Crianças mutiladas em brinquedo sem manutenção em condomínio na Bahia
Condomínio Caminho do Rio, em Barra do Jacuípe, acumula pelo menos oito casos de mutilação infantil em brinquedo enferrujado e sem manutenção; famílias denunciam omissão da síndica e abandono do espaço.

O que era para ser um espaço de lazer infantil transformou-se em um cenário de mutilações e trauma para famílias do condomínio Caminho do Rio, localizado em Barra do Jacuípe, no município de Camaçari (BA), na Região Metropolitana de Salvador. Pelo menos oito crianças já se feriram gravemente ao utilizar o mesmo brinquedo giratório, instalado em uma praça do conjunto habitacional entregue pelo programa Minha Casa Minha Vida. Os casos, que se repetem há anos, apontam para negligência da administração condominial e omissão do poder público.
O caso mais recente ocorreu na tarde da Sexta-feira Santa, 18 de abril de 2025. Henzo Gabriel, de 8 anos, portador de esquizofrenia e autismo, teve parte do dedo mindinho do pé amputado após se ferir no brinquedo conhecido como gira-gira, que apresenta visíveis sinais de ferrugem e deterioração. O acidente aconteceu enquanto o pai do menino, o ajudante técnico Daniel Flávio Silva, lavava o carro na área comum do condomínio.

De acordo com o relato, Henzo pediu autorização para andar de bicicleta, e Daniel, embora tenha permitido, alertou para que o filho evitasse o parquinho por conta dos riscos que já eram de conhecimento da comunidade. No entanto, o menino foi até o brinquedo e, ao usá-lo, teve o dedo enroscado em uma estrutura corroída, resultando em fratura múltipla exposta.
“Eu só ouvi o grito da minha vizinha. Quando minha esposa chegou lá, entrou em desespero com a cena. Foi algo que nenhum pai está preparado para ver”, descreveu o pai.
Henzo foi encaminhado às pressas para o Hospital Geral Menandro de Faria, em Lauro de Freitas, onde passou por cirurgia emergencial. Dias depois, foi transferido para o Hospital Ortopédico do Estado da Bahia, no bairro do Cabula, onde precisou amputar parte do dedo ferido em uma segunda intervenção cirúrgica. Ele segue internado, em recuperação física e emocional.
Histórico de acidentes e omissão recorrente
Apesar da gravidade, este não é um caso isolado. Em dezembro de 2024, Iuri de Oliveira, de apenas 5 anos, também sofreu mutilação no mesmo brinquedo. A criança colocou o dedo em uma abertura da base do equipamento e, ao ser girado por outra criança, teve a primeira falange do dedo indicador da mão decepada.
“Ele conseguiu tirar o dedo, mas a carne ficou no buraco, só sobrou a unha. Foi um sofrimento imenso. Ele chorava e perguntava se o dedo ia crescer de novo. Ficou traumatizado”, contou a mãe, Ingrid Oliveira.
Na ocasião, a parte do dedo chegou a cair no chão, próxima ao brinquedo, e precisou ser removida pelos próprios moradores. Iuri foi levado à UPA de Arembepe, onde passou por cirurgia. A tentativa de reimplante não teve sucesso, e os médicos realizaram a amputação definitiva da falange lesionada.

Indignados com a repetição dos acidentes, os moradores informaram que, após o primeiro caso, chegaram a realizar reuniões com a síndica do condomínio e pediram a retirada do brinquedo, alertando sobre o risco iminente. Ainda assim, nada foi feito. O equipamento continuou disponível para uso das crianças, sem qualquer sinalização, isolamento ou manutenção preventiva.
Estado de abandono e ausência de fiscalização
A praça onde o brinquedo está instalado revela um retrato preocupante de abandono: escorregadores com ferrugem, bancos danificados, árvores plantadas em pneus reciclados sem acabamento e acúmulo de água da chuva que transforma o local em área alagada. Em vídeos publicados por moradores nas redes sociais, é possível ver o estado precário da área infantil e a ausência de medidas de segurança.
O condomínio, que possui mais de mil unidades distribuídas em blocos com oito apartamentos cada, abriga uma grande quantidade de crianças — tornando a negligência ainda mais alarmante.
Segundo relatos, desde a entrega dos apartamentos, há cerca de 10 anos, o brinquedo gira-gira nunca passou por qualquer tipo de manutenção ou vistoria técnica. Especialistas em engenharia de segurança e manutenção predial reforçam que equipamentos de lazer em áreas comuns precisam ser periodicamente inspecionados, conforme normas da ABNT, para garantir integridade estrutural e prevenir acidentes.
Responsabilidade civil e penal
A situação pode gerar implicações jurídicas tanto para a administração condominial quanto para a prefeitura local. O Código Civil Brasileiro, em seu artigo 1.348, inciso V, determina que compete ao síndico diligenciar a conservação e a guarda das partes comuns. A omissão no cumprimento desse dever pode caracterizar negligência grave, abrindo espaço para ações judiciais por danos morais e materiais.
Além disso, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê proteção integral à infância, sendo obrigação do poder público garantir ambientes seguros. A eventual omissão da prefeitura, caso comprovada, também poderá ser alvo de ação por improbidade ou responsabilização solidária em eventual processo judicial movido pelas famílias afetadas.
Até o fechamento desta matéria, a síndica do condomínio não havia sido localizada para prestar esclarecimentos. A Prefeitura de Camaçari também não se posicionou sobre os acidentes, nem respondeu se houve remoção do brinquedo ou previsão de compensação às vítimas. O espaço segue aberto para manifestação das partes envolvidas.
Reflexão e urgência de mudança
O caso de Henzo Gabriel e das demais crianças mutiladas acende um alerta grave sobre a realidade de muitos condomínios populares no país. A falta de manutenção, fiscalização e atuação eficiente da gestão condominial e das autoridades públicas têm resultado em tragédias evitáveis.
Brinquedos infantis devem ser sinônimo de diversão, e não de trauma. Diante do histórico de omissão, os moradores do Caminho do Rio agora exigem justiça, responsabilidade e o mínimo que qualquer criança merece: segurança ao brincar.
Fonte: Correio 24h