Construção civil moderniza profissões nos canteiros
Projeto cria trilhas de carreira, níveis de qualificação e formação para enfrentar a falta de mão de obra nos canteiros

A construção civil está adotando uma nova estratégia para enfrentar um dos principais desafios do setor: a dificuldade de encontrar e manter mão de obra qualificada. O movimento inclui mudanças na organização das carreiras, criação de critérios de progressão profissional e atualização das nomenclaturas utilizadas nos canteiros de obras.
As chamadas Trilhas Profissionais da Construção foram lançadas em São Paulo pelo SindusCon-SP e pela Fiesp, em parceria com o Senai-SP, Sintracon-SP e Feticom. A proposta estabelece sete linhas de atuação técnica e sete níveis de evolução profissional, definidos a partir de experiência, capacitação e certificações.
Novos nomes para funções tradicionais
Uma das mudanças mais visíveis do programa está relacionada aos nomes utilizados para identificar determinadas funções. A proposta prevê que termos tradicionalmente empregados no setor, como “servente” e “pedreiro”, sejam substituídos por denominações como assistente de produção e oficial de produção.
O SindusCon-SP também pretende buscar a atualização dessas ocupações na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), mantida pelo Ministério do Trabalho.
A mudança faz parte de uma tentativa de modernizar a percepção das carreiras da construção e estabelecer uma estrutura profissional mais clara para quem ingressa ou já trabalha no setor.
Carreira passa a ter critérios mais claros
Atualmente, os critérios utilizados para promoção e desenvolvimento profissional podem variar entre empresas. A proposta das Trilhas Profissionais busca estabelecer referências comuns para que o trabalhador consiga identificar quais competências precisa desenvolver para avançar na carreira.
Experiência prática, cursos e certificações passam a integrar essa trajetória de evolução. Dessa forma, a progressão deixa de depender exclusivamente de critérios internos de cada empresa e passa a seguir uma estrutura previamente definida pelo programa.
A iniciativa também procura estimular o aprendizado contínuo e a permanência dos profissionais nos canteiros.
Qualificação poderá ocorrer durante a jornada
A formação dos trabalhadores será realizada pelas empresas, com cursos desenvolvidos pelo Senai-SP de acordo com as diferentes linhas profissionais.
Uma das possibilidades previstas é que as aulas ocorram dentro dos próprios canteiros, utilizando duas horas semanais da jornada de trabalho para capacitação. Os trabalhadores também poderão realizar os cursos nas unidades do Senai-SP.
A estratégia aproxima formação profissional e rotina de trabalho, permitindo que os conhecimentos adquiridos sejam aplicados diretamente nas atividades desenvolvidas nas obras.
Falta de mão de obra pressiona setor
A iniciativa surge em um momento de preocupação com a disponibilidade e a retenção de trabalhadores na construção civil. Segundo informações apresentadas no lançamento, mais da metade dos trabalhadores formais do setor permanece por até um ano no emprego.
A criação de uma trajetória profissional mais previsível é apontada pelas entidades como uma forma de estimular a permanência dos trabalhadores e tornar a construção civil mais competitiva na disputa por profissionais.
A expectativa é que a perspectiva de crescimento profissional ajude a reduzir a rotatividade e incentive o desenvolvimento de novas competências.
Remuneração cresce conforme qualificação
A estrutura proposta também evidencia a diferença existente entre os níveis profissionais dentro dos canteiros. Segundo o SindusCon-SP, a remuneração média de entrada no setor formal gira em torno de R$ 2.400.
Em posições mais avançadas, como a de mestre de obras, os valores podem alcançar entre R$ 15 mil e R$ 20 mil em São Paulo.
A diferença reforça a importância da capacitação para ampliar as possibilidades de crescimento profissional e mostrar aos trabalhadores que existem diferentes caminhos dentro da própria indústria da construção.
Setor quer atrair novos profissionais
Além de organizar carreiras existentes, as entidades envolvidas no projeto pretendem ampliar o público interessado em trabalhar na construção civil.
A proposta busca tornar o setor mais atrativo para jovens, mulheres, migrantes e trabalhadores que atualmente atuam na informalidade.
A mudança de nomenclaturas faz parte desse esforço de reposicionamento. A intenção é apresentar as atividades dos canteiros como profissões que podem oferecer desenvolvimento, especialização e possibilidades de crescimento.
Projeto começa com 30 empresas
As Trilhas Profissionais da Construção serão inicialmente testadas durante 12 meses. O projeto-piloto contará com dez construtoras, cada uma associada a duas empreiteiras, totalizando 30 empresas participantes.
Após esse período, o modelo será avaliado pelas entidades envolvidas. A intenção é incorporar a metodologia às convenções coletivas da construção no Estado de São Paulo e, posteriormente, ampliar a iniciativa para outros estados em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
Impactos podem chegar às obras e condomínios
A profissionalização da mão de obra também interessa ao mercado imobiliário e à gestão de empreendimentos. Trabalhadores mais qualificados podem contribuir para a execução adequada de serviços, cumprimento de procedimentos técnicos e melhoria da qualidade das obras.
Para construtoras e empresas de manutenção, uma estrutura de carreira mais organizada pode facilitar a formação de equipes e a identificação das competências necessárias para cada atividade.
No segmento condominial, a qualificação também pode refletir na contratação de profissionais para reformas, manutenção predial e serviços especializados, especialmente em atividades que exigem conhecimento técnico e cumprimento de normas de segurança.
Construção civil busca renovar sua relação com os trabalhadores
A proposta das Trilhas Profissionais representa uma tentativa de aproximar as necessidades das empresas das expectativas dos trabalhadores. Ao estabelecer caminhos de qualificação e progressão, o setor procura transformar a carreira na construção civil em uma trajetória mais estruturada.
A iniciativa também mostra que o enfrentamento da falta de mão de obra não depende apenas da contratação de novos profissionais. A retenção, a capacitação e a valorização daqueles que já atuam no setor são elementos importantes para reduzir a rotatividade.
Com o projeto-piloto, empresas e trabalhadores terão a oportunidade de testar um modelo que combina formação, experiência e certificação. Se os resultados forem positivos, a proposta poderá ampliar sua presença na construção civil paulista e, posteriormente, alcançar outros mercados regionais.
Fonte: Revide