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Incorporadora adia lançamentos de alto padrão para 2027

AW Realty suspende projetos previstos para o segundo semestre de 2026, após lançar R$ 400 milhões no primeiro semestre, e mantém carteira de R$ 2,5 bilhões para os próximos três anos

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Incorporadora adia lançamentos de alto padrão para 2027 · Foto: (AW Realty /Divulgação)

Selic elevada faz incorporadora adiar lançamentos de imóveis de alto padrão para 2027

A manutenção da taxa básica de juros em 13,75% ao ano e o aumento das incertezas econômicas estão levando empresas do mercado imobiliário a rever seus planejamentos para os próximos anos. A incorporadora paulistana AW Realty decidiu adiar para 2027 todos os empreendimentos de alto padrão que estavam previstos para o segundo semestre de 2026, em uma estratégia de cautela diante das mudanças no cenário econômico brasileiro.

A decisão foi tomada após a interrupção do ciclo de redução da taxa Selic pelo Comitê de Política Monetária (Copom), que manteve os juros em 13,75% ao ano na reunião realizada em 4 de novembro. A definição ocorreu em meio à preocupação do mercado com as perspectivas fiscais, a inflação e o comportamento dos juros futuros após o período eleitoral.

Lançamentos previstos para 2026 são transferidos para o próximo ano

Para 2026, a AW Realty projetava lançar entre R$ 800 milhões e R$ 1 bilhão em Valor Geral de Vendas (VGV), com empreendimentos distribuídos pelas zonas Norte, Sul e Oeste de São Paulo. Entretanto, a maior parte dos projetos estava concentrada no segundo semestre e acabou transferida para o próximo ano.

Na primeira metade de 2026, a incorporadora lançou dois empreendimentos que somam R$ 400 milhões em VGV. Segundo a companhia, os projetos apresentaram bom desempenho comercial. Com a mudança de estratégia, os demais lançamentos previstos foram temporariamente adiados.

"Optamos por uma postura prudente frente ao ambiente macroeconômico e decidimos postergar para 2027 o que estava previsto para o segundo semestre", afirmou Claudio Carvalho, sócio e CEO da AW Realty, em entrevista à Exame.

Apesar da suspensão dos lançamentos previstos para este ano, a empresa afirma que mantém um planejamento de expansão. A carteira de projetos soma R$ 2,5 bilhões em empreendimentos que deverão ser lançados ao longo dos próximos três anos. A incorporadora, entretanto, ainda não estabeleceu uma data específica para retomar os projetos adiados, condicionando a decisão a uma maior clareza sobre o ambiente econômico.

Incertezas econômicas afetam até o mercado de imóveis de alto padrão

O movimento chama a atenção porque o segmento de imóveis de alto padrão costuma apresentar maior resistência às oscilações dos juros, já que seus compradores dependem menos de financiamentos bancários. Ainda assim, a instabilidade econômica também influencia as decisões desse público, que pode optar por adiar aquisições e manter uma parcela maior do patrimônio aplicada em investimentos financeiros.

Na avaliação de Claudio Carvalho, o período eleitoral contribuiu para aumentar a cautela de compradores e incorporadoras. A falta de previsibilidade sobre os rumos da economia passou a interferir nas decisões de aquisição, especialmente porque a compra de imóveis de alto padrão costuma estar mais associada ao planejamento patrimonial e à realização de desejos do que a necessidades imediatas.

"Sem clareza dos rumos das contas públicas, da inflação e dos juros, a decisão de compra de um imóvel de alto padrão, movida mais por desejo do que por necessidade, ficou em suspenso", disse o executivo.

Custos da construção pressionam incorporadoras

Além das condições financeiras, a incorporadora também enfrentou pressões relacionadas aos custos de produção. As tensões geopolíticas internacionais contribuíram para elevar os preços dos materiais de construção, enquanto a escassez de mão de obra aumentou as dificuldades operacionais e reduziu as margens dos empreendimentos.

O cenário demonstra que mesmo empresas voltadas ao público de maior poder aquisitivo precisam considerar os efeitos da conjuntura econômica sobre a viabilidade de novos projetos. A combinação de custos mais elevados, incertezas sobre a demanda e mudanças nas expectativas de juros pode levar incorporadoras a rever cronogramas e estratégias comerciais.

A cautela também foi apontada por Fabrício Schveitzer, conselheiro do Ecossistema Sienge, que avaliou as perspectivas para o setor imobiliário em 2027.

"Olhando para 2027, a combinação de juros elevados, inflação pressionada, dólar alto e incertezas fiscais aponta para um cenário desafiador para o setor, que já começa a refletir esse contexto na revisão e postergação de lançamentos pelas incorporadoras", afirmou.

Selic elevada e incertezas fiscais ampliam cautela do mercado

A interrupção do ciclo de cortes da Selic ocorreu na primeira decisão do Banco Central após o segundo turno das eleições. Antes do resultado eleitoral, parte do mercado esperava uma sexta redução consecutiva de 0,25 ponto percentual. Entretanto, a alta dos juros futuros e as preocupações com a situação fiscal levaram à revisão das expectativas.

No comunicado da decisão, o Copom mencionou a piora do cenário inflacionário, a política fiscal e o risco de desvalorização persistente do real. A próxima reunião do comitê, a última prevista para 2026, está marcada para os dias 8 e 9 de dezembro.

Financiamento imobiliário também sente os efeitos dos juros

Os efeitos da conjuntura econômica também chegaram ao financiamento imobiliário. Antes mesmo da decisão do Copom, bancos já haviam anunciado aumentos nas taxas cobradas dos consumidores. O Bradesco elevou a taxa mínima de financiamento imobiliário de 11,69% para 15% ao ano, acrescida da Taxa Referencial (TR). O Itaú passou de 11,99% para 12,95% ao ano, enquanto o Santander aumentou a taxa de 11,69% para 12,49%, também acrescida da TR.

Embora a Selic não seja automaticamente convertida nas taxas dos financiamentos imobiliários, a política monetária exerce influência sobre o custo do crédito e as condições de mercado. Para a AW Realty, esse cenário representa pressão tanto para as empresas responsáveis pelos empreendimentos quanto para os consumidores interessados na aquisição de imóveis.

"Os custos aumentam para incorporadoras e para compradores de imóveis", afirmou Claudio Carvalho.

Mercado imobiliário aguarda maior previsibilidade para 2027

O adiamento dos projetos da AW Realty evidencia como as condições econômicas podem alterar o planejamento do mercado imobiliário, inclusive no segmento de alto padrão. A decisão não representa uma desistência dos investimentos, mas uma revisão do calendário de lançamentos diante de um ambiente considerado menos previsível.

Para os próximos anos, a evolução dos juros, da inflação, dos custos de construção e da confiança dos compradores deverá continuar influenciando as estratégias das incorporadoras. O comportamento dessas variáveis será determinante para o ritmo de novos empreendimentos e para as perspectivas de desenvolvimento do mercado imobiliário brasileiro.