Condomínio de luxo em Pirenópolis é construído sobre sítios arqueológicos e MP investiga licenças do empreendimento
Projeto Aldeia do Vale Pirenópolis avança mesmo após descoberta de áreas pré-coloniais e estruturas históricas; Ministério Público cobra documentos e reavalia impactos culturais e ambientais.

Condomínio de alto padrão é construído em meio a sítios arqueológicos em Pirenópolis, e MP investiga licenças
O empreendimento de luxo Aldeia do Vale Pirenópolis, planejado para abrigar 152 residências distribuídas em uma área de 550 mil m², tornou-se alvo de uma investigação do Ministério Público de Goiás (MPGO) após a descoberta de sítios arqueológicos dentro do terreno onde as obras estão em andamento. A situação veio à tona após reportagem da TV Anhanguera, que consultou arqueólogos, autoridades públicas e representantes da empresa responsável pelo loteamento.
Durante o processo obrigatório de licenciamento ambiental, pesquisadores identificaram dois sítios arqueológicos aos pés do Morro do Frota, área considerada de preservação permanente. Entre os achados, foram catalogados mais de 200 fragmentos de cerâmica pré-colonial, uma cava histórica e um muro de contenção de pedra do século XVIII, relacionados à antiga atividade mineradora da região.
A arqueóloga Loriza Dantas, responsável pelos estudos, explicou que as descobertas ocorreram em 2022, durante a análise técnica exigida para a liberação do empreendimento. Segundo ela, o material cerâmico encontrado apresenta características típicas de povos originários, reforçando o valor histórico e a relevância cultural do local.
Em nota, a Prefeitura de Pirenópolis informou que o monitoramento das áreas arqueológicas é atribuição exclusiva do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e que as descobertas não impedem a continuidade da obra, desde que sigam integralmente os protocolos estabelecidos pelo órgão federal. O município destacou ainda que todo o processo de licenciamento ambiental observou as exigências legais, incluindo anuências das concessionárias de água e energia.
O Iphan, por sua vez, afirmou à TV Anhanguera que toda a documentação apresentada pelo empreendimento está regular e dentro das normas de preservação. Elisa Castro, chefe do escritório técnico do órgão em Pirenópolis, reforçou que a autorização foi concedida com a condição de que os limites das áreas arqueológicas sejam respeitados e preservados. O instituto acompanha 100% das etapas, desde a descoberta dos vestígios até a forma como serão apresentados ao público.
Apesar disso, o Ministério Público instaurou um procedimento para verificar se as licenças foram concedidas corretamente. Segundo o órgão, informações sobre a existência dos sítios arqueológicos não haviam sido oficialmente repassadas antes da autorização, o que motivou o pedido de esclarecimentos ao Iphan, à prefeitura e aos responsáveis pelo empreendimento.
O sócio do loteamento, Leandro Daher, afirmou que toda a documentação exigida foi entregue, incluindo pareceres técnicos e licenças ambientais. Ele informou que o próprio cartório encaminhou os documentos ao MP, seguindo o trâmite padrão.
A área onde estão os vestígios arqueológicos deverá ser transformada em um espaço de visitação pública. De acordo com Loriza Dantas, o local será sinalizado com totens, QR Codes e painéis informativos, permitindo que moradores e visitantes conheçam parte da história e da ocupação ancestral da região. A previsão é que o espaço seja aberto a partir do próximo ano.
O caso reacende o debate sobre a expansão imobiliária em regiões de relevante interesse histórico, especialmente em cidades como Pirenópolis, conhecida por seu patrimônio arquitetônico e arqueológico. Ao mesmo tempo em que avança como destino turístico e residencial de alto padrão, o município enfrenta o desafio de equilibrar desenvolvimento urbano, preservação ambiental e respeito ao legado cultural de seus povos originários e coloniais.
Fonte: G1