Engenharia

Edifício de madeira engenheirada chega a 25 andares

Com 25 andares, o Ascent combina madeira estrutural e concreto e demonstra soluções de engenharia para edifícios residenciais de grande altura

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O reconhecimento também passou pelo Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH), organização especializada na classificação de edifícios altos. · Foto: Reprodução

Edifício residencial combina madeira e concreto em 25 andares

A utilização de madeira engenheirada em edifícios de grande altura vem ampliando as possibilidades da engenharia estrutural. Um dos exemplos é o Ascent, empreendimento residencial localizado em Milwaukee, no estado norte-americano de Wisconsin, com 86,6 metros de altura e 25 andares.

Concluído em 2022, o edifício recebeu o reconhecimento do Guinness World Records como o prédio de madeira mais alto do mundo. A classificação, porém, exige uma distinção técnica: o Ascent não é inteiramente construído em madeira. Trata-se de uma estrutura híbrida, que combina madeira engenheirada e concreto. O Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH) também registra o empreendimento entre os edifícios mais altos com estrutura principal de madeira.

O projeto foi desenvolvido pelo escritório Korb + Associates Architects, com engenharia estrutural da Thornton Tomasetti. A construção reúne soluções para atender às exigências de resistência, estabilidade e segurança de uma torre residencial de grande porte.

Como a estrutura foi distribuída

O sistema construtivo do Ascent combina diferentes materiais conforme as funções necessárias em cada parte do edifício. Os pavimentos inferiores utilizam concreto, enquanto os níveis superiores incorporam elementos estruturais de madeira engenheirada, como pilares, vigas e painéis de piso.

O concreto também é utilizado nos núcleos verticais destinados a elevadores e serviços, que contribuem para a estabilidade da edificação. A madeira, por sua vez, compõe grande parte da estrutura dos pavimentos residenciais.

A escolha por um sistema híbrido permite aproveitar características distintas dos materiais. O concreto pode atender a necessidades específicas de rigidez, resistência e compartimentação, enquanto os componentes de madeira engenheirada oferecem resistência estrutural com peso relativamente reduzido.

A distribuição dos materiais não é uma solução universal. Ela depende do projeto arquitetônico, das cargas previstas, das condições ambientais, das normas aplicáveis e dos requisitos de segurança de cada empreendimento.

Madeira engenheirada vai além da madeira convencional

Entre os materiais empregados no Ascent estão o CLT, sigla em inglês para madeira laminada cruzada, e o glulam, conhecido como madeira laminada colada.

O CLT é produzido com camadas de madeira dispostas em direções alternadas e unidas por adesivos estruturais. Esse processo resulta em painéis utilizados em aplicações como pisos e paredes, com propriedades definidas de acordo com o projeto e o processo de fabricação.

O glulam é formado pela união de lâminas de madeira predominantemente alinhadas na mesma direção. O material permite fabricar peças estruturais de grandes dimensões, utilizadas especialmente em vigas e pilares.

A fabricação industrializada possibilita produzir componentes com medidas e conexões previamente planejadas. No canteiro, essas peças podem ser montadas conforme a sequência definida no projeto, o que favorece a organização das etapas construtivas e reduz parte das operações que precisariam ser executadas no local.

A aplicação em edifícios altos, entretanto, exige cálculos estruturais detalhados, controle de qualidade, especificação correta dos materiais e execução compatível com o projeto.

Segurança contra incêndios exige soluções específicas

A utilização de madeira em edifícios residenciais de grande altura também exige atenção ao comportamento estrutural durante um incêndio.

No Ascent, foram realizados estudos e ensaios para avaliar a resistência dos componentes de madeira a temperaturas elevadas. Entre os procedimentos relatados estão testes de resistência ao fogo em pilares de madeira laminada colada, destinados a verificar o comportamento das peças sob exposição prolongada ao calor.

A madeira maciça pode formar uma camada carbonizada na superfície quando exposta ao fogo. Em determinadas condições, essa camada retarda a transferência de calor para as partes internas do componente. O desempenho efetivo, porém, depende das dimensões das peças, das propriedades do material, das conexões, das proteções adotadas e do tempo de exposição.

Esse comportamento não significa que estruturas de madeira estejam livres de riscos. A segurança depende do dimensionamento adequado, da compartimentação, dos sistemas de detecção e combate a incêndios, das rotas de fuga e do cumprimento das exigências técnicas e legais aplicáveis.

Para edifícios residenciais, a análise precisa considerar ainda a evacuação dos ocupantes, a proteção dos acessos, a atuação dos sistemas de emergência e a manutenção dos equipamentos ao longo da vida útil da construção.

Pré-fabricação pode contribuir para o planejamento da obra

Outro aspecto associado à madeira engenheirada é a possibilidade de fabricar componentes antes de sua instalação no canteiro. Vigas, pilares e painéis podem chegar ao local com dimensões e conexões previstas em projeto, favorecendo uma montagem organizada.

Esse processo pode reduzir determinadas etapas executadas diretamente na obra e contribuir para a previsibilidade do cronograma. Os resultados, entretanto, dependem do planejamento logístico, da disponibilidade dos componentes, da precisão da fabricação e da coordenação entre os profissionais envolvidos.

A adoção de sistemas industrializados também exige planejamento do transporte, armazenamento e içamento das peças, além de cuidados com umidade, exposição às intempéries e proteção dos materiais durante a execução.

No caso de edifícios residenciais, a escolha do sistema construtivo deve considerar não apenas a velocidade de montagem, mas também o desempenho estrutural, a durabilidade, a manutenção e os custos ao longo da vida útil do empreendimento.

Construção com madeira pode contribuir para metas ambientais

A madeira engenheirada também é utilizada em projetos que buscam reduzir o impacto ambiental da construção civil. Quando proveniente de fontes legalizadas e manejadas de forma responsável, o material pode armazenar carbono durante sua vida útil e substituir parte de materiais cuja produção envolve emissões elevadas.

A avaliação ambiental, contudo, depende de diferentes fatores, incluindo origem da matéria-prima, manejo florestal, processamento industrial, adesivos utilizados, transporte, manutenção e destino dos componentes ao final de sua utilização.

Por isso, não é possível concluir que qualquer edifício de madeira terá necessariamente uma pegada de carbono inferior à de uma construção convencional. A comparação exige uma análise do ciclo de vida dos materiais e dos sistemas construtivos empregados.

O Ascent demonstra como a madeira engenheirada pode ser integrada a um projeto residencial de grande altura, mas seus resultados não devem ser generalizados para todas as edificações ou contextos regulatórios.

O que o projeto representa para a engenharia

A experiência do Ascent evidencia a ampliação das alternativas disponíveis para arquitetos, engenheiros e incorporadoras. A combinação de madeira e concreto permite explorar diferentes características dos materiais e planejar estruturas de acordo com as necessidades do empreendimento.

A aplicação em edifícios altos, porém, exige projetos específicos, profissionais habilitados, materiais certificados, execução controlada e atendimento às normas de segurança e desempenho.

Para o setor da construção civil, o principal avanço está na demonstração de que a madeira engenheirada pode participar da estrutura de edifícios residenciais de grande porte quando associada a soluções adequadas de engenharia.

O empreendimento de Milwaukee também reforça que inovação construtiva não depende apenas da escolha de um material. O resultado é consequência da integração entre arquitetura, cálculo estrutural, segurança contra incêndios, fabricação, montagem e planejamento da manutenção ao longo da vida útil do edifício.