empresas de serviços especializados, profissionais da construção e atividades relacionadas à manutenção e reforma de imóveis.
O FGV IBRE já havia identificado, em análise sobre o setor, uma perda de dinamismo nas despesas das famílias com obras e reformas diante de um ambiente caracterizado por juros elevados e maior endividamento.
A combinação desses fatores cria um cenário no qual decisões de investimento precisam ser avaliadas com maior cautela. Projetos com retorno mais longo ficam especialmente sensíveis às condições de financiamento e à evolução da demanda.
Planejamento ganha importância para o setor
Para empresas da construção e do mercado imobiliário, o cenário reforça a necessidade de planejamento financeiro, controle de custos e acompanhamento constante das condições de crédito.
A perspectiva também exige atenção ao comportamento das famílias. Mesmo com o mercado de trabalho apresentando sinais de resistência, o comprometimento da renda pode limitar a capacidade de assumir novas obrigações financeiras.
Para o segmento condominial, a conjuntura econômica também merece acompanhamento. Famílias mais pressionadas financeiramente podem enfrentar maior dificuldade para absorver reajustes de despesas, enquanto novos empreendimentos precisam ser planejados considerando custos de implantação, manutenção e capacidade de pagamento dos futuros moradores.
O desempenho da construção no segundo trimestre, portanto, revela mais do que uma simples oscilação trimestral. O resultado evidencia como juros elevados, endividamento e restrições ao crédito podem interferir simultaneamente no consumo, nos investimentos e na capacidade de expansão de um dos principais setores da economia brasileira.
Fonte: Valor Econômico