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Classe média enfrenta barreiras para comprar imóvel

Inflação da construção e crédito mais caro afastam famílias de renda média e ampliam pressão por novas faixas no programa habitacional

Alta nos custos e juros apertam classe média e pressionam mudanças no Minha Casa Minha Vida
Foto: GUGA MATOS/ACERVO JC IMAGEM

Alta dos custos e dos juros amplia dificuldade da classe média para comprar imóvel

A combinação entre o aumento dos custos da construção civil e as elevadas taxas de juros vem dificultando o acesso da classe média ao financiamento imobiliário tradicional no Brasil. O cenário também aumenta a pressão por mudanças nas políticas habitacionais para atender famílias que ficaram entre as faixas atualmente contempladas pelos programas públicos.

O tema foi discutido no episódio do videocast Metro Quadrado, realizado na quinta-feira (10) e comandado pelo jornalista Lucas Moraes. Participaram do debate o advogado patrimonial e de negócios imobiliários Amadeu Mendonça, da Tizei Mendonça Advogados Associados, e o consultor Bruno Cantalupo, da BCB Inteligência.

Preço dos imóveis se distancia da renda

Durante o debate, os especialistas apontaram que a elevação dos preços dos materiais de construção e a escassez de mão de obra têm pressionado os custos das construtoras e, consequentemente, o valor do metro quadrado.

Bruno Cantalupo destacou o impacto desse cenário sobre o poder de compra das famílias de renda média.

"A classe média hoje é a mais espremida e com mais dificuldade em relação ao crédito e ao dinheiro. O preço do metro quadrado subiu muito e descasou da renda das famílias. Hoje, um apartamento de 60 m² de três quartos está sendo comercializado por R$ 800 mil. Para aprovar um crédito desse nível, a família precisaria ter uma renda de R$ 20 mil, o que representa apenas 4% da população do Recife. O produto que está sendo colocado no mercado descasou completamente da renda dessa classe".

O exemplo apresentado evidencia a distância entre o preço dos imóveis e a capacidade de financiamento de parte significativa da população. Mesmo quando existe interesse na aquisição, a renda necessária para obter o crédito pode estar acima da realidade da maioria das famílias.

Parcela, condomínio e IPTU pesam no orçamento

Além do valor do financiamento, os custos relacionados à manutenção do imóvel também comprometem a renda familiar.

Amadeu Mendonça destacou que a parcela do financiamento, somada às despesas de condomínio e ao IPTU, pode representar uma parcela significativa do orçamento mensal.

"Quando você pega o valor da parcela do financiamento somado ao condomínio e ao IPTU, isso dá praticamente metade da renda líquida familiar. Se a pessoa compromete metade do orçamento só com o custeio do imóvel, sem considerar saúde, educação e energia, torna-se inviável manter a saúde financeira em dia, mesmo que o banco venha a aprovar o crédito", observou Amadeu.

A avaliação reforça que a aprovação de um financiamento não significa necessariamente que a aquisição seja financeiramente sustentável para a família. O custo total da moradia precisa considerar também as despesas recorrentes associadas ao imóvel.

Construção pode ficar ainda mais cara

O cenário de custos também preocupa o setor da construção civil. Segundo Bruno Cantalupo, além da inflação dos insumos, novos fatores podem ampliar a pressão sobre o preço final dos imóveis.

"Os construtores têm sofrido com o aumento do concreto, do ferro e com a falta de mão de obra. Se houver mudanças na escala de trabalho 6x1, por exemplo, haverá um impacto em cheio no preço do metro quadrado. Se já está difícil de comprar hoje, pode piorar ainda mais".

A possibilidade de aumento dos custos trabalhistas e operacionais adiciona uma nova preocupação para construtoras e consumidores, em um momento no qual o valor dos imóveis já enfrenta dificuldades para acompanhar a renda das famílias.

Especialistas defendem ampliação do Minha Casa Minha Vida

Diante das dificuldades enfrentadas pelo médio padrão, os participantes do debate defenderam uma reformulação das faixas do Minha Casa Minha Vida para alcançar famílias que atualmente encontram obstáculos para acessar o financiamento habitacional.

A avaliação é de que a classe média também precisa de mecanismos capazes de reduzir o custo do crédito e aproximar o valor dos imóveis da capacidade financeira dos compradores.

Bruno Cantalupo defendeu uma ampliação do programa para uma faixa de renda mais elevada.

"A família de classe média precisa de incentivo do governo. O Minha Casa Minha Vida faixa 4 para mim não foi o suficiente. Hoje, o programa teria que se estender até a renda de R$ 20 mil a R$ 25 mil, criando um faixa 5 com taxas de juros menores. É algo que nos próximos anos vai ter que acontecer para destravar o mercado", concluiu Bruno Cantalupo.

A proposta colocada em discussão seria a criação de uma faixa 5, com taxas de juros menores e atendimento a famílias com renda de até R$ 20 mil ou R$ 25 mil.

Mercado imobiliário busca alternativas para a classe média

O debate evidencia um dos principais desafios atuais do mercado imobiliário: encontrar alternativas para famílias que possuem renda, mas não conseguem assumir um financiamento compatível com os preços praticados no mercado.

Enquanto os custos de construção permanecem pressionados e os juros dificultam o acesso ao crédito, a distância entre a renda das famílias e o preço dos imóveis pode continuar restringindo as vendas no médio padrão.

Nesse cenário, mudanças nas políticas habitacionais, redução do custo do crédito e adequação dos produtos imobiliários ao perfil financeiro dos compradores aparecem como pontos centrais para ampliar o acesso à casa própria e movimentar novamente o mercado.

Fonte: JCPE