Juros altos pressionam a construção civil
Pesquisa mostra que a preocupação com os juros atingiu o segundo maior patamar da série histórica, enquanto o acesso ao crédito e a intenção de investimento seguem pressionados

Juros altos preocupam 4 em cada 10 empresários da construção, aponta CNI
A taxa de juros elevada foi apontada como o principal problema da indústria da construção por quatro em cada dez empresários do setor no terceiro trimestre de 2026. O percentual aumentou 3,8 pontos percentuais em relação ao trimestre anterior e alcançou o segundo maior patamar da série histórica, iniciada em 2015.
Os dados fazem parte da Sondagem Indústria da Construção, divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), em 26 de outubro.
O levantamento mostra que as condições financeiras das empresas continuam pressionadas, especialmente pela dificuldade de acesso a empréstimos e financiamentos. Apesar de alguns indicadores de atividade e de expectativas apresentarem melhora, o ambiente de negócios ainda é marcado por restrições ao investimento.
Juros lideram as preocupações do setor
As taxas de juros permaneceram na primeira posição entre os principais problemas apontados pelos empresários da construção. O resultado do terceiro trimestre ficou abaixo apenas do registrado no segundo trimestre de 2023, conforme a análise da CNI.
A carga tributária apareceu como a segunda maior preocupação, mencionada por 31% dos entrevistados. No trimestre anterior, esse fator havia sido apontado por 33,6%.
Já a falta ou o alto custo da mão de obra não qualificada subiu da quarta para a terceira posição, passando de 28,6% para 29% das citações.
Os resultados indicam que, além dos custos financeiros, as empresas continuam enfrentando desafios relacionados à tributação e à disponibilidade de trabalhadores.
Acesso ao crédito fica mais difícil
O índice que mede a facilidade de acesso ao crédito caiu 1,4 ponto no terceiro trimestre, passando de 39,3 para 37,9 pontos. Como o indicador ficou ainda mais distante da linha de 50 pontos, o resultado sinaliza maior dificuldade para a obtenção de empréstimos e financiamentos.
A satisfação com o lucro operacional também recuou um ponto, chegando a 40,7 pontos. Segundo a pesquisa, o indicador atingiu o menor nível desde o primeiro trimestre de 2021, refletindo a pressão sobre os resultados financeiros das empresas.
O índice de satisfação com a situação financeira permaneceu em 45,2 pontos, abaixo da linha divisória de 50 pontos, o que indica insatisfação entre os empresários.
Ao mesmo tempo, o indicador de evolução dos preços médios de insumos e matérias-primas caiu de 66,2 para 65,5 pontos. Apesar da redução, a permanência acima de 50 pontos indica que os empresários ainda percebem aumento nos preços desses materiais.
Intenção de investimento tem pior outubro desde 2020
Mesmo com uma alta de 2,2 pontos em relação a setembro, o índice de intenção de investimento chegou a 41,9 pontos. Segundo a CNI, foi o pior resultado para o mês de outubro desde 2020.
O indicador reforça a cautela das empresas diante das condições de financiamento e das perspectivas para o setor. Quando o crédito fica mais difícil e os custos permanecem pressionados, decisões sobre expansão, aquisição de equipamentos e início de novos projetos podem exigir avaliações financeiras mais rigorosas.
Atividade da construção apresenta recuperação parcial
Em setembro, o índice de evolução do nível de atividade da indústria da construção avançou 0,9 ponto, alcançando 45,6 pontos. O resultado recuperou apenas parte da queda de 2,6 pontos registrada em agosto.
A utilização da capacidade operacional, indicador relacionado ao nível de atividade dos canteiros de obras, aumentou três pontos e chegou a 68%.
Em contrapartida, o índice de evolução do número de empregados caiu 0,5 ponto, para 45,3 pontos.
O Índice de Confiança do Empresário Industrial da Construção subiu 3,5 pontos e alcançou 49 pontos. Apesar da recuperação, o indicador permaneceu abaixo de 50 pontos, sinalizando que o pessimismo perdeu força, mas ainda não foi superado.
Expectativas melhoram, mas permanecem moderadas
Os indicadores de expectativas avançaram entre setembro e outubro, embora a maioria continue abaixo de 50 pontos e todos permaneçam inferiores às respectivas médias históricas.
Os resultados foram os seguintes:
Nível de atividade: alta de 3,1 pontos, para 50,1 pontos.
Compras de insumos e matérias-primas: avanço de 3,9 pontos, para 49,7 pontos.
Novos empreendimentos e serviços: aumento de 2,5 pontos, para 48,6 pontos.
Número de empregados: elevação de 0,7 ponto, para 48,7 pontos.
A expectativa para o nível de atividade passou à faixa considerada neutra. Nos demais indicadores, os resultados apontam redução do pessimismo, sem representar uma perspectiva amplamente positiva para os meses seguintes.
Reflexos para obras e manutenção de condomínios
Embora a pesquisa avalie a indústria da construção, o cenário financeiro merece atenção também de síndicos e administradoras. Condições de crédito mais restritivas e custos de materiais pressionados podem influenciar orçamentos e decisões relacionadas a reformas, modernizações e intervenções nas edificações.
Nesse contexto, o planejamento das despesas e a análise técnica das necessidades do prédio ganham importância. A elaboração de orçamentos comparativos, a definição de prioridades e a programação de serviços ajudam a organizar os recursos disponíveis.
A redução de gastos, porém, não deve comprometer intervenções necessárias à segurança, à conservação e ao funcionamento dos sistemas prediais. Problemas estruturais, falhas em instalações elétricas e hidráulicas e deficiências em equipamentos de segurança exigem avaliação técnica e tratamento compatível com o risco identificado.
Para obras de maior porte, o condomínio também pode avaliar cronogramas de execução, condições de pagamento e alternativas de contratação, sempre considerando a qualidade dos serviços e as responsabilidades técnicas envolvidas.
Pesquisa ouviu 305 empresas
A edição da Sondagem Indústria da Construção consultou 305 empresas entre 1º e 13 de outubro de 2026. A amostra reuniu 120 pequenas empresas, 125 médias e 60 grandes.
Os resultados mostram um setor que apresenta sinais pontuais de recuperação da atividade e das expectativas, mas continua pressionado pelos juros elevados, pela dificuldade de acesso ao crédito e pela insatisfação com os resultados financeiros.
Para o mercado imobiliário e a gestão de edificações, acompanhar essas condições ajuda a compreender o ambiente em que são contratadas obras, reformas e serviços de engenharia.