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Imóveis menores ganham espaço entre famílias de classe média

Com crédito mais caro e orçamento pressionado, famílias buscam apartamentos compactos e alternativas de menor valor para conseguir comprar o primeiro imóvel.

Classe média recorre a imóveis menores e mais baratos para realizar o sonho da casa própria
Foto: Imagem ilustrativa

O cenário do mercado imobiliário brasileiro está levando famílias de classe média a adaptar o projeto da casa própria. Diante do custo elevado dos imóveis, das condições de financiamento e do impacto das despesas mensais no orçamento, muitos compradores passaram a considerar unidades menores e de valor mais baixo como alternativa para conseguir realizar a compra.

A mudança mostra uma transformação no comportamento do consumidor. Em vez de esperar por um imóvel maior ou em uma localização mais valorizada, parte das famílias está priorizando a possibilidade de adquirir uma propriedade que caiba no orçamento, mesmo que isso signifique reduzir a metragem, escolher bairros mais acessíveis ou abrir mão de determinados itens desejados inicialmente.

O movimento ocorre em um momento de maior dificuldade para a classe média no acesso ao crédito imobiliário. Dados do setor mostram que as famílias que não se enquadram nos programas habitacionais subsidiados ficam mais expostas às condições de juros e à disponibilidade de recursos para financiamento.

Nesse contexto, apartamentos compactos ganham espaço como uma alternativa para reduzir o valor total da aquisição. Imóveis com menor área construída também podem representar uma redução nos custos de manutenção, condomínio, impostos e outras despesas relacionadas à propriedade.

A estratégia, porém, não significa necessariamente abrir mão de qualidade de vida. O comprador passa a avaliar com mais atenção a localização, a distribuição dos ambientes, a infraestrutura do condomínio e a possibilidade de utilizar espaços compartilhados para compensar uma área privativa menor.

O comportamento também influencia incorporadoras e construtoras, que precisam acompanhar as mudanças nas necessidades dos consumidores. Projetos mais compactos, funcionais e com áreas comuns estruturadas podem se tornar alternativas para atender famílias que desejam comprar o primeiro imóvel sem assumir uma dívida incompatível com a renda.

Outro fator importante é o custo do financiamento. Quando as taxas de juros permanecem elevadas, o valor das parcelas pode aumentar significativamente o custo final da aquisição, fazendo com que o comprador reduza o preço do imóvel pretendido para manter o financiamento dentro de uma faixa considerada suportável.

A classe média também enfrenta uma situação diferente daquela observada nos segmentos de menor renda atendidos por programas habitacionais. Ao mesmo tempo em que não possui necessariamente acesso aos mesmos subsídios, também precisa lidar com preços elevados no mercado tradicional. Essa posição intermediária aumenta a pressão sobre o orçamento das famílias.

Diante desse cenário, a decisão de comprar um imóvel passa a envolver uma análise mais ampla do orçamento familiar. Além da entrada e da parcela do financiamento, entram na conta despesas como condomínio, IPTU, manutenção, seguros, transporte e demais custos associados à nova moradia.

Para quem pretende adquirir o primeiro imóvel, especialistas recomendam avaliar a capacidade real de pagamento antes de definir a unidade. A redução da metragem pode ser uma estratégia para tornar a compra possível, desde que o imóvel escolhido atenda às necessidades básicas da família e esteja inserido em uma região com infraestrutura adequada.

A tendência também pode impactar o mercado condominial. Apartamentos menores podem aumentar a procura por empreendimentos que ofereçam áreas comuns capazes de ampliar as possibilidades de uso pelos moradores, como espaços de lazer, coworking, lavanderias compartilhadas, academias e ambientes de convivência.

Com o consumidor mais atento ao preço e ao comprometimento da renda, a relação entre metragem, localização, infraestrutura e valor tende a ganhar ainda mais importância nas decisões de compra. O imóvel deixa de ser analisado apenas pelo tamanho e passa a ser avaliado pelo conjunto de benefícios oferecidos pelo empreendimento.

O movimento evidencia que o sonho da casa própria continua presente entre as famílias brasileiras, mas está sendo adaptado às condições econômicas atuais. Para uma parcela da classe média, comprar um imóvel menor pode representar não uma desistência do projeto original, mas uma forma de torná-lo financeiramente possível.

Assim, o mercado imobiliário acompanha uma mudança importante no comportamento dos compradores: menos espaço pode significar mais possibilidade de acesso à propriedade, especialmente quando a prioridade é equilibrar o desejo de ter um imóvel próprio com a capacidade financeira da família.


Fonte: O Globo