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O pesadelo do mercado imobiliário nos anos 80

Inflação elevada, crédito escasso e pouca proteção ao consumidor marcaram uma década muito diferente da realidade imobiliária atual

E se o mercado imobiliário voltasse aos anos 80? Spoiler: era um pesadelo
Foto: Imagem gerada por IA

Se você está minimamente conectado, com certeza vem acompanhando a febre das pessoas alterando suas fotos para o visual dos anos 80. Uma tendência que tomou conta das redes nas últimas semanas está levando todo o mundo de volta aos anos 80. Cabelos volumosos, franjas, ombreiras, maquiagem pintada e aquela estética inconfundível de uma década que, vista pelas fotos de hoje, parece até divertida. Aproveitando a onda, que tal relembrar como era o mercado imobiliário na década de 80?

Sem internet, sem Código de Defesa do Consumidor e em meio à inflação galopante, comprar um imóvel era uma experiência muito diferente e a localização dos sonhos nem sempre era a que cabia sem financiamento, o que levava a pessoa a comprar o imóvel onde o orçamento permitia e não onde ela gostaria.

O Sistema Financeiro da Habitação foi criado em 1964 e chegou ao início dos anos 80 bastante relevante com cerca de 627 mil unidades habitacionais, seu recorde até histórico então. Mas a combinação de inflação, recessão, desemprego e perda do poder de compra desorganizou rapidamente o sistema. Entre 1983 e 1986, o financiamento habitacional passou a atender menos de 10% da demanda por novas moradias, segundo levantamento do Ministério das Cidades. Só em 1997 foi criado o Sistema Financeiro Imobiliário (SFI), que ampliou o acesso ao crédito imobiliário, permitindo que pessoas de diferentes perfis de renda adquirissem imóveis.

Para entender o tamanho do problema, basta lembrar do Brasil daquela época. A inflação chegou a 100% ao ano em 1982 e a 239% em 1985. Salários e prestações não caminhavam necessariamente na mesma velocidade. A inadimplência cresceu, a captação das cadernetas de poupança e do FGTS foi afetada e o modelo de financiamento começou a entrar em colapso. O crédito escasso também obrigava incorporadoras a encontrar soluções próprias. O autofinanciamento ganhou importância: em vez de depender exclusivamente do sistema bancário, as empresas financiavam parte da produção com os recursos dos próprios compradores. Não por acaso, nos anos seguintes surgirão modelos como o Plano 100, criado pela Rossi em 1992 justamente como resposta às dificuldades de financiamento imobiliário enfrentadas pela classe média.

Era outro mercado também do ponto de vista jurídico. A Lei de Incorporações Imobiliárias já existia desde 1964, portanto não se tratava de uma terra sem regras, mas o consumidor tinha muito menos instrumentos de proteção. O Código de Defesa do Consumidor só seria sancionado em setembro de 1990. Para ter ideia, muitos empreendimentos foram entregues sem elevador, considerados item dispensável.

A legislação que hoje chamamos de Lei do Distrato é ainda mais recente, pois entrou em vigor em 2018 e definiu regras específicas para o desfazimento dos contratos de aquisição de imóveis em incorporação imobiliária e loteamentos, inclusive com exigência de transparência sobre preço, corretagem, índices de correção, advertências e devolução de valores.

Também havia muita diferença na forma de vender. Ser corretor nos anos 80 era tarefa para os fortes. Não havia um cliente que entrasse no Instagram, via um anúncio, clicasse, preenchia um formulário e aparecia imediatamente no CRM da imobiliária. Também não existia a possibilidade de pesquisar em poucos minutos ofertas de apartamentos de três dormitórios em um determinado bairro, comparar preços por metro quadrado, condomínio, escolas próximas e visualizar a fachada pelo celular. O tinha a agenda, o telefone fixo, os classificados dos jornais, anúncios corretores impressos, folders, listas de clientes e, principalmente, relacionamento.

O não disputou a atenção do cliente com centenas de anúncios na tela do corretor celular, mas precisei construir uma rede de informações que hoje cabe dentro de uma plataforma digital e não foram poucas as histórias de golpes aplicados com cheques falsos e sem fundos em época de lançamento imobiliário nas plantações de venda.

Algumas empresas que marcaram aquela época atravessaram décadas do mercado brasileiro e seguem até hoje. A Gafisa, fundada nos anos 1950, começou na década de 80 inovando com o conceito de hotel-residência, precursor dos flats e apart-hotéis, com empreendimentos como The Landmark, em São Paulo. A Cyrela, criada nos anos 60, passou por um importante movimento de verticalização de sua operação em 1981, quando criou estruturas próprias para construção e vendas. Nos anos 80, a Encol chegou a centenas de fábricas espalhadas pelo Brasil e foi considerada a maior operação imobiliária do mundo. Ninguém acreditaria se contassem que a incorporada iria à falência deixando mais de 40 mil famílias sem casa.

Nas fotos geradas pelas redes sociais, mudam o cabelo, a roupa e a maquiagem. No mercado imobiliário, mudou praticamente tudo ao redor dele, o crédito, a legislação, o consumidor, a incorporação, a comunicação, a corretagem e a maneira de escolher onde morar.

Fonte: Real Estate | VEJA — Por Renata Firpo