Mais brasileiros moram sozinhos e mercado precisa mudar
Aumento de pessoas que moram sozinhas amplia demanda por imóveis menores e exige produtos diferentes para jovens, idosos e separados

O Brasil está passando por uma transformação demográfica que já começa a modificar a forma como as cidades e o mercado imobiliário precisam pensar os espaços de moradia.
Em pouco mais de duas décadas, o número de pessoas vivendo sozinhas praticamente triplicou. De acordo com os dados do Censo de 2022, eram 13,7 milhões de brasileiros nessa situação, representando quase uma em cada cinco unidades domésticas do país.
O crescimento desse tipo de domicílio cria uma demanda específica por imóveis e coloca em discussão um modelo tradicional de habitação baseado principalmente em famílias maiores.
A mudança, no entanto, não significa apenas uma procura crescente por apartamentos pequenos. O perfil de quem mora sozinho é bastante diverso e envolve jovens, adultos, idosos e pessoas que passaram por separações.
Jovens já não seguem o mesmo roteiro
Uma das explicações para o aumento de pessoas morando sozinhas está nas mudanças no comportamento dos jovens.
Casamentos acontecem mais tarde, o número de filhos diminuiu e muitos priorizam carreira e estudos antes de formar uma família. Com isso, o roteiro tradicional de sair da casa dos pais, casar, ter filhos e comprar um imóvel maior perdeu parte de sua linearidade.
Em 2015, um homem solteiro se casava, em média, aos 30 anos, enquanto uma mulher se casava aos 27. Em 2024, considerando os casamentos entre pessoas solteiras de sexos diferentes, essas idades chegaram a aproximadamente 31 e 29 anos.
Embora a diferença pareça pequena, alguns anos adicionais vivendo sozinho representam uma demanda habitacional significativa quando considerados em escala geracional.
Fenômeno também envolve idosos
O perfil das pessoas que moram sozinhas, porém, revela uma realidade mais ampla.
Em 2023, apenas 12% das pessoas que viviam sozinhas tinham entre 15 e 29 anos. Quase metade, 47%, estava na faixa entre 30 e 59 anos. Outros 41% tinham 60 anos ou mais.
Entre as mulheres, a participação dos idosos é ainda maior. Segundo os dados apresentados, 55% das mulheres que moravam sozinhas tinham pelo menos 60 anos.
A explicação está relacionada, entre outros fatores, à maior expectativa de vida das mulheres e ao número superior de viúvas em comparação aos viúvos.
Com isso, a imagem do jovem vivendo sozinho em um studio próximo ao trabalho representa apenas uma parte do fenômeno.
O envelhecimento da população também produz novos domicílios de uma pessoa. Filhos deixam a casa dos pais, casais se separam e, em determinados casos, um dos cônjuges morre. Uma residência que anteriormente abrigava quatro ou cinco pessoas pode passar a ter dois moradores e, posteriormente, apenas um.
Mesma metragem, necessidades diferentes
A mudança representa um desafio para incorporadores, arquitetos e urbanistas.
Um jovem de 28 anos e uma mulher de 72 podem procurar um apartamento de um quarto, mas provavelmente terão necessidades completamente diferentes.
O jovem pode priorizar proximidade com o trabalho, restaurantes, academia e opções de lazer. Também pode aceitar uma área menor em troca de uma localização mais valorizada e, eventualmente, não considerar uma vaga de garagem essencial.
Para uma pessoa idosa, a redução da área pode estar relacionada a outros fatores. Facilidade de manutenção, elevador, segurança, acessibilidade, iluminação, serviços próximos e menor necessidade de deslocamento podem ser características mais importantes.
Assim, a metragem pode ser semelhante, mas a experiência de moradia desejada é diferente.
Essa distinção tende a ganhar importância à medida que o número de pessoas vivendo sozinhas aumenta.
Divórcios também criam novos domicílios
Existe ainda outro grupo que contribui para a transformação do mercado: as pessoas separadas.
O Brasil registrou mais de 428 mil divórcios em 2024. Além disso, a duração média dos casamentos que terminam em divórcio caiu nas últimas décadas. Em 2004, era de aproximadamente 17 anos. Em 2024, ficou abaixo de 14 anos.
Cada separação pode reorganizar uma família e também modificar a demanda por imóveis.
Uma residência pode se transformar em duas necessidades habitacionais diferentes. Um apartamento de três quartos, por exemplo, pode dar origem à procura por dois imóveis menores.
Mesmo quando uma pessoa separada passa a morar sozinha, a necessidade de espaço pode não ser equivalente à de alguém sem filhos.
Pais e mães separados podem viver sozinhos durante parte da semana, mas precisam de ambientes adequados para receber os filhos nos demais dias.
Dessa forma, até mesmo a definição de “morar sozinho” passa a exigir uma análise mais cuidadosa do comportamento habitacional.
Apartamentos menores também são influenciados pelo preço
O crescimento da população que vive sozinha ajuda a explicar a demanda por imóveis menores, mas não é o único fator responsável pela redução das plantas.
O preço dos imóveis também exerce forte influência sobre o tamanho das unidades comercializadas.
Em 2026, o preço médio dos imóveis residenciais novos anunciados nas capitais acompanhadas pela Brain Inteligência Estratégica chegou a cerca de R$ 12,1 mil por metro quadrado.
Os imóveis de um dormitório apresentaram um valor ainda maior por metro quadrado em comparação aos de dois e três dormitórios, chegando a aproximadamente R$ 15,7 mil.
O cenário cria um paradoxo: o imóvel fica menor para reduzir o preço total, mas o valor de cada metro quadrado pode ser maior.
Na prática, muitas pessoas podem não estar escolhendo menos espaço simplesmente porque desejam viver em uma área menor. A redução da metragem pode ser uma maneira de continuar tendo acesso a determinadas localizações.
São Paulo concentra imóveis compactos
São Paulo é um dos exemplos mais evidentes dessa transformação.
Em junho de 2026, apartamentos entre 30 e 45 metros quadrados representaram 66% dos lançamentos da cidade e 62% das vendas, segundo dados da Brain Inteligência Estratégica.
Os imóveis com menos de 30 metros quadrados responderam por outros 18% dos lançamentos.
Os números mostram a força dos imóveis compactos no mercado paulistano. Porém, não significa necessariamente que 84% dos moradores da cidade desejem viver em apartamentos pequenos.
Parte importante dessa oferta também está relacionada à capacidade de pagamento.
A redução da metragem permite diminuir o preço total da unidade e facilitar o enquadramento em faixas de financiamento nas quais existe maior demanda.
Com isso, preferência e possibilidade de compra podem acabar sendo confundidas.
Studios também atraem investidores
Outro elemento importante é que o comprador de um imóvel pequeno nem sempre será o morador.
Studios e apartamentos de um dormitório também se tornaram produtos voltados ao investimento imobiliário.
O tíquete menor pode reduzir a barreira de entrada para investidores. A localização central facilita a locação e a procura de estudantes, profissionais solteiros, divorciados, turistas e pessoas em estadias temporárias amplia o grupo de potenciais ocupantes.
O resultado é uma dinâmica na qual a demanda por apartamentos compactos não vem exclusivamente das pessoas que pretendem morar neles.
Investidores também compram essas unidades justamente para oferecê-las no mercado de locação.
Por isso, o crescimento das vendas de studios não deve ser interpretado automaticamente como uma prova de que todos os consumidores desejam viver em imóveis de 20 ou 30 metros quadrados.
Existe demanda, mas também há influência de investimento, renda, preço dos terrenos, localização, financiamento e mudanças demográficas.
Mercado terá de entender novos perfis
O crescimento de pessoas morando sozinhas reúne diferentes forças em uma mesma direção.
Menos filhos, casamentos mais tardios, aumento das separações, envelhecimento da população, maior número de viúvos e viúvas e crescimento de pessoas que optam por viver sozinhas contribuem para a transformação da demanda habitacional.
Ao mesmo tempo, os imóveis estão mais caros nas regiões mais desejadas das cidades, criando pressão para que incorporadores reduzam a metragem das unidades.
O resultado é uma expansão dos apartamentos compactos.
O desafio, entretanto, não está apenas em construir imóveis menores. O setor precisa compreender quem estará vivendo dentro dessas unidades.
Morar sozinho aos 25 anos não representa a mesma experiência de morar sozinho aos 45. E morar sozinho aos 45 também é diferente de viver sozinho aos 75.
O jovem pode buscar independência. A pessoa separada pode estar reconstruindo sua vida. O idoso pode priorizar autonomia, segurança e praticidade.
São perfis diferentes que podem ocupar apartamentos com metragem semelhante, mas que demandam produtos e serviços distintos.
Mudança também envolve o entorno dos imóveis
Durante décadas, o mercado imobiliário se especializou em desenhar residências para famílias formadas por pais e filhos, com quartos, vagas e áreas de lazer pensados para esse modelo.
O crescimento dos domicílios individuais exige uma nova lógica.
Não basta simplesmente diminuir a planta. O mercado precisa considerar a relação do morador com o edifício, o bairro, os serviços disponíveis, a segurança, a mobilidade e os espaços de convivência.
Para quem vive sozinho, o que existe ao redor do imóvel pode assumir uma importância ainda maior.
A transformação, portanto, não está restrita à metragem dos apartamentos. Ela envolve a maneira como as cidades oferecem serviços, mobilidade, segurança e possibilidades de interação para pessoas que vivem sozinhas.
O crescimento desse público tende a exigir que incorporadores, arquitetos, urbanistas e demais profissionais do setor passem a projetar não apenas imóveis menores, mas soluções de moradia adequadas a diferentes momentos da vida.
No fim, a grande transformação provocada pelo aumento das pessoas que moram sozinhas pode não estar dentro do apartamento.
Ela pode estar justamente em tudo aquilo que precisará existir do lado de fora dele.
Fonte: Exame