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Construção civil é considerada resistente às eleições

Co-CEO da MRV, Rafael Menin, avalia que o setor está entre os segmentos menos expostos às oscilações políticas e destaca a força do Minha Casa, Minha Vida

Construção civil mostra resistência ao cenário eleitoral e MRV reforça foco na habitação popular
Foto: Foto: Reprodução/Rafael Menin

Construção civil é considerada resistente ao cenário eleitoral, diz co-CEO da MRV

Rafael Menin afirma que habitação social deve manter força independentemente do resultado das eleições e destaca industrialização, falta de mão de obra e foco da companhia no mercado brasileiro

A construção civil, especialmente o segmento voltado à habitação social, deve apresentar resistência às possíveis mudanças provocadas pelo cenário eleitoral de 2026. A avaliação é de Rafael Menin, copresidente da MRV, que considera o setor pouco exposto à disputa política e acredita que os investimentos em moradia popular devem continuar independentemente do resultado das eleições.

Em entrevista, Menin afirmou que, apesar da polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, a companhia não trabalha com a possibilidade de uma perda significativa de força do Minha Casa, Minha Vida (MCMV).

Segundo o executivo, embora o programa tenha sido criado durante o primeiro governo Lula, representantes de diferentes correntes políticas reconhecem a importância da habitação social e têm defendido a continuidade das políticas públicas voltadas ao setor.

Habitação social deve continuar relevante

Para Menin, a construção civil voltada à população de baixa renda possui uma característica que reduz sua dependência do cenário eleitoral: a existência de uma demanda estrutural por moradia.

O executivo destacou que as associações do setor mantêm diálogo com os candidatos e que, até o momento, existe uma percepção de continuidade em relação às políticas habitacionais.

A avaliação é de que, independentemente de quem vencer a eleição, a habitação social continuará sendo uma pauta relevante, o que tende a sustentar os lançamentos e a atividade das empresas que atuam nesse segmento.

A MRV, que tem forte presença no Minha Casa, Minha Vida, pretende aproveitar esse cenário para manter sua estratégia concentrada no mercado brasileiro.

Falta de mão de obra é desafio para o setor

Apesar da perspectiva positiva, a construção civil enfrenta um problema que vem ganhando espaço nas discussões do setor: a escassez de mão de obra.

De acordo com Rafael Menin, essa dificuldade existe na MRV, mas não ocorre de maneira uniforme em todo o país. São Paulo, por exemplo, apresenta uma concorrência maior por trabalhadores quando comparado a outras capitais.

O executivo avalia que o setor avançou nos últimos anos em aspectos como formalização, segurança nos canteiros e remuneração, mas ainda enfrenta dificuldades para atrair novos profissionais.

Um dos fatores apontados é a própria característica do trabalho. As atividades da construção exigem esforço físico e acabam competindo com uma economia cada vez mais digitalizada, além do crescimento dos aplicativos e de outras formas de ocupação.

Por isso, segundo Menin, trabalhar na construção civil nem sempre aparece entre as primeiras opções de quem está ingressando no mercado de trabalho.

Industrialização aparece como alternativa

Diante da dificuldade para encontrar trabalhadores, a MRV aposta no avanço das tecnologias construtivas.

A estratégia envolve tornar os produtos cada vez mais pré-fabricados, padronizados e industrializados, reduzindo a quantidade de atividades que precisam ser executadas diretamente nos canteiros.

A companhia vem investindo em técnicas construtivas que permitam aumentar a produtividade e tornar os processos mais eficientes.

A industrialização também pode contribuir para reduzir a dependência de determinadas funções e criar maior previsibilidade na execução dos empreendimentos.

MRV encerrou operação multifamily nos Estados Unidos

Outro ponto abordado por Rafael Menin foi a decisão da MRV de encerrar sua operação de multifamily nos Estados Unidos.

Nesse modelo, um único proprietário ou investidor detém todo o edifício e obtém receita por meio da locação das unidades.

Segundo o executivo, dois fatores tiveram impacto significativo sobre a rentabilidade da operação americana nos últimos anos: a alta dos juros nos Estados Unidos e o excesso de oferta em determinados mercados.

Menin explicou que os juros norte-americanos, que chegaram a permanecer próximos de zero, subiram de forma significativa. Esse movimento aumentou o custo de capital e prejudicou a rentabilidade de empresas que atuam no desenvolvimento de empreendimentos multifamily.

Além disso, alguns mercados, especialmente o Texas, registraram aumento da oferta de imóveis multifamiliares. Mesmo com o crescimento econômico e populacional da região, o excesso de unidades disponíveis pressionou os resultados.

Ciclo de baixa rentabilidade pesou na decisão

Entre 2021 e 2025/2026, a operação americana enfrentou um ciclo considerado de baixa rentabilidade.

Diante desse cenário e também do custo de capital mais elevado no Brasil, a MRV decidiu simplificar sua estrutura e concentrar os esforços no mercado tradicional de baixa renda brasileiro.

A companhia entende que o mercado imobiliário americano voltará a apresentar oportunidades de rentabilidade, já que o setor possui comportamento cíclico.

No entanto, a estratégia atual não prevê o retorno da MRV ao segmento multifamily nos Estados Unidos.

Foco volta para o mercado brasileiro

Segundo Menin, o foco da companhia para os próximos anos será o segmento econômico no Brasil.

A decisão representa uma concentração maior da operação em uma área na qual a empresa possui experiência acumulada e que apresenta uma demanda estrutural relacionada ao déficit habitacional.

Outras frentes de diversificação desenvolvidas pela MRV nos últimos anos também não devem receber uma aceleração significativa no curto prazo.

A prioridade, de acordo com o executivo, continua sendo a incorporação imobiliária voltada à população de baixa renda.

Companhia pretende reduzir dívida

A estratégia de concentração também está relacionada ao processo de fortalecimento financeiro da MRV.

A companhia projeta uma redução de aproximadamente 30% da dívida líquida até o final de 2026.

De acordo com Rafael Menin, a redução deve ocorrer a partir da combinação entre a venda de uma parcela importante do portfólio da operação americana, a comercialização de três empreendimentos da Luggo e a geração de caixa orgânica da construtora.

O objetivo é encerrar o ano com um nível de endividamento significativamente diferente daquele registrado no final de 2025.

Construção civil busca produtividade

O cenário apresentado por Menin mostra que os desafios do setor não estão concentrados apenas no ambiente político ou econômico.

A falta de mão de obra, a necessidade de aumentar a produtividade, os custos de capital e a busca por maior eficiência estão levando as grandes empresas a repensarem seus modelos de operação.

Nesse contexto, a industrialização da construção aparece como uma das principais estratégias para aumentar a produtividade e reduzir a dependência de mão de obra em determinadas etapas.

Eleições não devem mudar estratégia da MRV

Mesmo diante da disputa eleitoral de 2026, a MRV não prevê mudanças significativas em sua estratégia de curto prazo.

A avaliação da companhia é que a habitação social possui importância que ultrapassa governos e ciclos eleitorais, principalmente diante da necessidade de ampliar o acesso à moradia no país.

Com foco novamente concentrado no mercado brasileiro de baixa renda, a empresa pretende combinar a demanda do Minha Casa, Minha Vida com investimentos em industrialização, redução do endividamento e maior eficiência operacional.

Para Rafael Menin, esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que a construção civil está entre os segmentos menos expostos ao cenário eleitoral, mantendo perspectivas de continuidade mesmo diante das incertezas políticas que devem marcar 2026.

Fonte: Folha SP