Condomínio inspirado em favela vira ícone arquitetônico no Rio
Projeto idealizado por Sérgio Bernardes nos anos 1970 une arquitetura social, localização nobre e imóveis avaliados em mais de R$ 2 milhões

Condomínio inspirado em favelas se torna símbolo de alto padrão na zona sul do Rio
Um condomínio localizado na zona sul do Rio de Janeiro tem chamado atenção nas redes sociais e no mercado imobiliário por unir uma proposta arquitetônica inspirada em favelas a imóveis avaliados em milhões de reais. Trata-se do Parque Maria Cândida Pareto, empreendimento projetado pelo arquiteto Sérgio Bernardes, no bairro do Humaitá, que voltou ao debate público por sua estética singular e pela valorização imobiliária alcançada ao longo das décadas.
Construído em 1978, o condomínio foi idealizado a partir de um conceito inovador para a época. Inspirado em estudos voltados à urbanização de comunidades populares, o projeto buscava adaptar soluções arquitetônicas simples e funcionais a um modelo residencial estruturado. A proposta, no entanto, acabou sendo aplicada a um empreendimento de alto padrão, localizado em uma das regiões mais valorizadas da capital fluminense.
O conjunto é formado por 60 casas distribuídas em 11 níveis, aproveitando a topografia do morro onde foi erguido. As unidades possuem três quartos e são interligadas por acessos internos que lembram pequenas vielas, característica que reforça a semelhança com a organização espacial das favelas. Além disso, o condomínio conta com áreas comuns como estacionamento, salão de festas, quadra esportiva e elevadores que funcionam como bondinhos, facilitando a circulação entre os diferentes níveis.

A concepção do projeto partiu do arquiteto Sérgio Bernardes, um dos nomes mais relevantes da arquitetura brasileira, conhecido por defender soluções urbanas integradas à paisagem e socialmente inclusivas. Na década de 1960, Bernardes chegou a propor modelos semelhantes para a reestruturação de comunidades no Rio de Janeiro, mas as ideias não avançaram no poder público. Parte desse conceito, no entanto, foi aplicada no empreendimento do Humaitá.
Segundo especialistas, o uso de tijolos aparentes e a implantação em encosta fazem com que o condomínio seja frequentemente associado, à primeira vista, a uma favela. No entanto, o padrão construtivo, a localização privilegiada e o valor dos imóveis o colocam em um patamar completamente distinto. Atualmente, unidades no local são anunciadas por valores que ultrapassam R$ 2 milhões, com taxas condominiais que chegam a R$ 2,4 mil mensais.
A valorização do empreendimento também está relacionada à vista privilegiada para pontos icônicos da cidade, como o Cristo Redentor, e à exclusividade de um projeto assinado por um dos principais arquitetos do país. Apesar de ter sido concebido a partir de uma proposta social, o condomínio se consolidou como um endereço de alto padrão, frequentado por moradores de elevado poder aquisitivo.
Especialistas em urbanismo destacam que o caso do Parque Maria Cândida Pareto ilustra como conceitos originalmente pensados para habitação popular podem ganhar novos significados quando inseridos em contextos distintos. Ao mesmo tempo, o empreendimento reacende o debate sobre urbanismo, desigualdade e o papel da arquitetura na construção das cidades brasileiras.
Décadas após sua inauguração, o condomínio segue despertando curiosidade, dividindo opiniões e reforçando a relevância do legado de Sérgio Bernardes na arquitetura nacional, ao unir estética, funcionalidade e reflexão social em um único projeto.
Fonte: Estadão