Procura por carregadores cresce 80% nos condomínios
Avanço dos veículos eletrificados e novas regras de segurança impulsionam instalações, mas condomínios precisam avaliar estrutura elétrica antes de aderir.

O avanço dos veículos eletrificados no Brasil começa a transformar também a rotina dos condomínios residenciais. Com o aumento da frota, cresce a necessidade de infraestrutura para recarga nas garagens, levando síndicos e administradoras a discutir soluções que até pouco tempo eram consideradas uma demanda pontual de poucos moradores.
Segundo dados citados por empresas especializadas no setor, a procura por instalações de carregadores de veículos elétricos em condomínios cresceu 80% no primeiro semestre de 2026. A E-Wolf, por sua vez, projeta expansão de aproximadamente 200% no mercado neste ano.
O movimento acompanha o crescimento das vendas de veículos eletrificados. Entre janeiro e julho de 2026, foram comercializados 271 mil veículos eletrificados no Brasil, número 21% superior ao total vendido durante todo o ano de 2025, quando foram registradas 224 mil unidades.
Brasil amplia infraestrutura de recarga
O crescimento da frota também pressiona a infraestrutura disponível para recarga. Em maio de 2026, o Brasil contava com aproximadamente 25 mil pontos públicos e semipúblicos de recarga, segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).
Três meses antes, eram cerca de 21 mil pontos. Isso significa que aproximadamente 4,4 mil novos pontos foram adicionados em 90 dias, uma média equivalente a um novo ponto a cada 30 minutos.
Os números, entretanto, não incluem carregadores instalados em condomínios e residências, classificados como pontos privados. Por isso, ainda não existe uma base nacional consolidada capaz de dimensionar com precisão o crescimento dessa infraestrutura dentro dos edifícios.
Dados de empresas do setor ajudam a mostrar a expansão. A GreenV informa possuir mais de 15 mil pontos instalados no país, sendo aproximadamente 60% deles em condomínios residenciais. Já a E-Wolf afirma ter instalado cerca de 20 mil carregadores residenciais.
Demanda deixa de ser individual e chega aos síndicos
O perfil da demanda também está mudando. Inicialmente, a procura era concentrada em moradores que desejavam instalar um equipamento para uso próprio.
Agora, síndicos e administradoras começam a buscar projetos capazes de atender vários moradores simultaneamente.
A mudança representa um novo desafio para a gestão condominial, principalmente em edifícios antigos, cuja infraestrutura elétrica pode não ter sido dimensionada para suportar diversos veículos carregando ao mesmo tempo.
Por isso, antes da instalação, é necessário avaliar a capacidade elétrica do prédio e identificar eventuais adequações necessárias.
São Paulo criou novas regras para carregadores
Em São Paulo, o cenário ganhou uma regulamentação específica em 2026.
A Lei Estadual nº 18.403/2026 assegura ao condômino o direito de instalar, às próprias expensas, uma estação de recarga individual para veículo elétrico em vaga de garagem privativa, desde que sejam respeitadas as normas técnicas e de segurança. A instalação também deve ser executada por profissional habilitado e comunicada previamente à administração do condomínio.
A regra representa uma mudança importante para os condomínios paulistas, já que a instalação em vaga privativa não depende da aprovação prévia dos demais moradores, desde que atendidos os requisitos estabelecidos.
A legislação, entretanto, não elimina a necessidade de análise técnica. O condomínio pode impedir a instalação quando houver comprovação, por meio de laudo técnico, de risco ou inviabilidade do projeto.
Corpo de Bombeiros estabelece exigências de segurança
Além da legislação estadual, o Corpo de Bombeiros de São Paulo atualizou a Instrução Técnica nº 41 (IT-41), estabelecendo requisitos específicos para sistemas de alimentação de veículos elétricos em garagens.
Entre as exigências estão a utilização de carregadores fixos, como wallboxes, com circuito elétrico exclusivo e dispositivos de proteção adequados.
Também são previstos dispositivos de desligamento de emergência, sinalização das vagas e responsabilidade técnica formal, por meio de ART ou RRT.
A regulamentação também estabelece critérios relacionados às áreas de circulação e rotas de fuga, além de exigir atenção à infraestrutura elétrica utilizada pelo sistema.
A utilização de tomadas comuns, extensões, adaptadores e carregadores portáteis não é permitida nas situações abrangidas pelas regras de segurança.
Capacidade elétrica deve ser avaliada antes da instalação
Um dos principais pontos de atenção para os condomínios é a capacidade da infraestrutura elétrica existente.
Antes de instalar os equipamentos, o prédio deve avaliar fiação, bitola dos cabos e capacidade de fornecimento de energia. Um profissional habilitado deve analisar a estrutura e emitir a documentação de responsabilidade técnica correspondente.
Em edifícios antigos, a necessidade de adaptação pode ser ainda maior, especialmente quando diversos moradores pretendem utilizar carregadores simultaneamente.
A análise prévia permite determinar quantos veículos podem ser carregados ao mesmo tempo sem comprometer a segurança ou a operação do sistema elétrico.
Vaga privativa e sistema coletivo exigem soluções diferentes
A solução adotada depende também do tipo de vaga existente no condomínio.
Em empreendimentos com vagas privativas e fixas, o morador interessado pode instalar um carregador destinado ao seu veículo, observando as regras técnicas e arcando com os custos correspondentes.
Já em condomínios com vagas rotativas ou pertencentes às áreas comuns, a instalação de um sistema coletivo pode ser uma alternativa.
Nesse modelo, uma ou mais estações ficam disponíveis para diferentes moradores, com utilização compartilhada e cobrança conforme o consumo ou a sessão de carregamento.
A definição do modelo pode envolver discussões sobre infraestrutura, custeio, uso das vagas, cobrança da energia e regras de utilização.
Carregadores podem gerar receita para o condomínio
Além de representar uma nova despesa ou investimento, os sistemas coletivos de recarga também podem criar uma fonte adicional de receita para os condomínios.
Segundo a reportagem, há empresas que administram a infraestrutura e cobram dos moradores pelo consumo. Em um dos modelos citados, o usuário paga R$ 2,20 por quilowatt-hora, enquanto R$ 1 é repassado ao condomínio para ajudar a custear a energia utilizada.
O modelo pode tornar a instalação mais interessante para condomínios que desejam oferecer o serviço sem assumir integralmente os custos de aquisição e operação dos equipamentos.
Quanto custa instalar um carregador?
Os custos variam de acordo com a estrutura do prédio, a distância entre a vaga e o quadro elétrico, a potência do equipamento e a necessidade de obras.
Segundo empresas ouvidas pela reportagem, uma instalação simples pode custar aproximadamente R$ 3 mil quando não há necessidade de grandes intervenções.
Em instalações individuais, os valores podem variar de R$ 3,8 mil a R$ 15 mil, dependendo das características do projeto.
Já projetos coletivos podem exigir investimentos entre R$ 40 mil e R$ 60 mil por condomínio, considerando itens como cabeamento, quadro dedicado e sistema de gerenciamento para múltiplas vagas.
Síndico ganha novas responsabilidades
O avanço dos carregadores também aumenta a responsabilidade da administração condominial.
Embora o síndico não seja necessariamente responsável pela instalação do equipamento particular de um morador, cabe à administração impedir que sejam realizadas instalações em desacordo com as normas técnicas e de segurança aplicáveis.
A preocupação envolve não apenas a segurança elétrica, mas também a prevenção de incêndios, a manutenção das áreas comuns e o cumprimento das exigências dos órgãos competentes.
Em São Paulo, o descumprimento das regras pode trazer consequências para o condomínio, inclusive relacionadas à regularidade das condições de segurança da edificação.
Seguro também exige atenção
Outro ponto que precisa ser analisado é a cobertura securitária.
Quando o carregador integra uma área comum do condomínio, o equipamento pode estar sujeito às coberturas previstas na apólice condominial, dependendo das condições contratadas.
Já em uma vaga privativa, a responsabilidade pelo equipamento tende a estar associada ao proprietário, sendo recomendável verificar a cobertura do seguro residencial individual.
Em situações envolvendo danos a outros veículos ou áreas do prédio, a definição da responsabilidade dependerá da origem do problema, das circunstâncias do evento e das coberturas existentes.
Expansão deve continuar nas garagens
O crescimento das vendas de veículos eletrificados indica que a presença de carregadores tende a se tornar cada vez mais comum nos condomínios brasileiros.
Para síndicos e administradoras, o desafio será conciliar a demanda dos moradores com a capacidade da infraestrutura, as normas de segurança, os custos de implantação e as regras de utilização das áreas comuns.
Em São Paulo, a regulamentação já criou parâmetros mais claros para determinadas situações. Em outros estados, porém, ainda existem diferenças nas regras e lacunas regulatórias, o que pode gerar dúvidas e conflitos entre moradores e condomínios.
Nesse cenário, a instalação de carregadores deixa de ser apenas uma questão relacionada à mobilidade elétrica e passa a integrar também a gestão condominial, a segurança das edificações e o planejamento da infraestrutura dos empreendimentos.
Fonte: Portas