Custo da moradia aperta orçamento das famílias
Pesquisa mostra que pressão sobre aluguel, financiamento e demais gastos reduz a margem financeira das famílias e pode adiar reformas e melhorias nos imóveis

Moradia passa a disputar espaço com outras despesas
O custo para manter um lugar para morar já está levando grande parte dos brasileiros a rever o próprio orçamento. Uma pesquisa de percepção pública encomendada pela Habitat para a Humanidade Brasil mostra que 74% dos entrevistados reduziram pelo menos uma despesa no último ano para conseguir pagar a moradia. Além disso, 56% afirmaram que um imprevisto financeiro poderia ameaçar sua permanência no imóvel.
O levantamento faz parte do estudo global Home at What Cost?, realizado pela Edelman Intelligence entre 10 de abril e 30 de junho de 2026. No Brasil, foram ouvidas 1.400 pessoas. Globalmente, a pesquisa reuniu 30.758 entrevistados em 22 países e buscou avaliar não apenas quanto as pessoas gastam para morar, mas também o que precisam abrir mão para manter uma habitação.
Os dados mostram que a pressão habitacional ultrapassa o valor pago mensalmente pelo aluguel ou financiamento. Quando uma parcela maior da renda é direcionada à habitação, outras despesas passam a disputar espaço no orçamento, reduzindo a capacidade das famílias de formar reservas financeiras, realizar melhorias e lidar com gastos inesperados.
Aluguel e crédito ampliam a pressão
A pesquisa também aponta uma mudança importante no perfil habitacional brasileiro. Segundo dados da Pnad Contínua citados pelo levantamento, o número de domicílios alugados cresceu 54,1% entre 2016 e 2025, passando de 12,2 milhões para 18,9 milhões.
O avanço ocorre em um cenário de valorização dos imóveis e de crédito imobiliário ainda pressionado pelos juros. Para muitas famílias, a combinação entre preço dos imóveis, aluguel e dificuldade de financiamento torna mais distante a possibilidade de adquirir uma residência.
No recorte brasileiro da pesquisa, 82% dos entrevistados afirmaram que o aumento dos custos habitacionais dificulta a conquista da casa própria. Ao mesmo tempo, 92% disseram esperar possuir um imóvel em algum momento da vida.
O contraste revela um dos principais desafios do mercado habitacional: o desejo de ter um imóvel continua elevado, mas a capacidade financeira de parte da população não acompanha a evolução dos custos relacionados à moradia.
Pressão financeira pode adiar manutenção e reformas
O impacto também chega à conservação dos imóveis. Quando a renda familiar está comprometida com despesas essenciais, reformas e melhorias podem ser adiadas, mesmo quando são necessárias.
A pesquisa destaca que o comprometimento financeiro pode dificultar a correção de problemas em telhados, pisos, banheiros e outras partes da residência. Dados da Pnad citados pela reportagem apontam que 48,9% dos domicílios brasileiros tinham, em 2025, telha sem laje de concreto como cobertura predominante.
Em condomínios, esse cenário merece atenção especial. A postergação de intervenções dentro das unidades pode contribuir para o agravamento de problemas que posteriormente atingem outras áreas do edifício, como infiltrações, vazamentos e danos decorrentes da falta de manutenção.
Por isso, a dificuldade financeira dos moradores não deve ser analisada apenas como uma questão individual. Em empreendimentos residenciais, a capacidade de manter em dia as despesas relacionadas ao imóvel também pode influenciar a conservação do patrimônio e o planejamento das áreas comuns.
Despesas do condomínio também entram no orçamento
Para quem vive em condomínio, o custo de moradia não se resume ao aluguel ou à parcela do financiamento. A taxa condominial, despesas extraordinárias, impostos, consumo de serviços e eventuais obras de manutenção também precisam ser considerados no orçamento mensal.
Em momentos de maior aperto financeiro, o planejamento do condomínio se torna ainda mais importante. Uma gestão organizada pode ajudar a evitar aumentos inesperados, estabelecer prioridades para as obras e comunicar previamente aos moradores as necessidades de manutenção e os impactos financeiros das decisões aprovadas em assembleia.
O planejamento também permite diferenciar despesas urgentes daquelas que podem ser programadas, sem comprometer a segurança ou a conservação do empreendimento.
Inadimplência pode se tornar outro efeito da pressão
Quando a renda familiar fica excessivamente comprometida, as despesas condominiais podem entrar na disputa com outras contas essenciais. Para os condomínios, isso reforça a importância de acompanhar os índices de inadimplência e manter procedimentos de cobrança claros e regulares.
A administração precisa, ao mesmo tempo, preservar a saúde financeira do condomínio e conduzir a cobrança dentro dos limites legais, evitando medidas informais ou constrangedoras contra moradores.
O cenário também reforça a necessidade de transparência na gestão. Quando os moradores compreendem para onde os recursos são destinados e quais despesas são necessárias para manter o edifício funcionando, a administração tende a ter melhores condições para discutir prioridades financeiras e planejamento de longo prazo.
Casa própria continua sendo um objetivo
Mesmo diante da pressão sobre o orçamento, a intenção de adquirir um imóvel permanece forte entre os brasileiros. De acordo com a pesquisa, 92% dos entrevistados afirmam esperar ter uma casa própria em algum momento da vida, enquanto 91% consideram a moradia adequada um direito humano básico.
O resultado evidencia que a questão habitacional não envolve apenas preço de compra ou valor do aluguel. Também estão em jogo segurança financeira, qualidade da habitação, manutenção, estabilidade e capacidade de enfrentar imprevistos.
A pesquisa global da Habitat para a Humanidade reforça essa dimensão. No levantamento internacional, 75% dos participantes disseram ter reduzido ao menos uma despesa no último ano para conseguir arcar com os custos de moradia, enquanto 48% afirmaram que um problema inesperado poderia ameaçar sua capacidade de permanecer no imóvel.
Gestão precisa considerar o cenário financeiro dos moradores
O avanço dos custos habitacionais coloca um desafio adicional para administradores e síndicos: manter a qualidade e a segurança do condomínio sem ignorar a realidade financeira dos moradores.
Isso não significa deixar de realizar manutenções necessárias ou postergar intervenções que envolvam segurança. Ao contrário, reforça a importância de planejamento, orçamento, fundo de reserva e comunicação transparente para reduzir o impacto de despesas extraordinárias.
Para os condomínios, o cenário aponta para uma gestão cada vez mais baseada em previsibilidade. Quanto maior a capacidade de antecipar obras, organizar recursos e comunicar decisões, menor tende a ser o risco de que despesas inesperadas agravem ainda mais a pressão financeira enfrentada pelas famílias.
A discussão sobre o custo da moradia, portanto, ultrapassa o preço de compra ou aluguel. Ela envolve a capacidade de permanecer no imóvel, conservá-lo adequadamente e enfrentar os custos necessários para garantir uma habitação segura e digna.