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Alta do condomínio eleva inadimplência

Reajuste acumulado de 24,9% em três anos pressiona orçamento das famílias e eleva atrasos no pagamento das cotas condominiais

Aumento da taxa de condomínio impulsiona inadimplência no Brasil, aponta levantamento
Foto: Imagem ilustrativa

O aumento expressivo da taxa de condomínio nos últimos anos tem provocado reflexos diretos na vida financeira das famílias brasileiras e acentuado os índices de inadimplência em condomínios residenciais. De acordo com levantamento recente, o reajuste acumulado chegou a 24,9% em um período de três anos, pressionando orçamentos já comprometidos pelo alto nível de endividamento no país.

Dados do Censo Condominial 2025/2026, elaborado com base em informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Receita Federal e da plataforma uCondo, revelam que, entre os cerca de 39 milhões de moradores distribuídos em 327.248 condomínios ativos no Brasil, a inadimplência da taxa condominial avançou de forma consistente. No primeiro semestre deste ano, o valor médio da cota chegou a R$ 516, enquanto a inadimplência superior a 30 dias atingiu 11,95%, o maior índice do período analisado, segundo dados divulgados pelo jornal Extra.

Para o diretor de Operações e cofundador da uCondo, Léo Mack, o crescimento da inadimplência está diretamente ligado ao cenário macroeconômico nacional. Segundo ele, o elevado endividamento das famílias faz com que muitas não priorizem o pagamento da taxa condominial no curto prazo. Avaliação semelhante é compartilhada pelo presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (Abefin), Reinaldo Domingos, que destaca a perda de prioridade desse tipo de despesa em momentos de aperto financeiro.

O levantamento também chama atenção para a valorização ainda limitada do trabalho do síndico. Embora cerca de 500 mil pessoas atuem no setor condominial no Brasil, a remuneração média da função gira em torno de R$ 1.520. Para Léo Mack, a discrepância não reflete a complexidade da atividade.

“O síndico acumula responsabilidades, e seu papel exige preparo técnico, disponibilidade e responsabilidade. O censo mostra que a valorização do síndico avança, mas a média ainda não reflete, de forma uniforme, o grau de exigência da função em todo o país”, afirmou o especialista.

Outro dado relevante do estudo aponta o aumento significativo de demandas internas nos condomínios. Apenas neste ano, mais de 308 mil chamados foram registrados na plataforma uCondo, envolvendo questões administrativas, reclamações e manutenção de áreas comuns. Segundo Léo Mack, 28% dessas demandas estão relacionadas a barulho, conflitos de convivência, regras de uso das áreas comuns, disputas por vagas de garagem e presença de animais de estimação.

Do ponto de vista jurídico, especialistas defendem que o diálogo ainda é o melhor caminho para a resolução de conflitos. Para o advogado Rodrigo Palacios, a mediação extrajudicial deve ser priorizada.

“A solução pode vir pela via judicial, mas esta deve ser encarada como o último recurso em nosso mapa de solução de conflitos condominiais. O Judiciário entra quando o problema deixa de ser um mero incômodo e se transforma em risco, dano, abuso ou repetição crônica”, esclareceu.

Palacios também alerta para os riscos enfrentados pelos proprietários inadimplentes. Com o Código de Processo Civil de 2015, o crédito condominial passou a ter natureza de título executivo extrajudicial, o que permite ao condomínio ingressar diretamente com ação de execução, sem a necessidade de um processo prévio para comprovação da dívida.

Nesse contexto, o advogado e doutor em Direito Civil pela USP, Ermiro Ferreira Neto, recomenda que moradores em dificuldade financeira procurem a administração do condomínio para negociar.

“No limite, o síndico pode, a partir de poderes atribuídos pela assembleia de condôminos, também apresentar propostas e negociar acordos quanto ao pagamento da taxa de condomínio”, orientou.

Especialistas reforçam que medidas preventivas são fundamentais para evitar o agravamento da inadimplência, como incluir a taxa condominial no planejamento financeiro, organizar um calendário de pagamentos e manter uma reserva para imprevistos. Em casos mais extremos, a recomendação é reavaliar a permanência no imóvel, buscando alternativas mais compatíveis com a realidade financeira, sempre em diálogo com o síndico e a administradora.

O cenário revela um desafio crescente para a gestão condominial no Brasil, que exige equilíbrio entre a sustentabilidade financeira dos empreendimentos, a valorização dos profissionais do setor e a capacidade de pagamento dos moradores.

Fonte: Diário do Rio