Dois testamentos e um apartamento de R$ 2 milhões: a disputa judicial da herança de casal de escaladores no Flamengo (RJ)
Ex-cuidadoras e sobrinho brigam na Justiça por bens deixados por idosos, incluindo imóvel, carro importado e ativos financeiros, enquanto pedido de perícia sobre saúde mental da falecida aguarda decisão.

🚨 Dois testamentos e um apartamento de R$ 2 milhões: a disputa milionária da herança de casal de escaladores no Flamengo (RJ)
Um patrimônio milionário deixado por um casal de escaladores idosos, incluindo um apartamento avaliado em aproximadamente R$ 2 milhões na Avenida Oswaldo Cruz, no Flamengo (RJ), está no centro de uma disputa judicial envolvendo um sobrinho e duas ex-cuidadoras. O caso envolve dois testamentos lavrados no mesmo cartório, dois inventários distintos, acusações de má gestão e questionamentos sobre a capacidade mental da falecida para destinar sua parte da herança.
Detalhes do patrimônio e dos testamentos
O casal, Tadeusz Edmund Hollup, contador polonês, e Cionyra Ceres de Araújo Hollup, secretária aposentada da Petrobras, eram adeptos de escaladas e mantiveram uma união de 66 anos, sem filhos. Tadeusz morreu em 27 de agosto de 2018 por problemas cardíacos, insuficiência renal aguda e sepse urinária. Em 31 de julho de 2007, o casal havia registrado um testamento que deixava todos os bens para o sobrinho Vítor Hollup, que atualmente atua como inventariante de 50% da herança.
Cinco meses após a morte do marido, Cionyra lavrou um novo testamento em 5 de dezembro de 2018, destinando sua parte da herança às cuidadoras Maria de Lourdes Barbosa Soares (60%) e Gilcilene Souza Martins (40%). As cuidadoras trabalharam com o casal por períodos que variam entre três e dez anos. O segundo testamento motivou pedido de anulação por parte do sobrinho, que alega que a tia estava com demência avançada, cadeirante e incapaz de decidir legalmente sobre sua herança.
Controvérsias e medidas judiciais
Após a morte do contador, Vítor Hollup chegou a administrar as despesas do apartamento até outubro de 2018. Ele relata que foi impedido de entrar no imóvel após a tia contratar advogado e supostamente assinar um bilhete proibindo sua entrada. O Ministério Público identificou que a assinatura não era de Cionyra, segundo laudo grafotécnico, reforçando o conflito entre as partes.
As cuidadoras, por sua vez, afirmam que Cionyra estava lúcida, decidiu por vontade própria deixar a herança para elas e que o sobrinho tinha presença limitada no cotidiano do casal. O advogado das cuidadoras declarou:
“Até onde sei, tudo foi feito obedecendo os trâmites legais, sem qualquer vício. O sobrinho não era uma presença constante na vida da dona Cionyra e o relacionamento entre os dois não era dos melhores”.
Dívidas do imóvel e pedido de desocupação
O apartamento acumulou dívidas de condomínio, IPTU e taxa de incêndio, que somavam mais de R$ 132 mil até setembro de 2025. O advogado do sobrinho solicitou liminar para desocupação do imóvel e cobrança dos débitos, enquanto o processo de anulação do segundo testamento segue em tramitação na 12ª Vara de Órfãos e Sucessões do Rio de Janeiro.
Perícia sobre capacidade mental e investigação do MPRJ
O Ministério Público do Rio de Janeiro determinou a realização de perícia indireta para avaliar a capacidade mental de Cionyra no momento da lavratura do segundo testamento, utilizando laudos médicos como base. Um perito nomeado inicialmente se declarou incapaz, aguardando a nomeação de um especialista adequado.
Além disso, o MPRJ abriu investigação para apurar possível responsabilidade das cuidadoras no declínio do estado de saúde da aposentada. A Corregedoria de Justiça informou que, em 2018, não havia exigência de atestado de sanidade mental para idosos que lavrassem testamentos presencialmente, regra que passou a existir somente em 2021, com gravação em vídeo para maiores de 80 anos.
Bens adicionais em análise
Além do apartamento, a Justiça busca identificar outros bens deixados pelo casal, como veículos de luxo e possíveis valores em contas bancárias e ações, que poderão compor a herança a ser disputada.
O caso segue sob intensa disputa judicial, com decisões ainda pendentes sobre a validade do segundo testamento, desocupação do imóvel e identificação completa do patrimônio deixado pelo casal, que envolve múltiplos ativos e questões complexas sobre capacidade mental e boa-fé.
Fonte: O Globo