Reforma de torre em Paris enfrenta impasse bilionário
Projeto para modernizar o edifício de 59 andares foi barrado por divergências sobre os custos; torre está fechada e futuro da renovação permanece indefinido

Reforma da Torre Montparnasse chega a € 800 milhões e expõe impasse entre coproprietários em Paris
A modernização da Torre Montparnasse, em Paris, enfrenta um impasse após o custo estimado do projeto chegar a aproximadamente € 800 milhões. A proposta pretendia transformar a aparência e os usos do edifício, com uma nova fachada de vidro, áreas verdes, espaços comerciais e instalações hoteleiras. No entanto, divergências financeiras e conflitos entre os coproprietários impediram o avanço da primeira etapa das obras.
Inaugurada em 1973, a torre tem 59 andares, cerca de 210 metros de altura e aproximadamente 120 mil metros quadrados de área. Localizada ao lado da estação ferroviária Gare Montparnasse, tornou-se uma presença marcante e frequentemente criticada no horizonte da capital francesa, conhecida por sua paisagem urbana predominantemente baixa.
O episódio chama a atenção para um desafio recorrente na gestão de grandes edifícios: como viabilizar intervenções complexas quando os custos aumentam, as necessidades de manutenção se acumulam e os responsáveis pelo imóvel não chegam a um consenso sobre os investimentos.
Projeto previa transformação da fachada e novos usos
A proposta de renovação foi desenvolvida pelo coletivo de arquitetos Nouvelle AOM, escolhido em 2017. O plano previa substituir a fachada escura por uma superfície de vidro mais clara, ampliar a presença de vegetação e melhorar o desempenho energético do edifício.
O projeto também contemplava terraços arborizados, uma estufa agrícola no topo, áreas comerciais e a instalação de um hotel em parte dos andares. A estrutura principal seria preservada, enquanto a torre ganharia cerca de dez metros de altura.
A intenção era atualizar um edifício considerado ultrapassado por parte dos críticos e torná-lo mais integrado à paisagem urbana. A proposta, contudo, não previa demolir a torre, mas reformá-la e adaptar seus espaços a novas funções.
O observatório localizado no 56º andar também fazia parte desse contexto. Antes do fechamento, o espaço recebia centenas de milhares de visitantes por ano e representava uma das atrações associadas ao edifício.
Orçamento aumentou e dificultou a aprovação
Quando foi apresentado, em 2017, o projeto tinha custo estimado em aproximadamente € 300 milhões. Com o avanço dos estudos e a identificação de novas necessidades de intervenção, a estimativa chegou a cerca de € 800 milhões, um aumento de aproximadamente 167%.
A retirada de amianto da estrutura é um dos fatores relevantes para a complexidade da reforma. A presença desse material havia sido identificada anteriormente, e sua remoção exige procedimentos específicos de segurança e execução.
O custo elevado passou a ser um dos principais pontos de divergência entre os coproprietários. Como o financiamento do projeto caberia aos responsáveis privados pelo imóvel, a viabilidade econômica tornou-se central para a decisão sobre o início das obras.
A principal proprietária individual, a empresa de investimentos LFPI, que detém cerca de 28,6% da torre, retirou seu apoio ao projeto mais ambicioso em julho de 2026 e passou a defender uma alternativa mais simples, estimada em aproximadamente € 400 milhões.

Coproprietários rejeitaram início das obras
Em 23 de setembro de 2026, os coproprietários rejeitaram, por mais de 76% dos votos, a proposta de iniciar a primeira etapa da renovação. A fase incluía a retirada de amianto, a limpeza interna e a desmontagem parcial da fachada.
A votação interrompeu o avanço do projeto original e ampliou as incertezas sobre o futuro do edifício. Além da divergência sobre o orçamento, havia conflitos relacionados à distribuição dos espaços, à instalação do hotel e à divisão das receitas do observatório.
A estrutura de propriedade contribui para a complexidade das decisões. Ao longo do tempo, diferentes investidores e empresas adquiriram áreas do edifício, tornando necessária a conciliação de interesses financeiros e operacionais distintos.
O impasse demonstra como projetos de grande porte podem depender não apenas de estudos técnicos e disponibilidade de recursos, mas também de mecanismos de governança capazes de reunir os responsáveis em torno de decisões comuns.
Torre fechada e prazo de autorização se aproxima
A Torre Montparnasse está fechada desde 31 de março de 2026, quando foi desocupada para permitir a preparação das intervenções. Durante o verão europeu, fragmentos de vidro caíram da fachada, levando à adoção de medidas de segurança.
O episódio acrescentou urgência à necessidade de definir os próximos passos, embora não tenha resolvido as divergências sobre a extensão e o custo da reforma.
Outro fator é o prazo da autorização urbanística existente, que vence em 26 de novembro de 2026. Caso seja necessário apresentar uma nova proposta, poderão ser exigidos novos procedimentos de aprovação, prolongando o período de indefinição.
Uma alternativa mais econômica, concentrada em intervenções essenciais, como a remoção de amianto e a recuperação da fachada, passou a ser discutida. Essa possibilidade, porém, não equivale à aprovação de um novo projeto definitivo.

O caso evidencia desafios da gestão de grandes edifícios
A situação da Torre Montparnasse mostra que a requalificação de um edifício envolve decisões que vão além da estética. Segurança, conservação, eficiência energética, adaptação dos espaços e viabilidade financeira precisam ser considerados de forma integrada.
Em imóveis com múltiplos proprietários, a definição de responsabilidades, a transparência na apresentação dos custos e a construção de consensos são aspectos importantes para evitar que divergências administrativas paralisem intervenções necessárias.
O caso também destaca a importância de avaliar previamente os riscos técnicos e financeiros de projetos de retrofit, especialmente quando envolvem estruturas antigas, materiais que exigem remoção especializada e mudanças significativas no uso do imóvel.
Por enquanto, o futuro da Torre Montparnasse permanece indefinido. A solução dependerá das negociações entre os coproprietários, da avaliação dos custos e da definição de um plano capaz de conciliar as necessidades de segurança e modernização com os recursos disponíveis.