Violência em condomínios de São Paulo cresce 246% em cinco anos
Levantamento aponta aumento de 246% nas agressões físicas em condomínios nos últimos cinco anos, revelando cenário alarmante de conflitos e medo nas áreas residenciais

Condomínios, antes vistos como espaços de segurança e convivência harmoniosa, têm se transformado em palco de tensões e episódios de violência em São Paulo. Um levantamento exclusivo do Terra, com base em dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP), revela que os casos de lesão corporal dentro de condomínios cresceram 246% nos últimos cinco anos — saltando de 272 registros em 2020 para 941 apenas nos sete primeiros meses de 2025.
O aumento constante dos conflitos condominiais coincide com o período pós-pandemia da covid-19, quando o isolamento social e a intensificação da vida dentro dos prédios aumentaram a frequência de atritos entre vizinhos.
“Ter vizinho é como jogar na loteria”
Lúcia Mendes*, de 42 anos, mora em um condomínio de Santo Amaro, na zona sul da capital, e diz que o sonho de viver em um ambiente tranquilo se transformou em fonte de estresse. “Ter vizinho é como jogar na loteria”, desabafa.
Segundo ela, cada torre do condomínio ganhou um apelido: “torre da droga”, “torre do amor” e “torre do inferno”. As denominações refletem o tipo de problema enfrentado em cada bloco — desde restos de entorpecentes até reclamações de barulho e brigas.
Em um dos episódios mais graves, Lúcia presenciou um morador agredindo fisicamente um porteiro após o extravio de uma encomenda. “Já teve morador que partiu para cima do funcionário por causa de correspondência entregue no apartamento errado. A polícia precisou ser chamada”, contou.
“Pedi medida protetiva contra minha vizinha”
A situação não é isolada. Roberta Silva*, de 54 anos, moradora de um condomínio no bairro do Socorro, também na zona sul, relatou ter sido alvo de ameaças e chegou a solicitar medida protetiva contra uma vizinha após ser intimidada diversas vezes.
O caso começou quando Roberta presenciou uma briga doméstica no apartamento acima do seu e acionou a polícia. Meses depois, passou a ser perseguida pela mulher agredida. “Ela me ligava de madrugada, me ameaçava, chegou a dizer que ia esfaquear minha filha”, afirmou.
A moradora tentou uma mediação com o apoio da administração, mas sem sucesso. Hoje, vive com medo de circular pelas áreas comuns do condomínio.
Violência em alta e dados preocupantes
De acordo com o levantamento, a violência física dentro de condomínios paulistas cresceu de forma contínua. Em 2024, foram 717 ocorrências — aumento de 31% em relação ao ano anterior. Já em 2023, mesmo após uma breve redução no primeiro semestre, o total anual chegou a 1.475 casos, o maior já registrado até então.
Os números acompanham o crescimento do número de condomínios no estado. Segundo o IBGE, São Paulo possui 4,8 milhões de empreendimentos condominiais, com quase dois milhões abrigando mais de 100 unidades.
Síndicos têm dever de denunciar
Renato Daniel Tichauer (1956–2025), presidente da Associação de Síndicos de Condomínios Comerciais e Residenciais do Estado de São Paulo (Assosíndicos), destacou que síndicos e moradores têm obrigação legal de denunciar casos de violência.
“Se o síndico ou o morador se omitem, podem responder por negligência. É dever registrar boletim de ocorrência e medidas administrativas”, explicou.
Tichauer ressalta que medidas preventivas, como campanhas de conscientização e palestras sobre convivência, podem ajudar a conter o avanço da violência. “É preciso educar novos condôminos sobre o que é viver em comunidade, respeitar o direito de vizinhança e entender que regras existem para todos.”
Violência condominial também é questão de saúde
Para a psicanalista Cíntia Castro, mediadora de conflitos em condomínios, os impactos da violência vão além da agressão física.
“Viver sob ameaça constante pode gerar traumas, ansiedade e até transtornos de estresse pós-traumático”, alerta.
O psicólogo clínico Paulo Porto, PhD pela PUC-PR, complementa que sintomas como crises de pânico, depressão e problemas digestivos são comuns entre pessoas que vivem em ambientes conflituosos.
“Quando o medo vira rotina, ele afeta o corpo e a mente”, explica.
Uma convivência cada vez mais desafiadora
O aumento dos casos de agressão em condomínios de São Paulo evidencia um problema crescente de convivência urbana. Em meio à verticalização das cidades e ao adensamento populacional, especialistas alertam que a boa convivência depende, cada vez mais, de empatia, diálogo e conscientização coletiva.
Mesmo com regras, portarias e convenções, a vida condominial exige um equilíbrio delicado — e o respeito ao próximo tem se mostrado o maior desafio da convivência moderna.
“Sem empatia, o condomínio deixa de ser um lar e vira um campo de batalha”, resume a psicanalista Cíntia Castro.
Fonte: Terra