El Niño altera cronograma e rotina das obras
Construtoras antecipam etapas, reforçam protocolos de segurança e ampliam soluções industrializadas diante de chuvas e ventos intensos

O fenômeno El Niño já provoca mudanças na rotina dos canteiros de obras no Brasil. Diante da previsão de períodos com chuvas intensas e ventos fortes, construtoras passaram a acompanhar as condições climáticas com maior frequência e a antecipar atividades consideradas mais vulneráveis às alterações do tempo.
O fenômeno foi confirmado em junho de 2026, e boletim oficial do governo indicou probabilidade superior a 90% de permanência até o início de 2027. A possibilidade de eventos climáticos mais intensos amplia a necessidade de planejamento por parte das empresas do setor da construção civil.
Entre as etapas mais suscetíveis aos efeitos das condições climáticas estão a preparação e o nivelamento de terrenos, as escavações e a execução das bases dos edifícios. Chuvas fortes podem dificultar a movimentação de equipes e máquinas, enquanto ventos intensos aumentam os cuidados necessários em atividades realizadas em áreas abertas e em altura.
A alternância entre períodos de seca e excesso de chuva também pode reduzir a previsibilidade dos cronogramas. Segundo informações reunidas pelo Portas, o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Rio de Janeiro aponta que eventos fora de época e ventos acima de 100 km/h podem interferir diretamente na execução dos serviços.
A preocupação com os efeitos do clima, entretanto, começa antes da instalação do canteiro. Para Manuel Carlos Reis Martins, da Fundação Vanzolini, a análise dos riscos climáticos deve fazer parte das decisões desde a escolha do terreno e o desenvolvimento do projeto até a construção, operação e manutenção dos empreendimentos.
A avaliação considera que os edifícios podem permanecer em utilização por períodos de 50 a 100 anos, enquanto parte dos parâmetros utilizados nos projetos ainda está baseada em condições climáticas históricas. Entre as medidas de adaptação estão o aumento de áreas permeáveis, melhorias nos sistemas de drenagem, armazenamento de água da chuva e ampliação do desempenho térmico e energético das edificações.
A construção industrializada também aparece como uma alternativa para reduzir a exposição das atividades às condições climáticas. Na Tenda, por exemplo, o acompanhamento do clima passou a integrar a análise de custos, prazos e disponibilidade de mão de obra. A empresa vem antecipando etapas mais sensíveis e ampliando a produção de componentes fora do canteiro por meio da Alea.
Segundo os dados divulgados, cerca de 60% de cada residência da Alea é produzida em fábrica. A estratégia reduz o tempo de exposição das atividades ao mau tempo e pode contribuir para maior previsibilidade dos cronogramas. Tenda e Alea possuem mais de 80 obras em andamento.
As medidas preventivas também envolvem a segurança dos canteiros. A Árbore Engenharia, que possui 34 obras nas regiões Sudeste, Sul e Nordeste, reforçou o acompanhamento das previsões meteorológicas e os protocolos relacionados a materiais soltos, telas, andaimes, trabalhos em altura e guindastes.
O impacto financeiro das paralisações também é considerado pelas empresas. De acordo com os dados apresentados na reportagem, um canteiro executa, em média, cerca de 5% da obra por mês. Em determinadas situações, cinco dias de paralisação podem representar aproximadamente 1,5% da produção mensal, embora os efeitos variem conforme as características de cada empreendimento.
As condições climáticas ainda podem interferir nos custos de seguros. Paralisações e eventuais danos provocados por eventos meteorológicos podem influenciar os preços e os prazos das apólices. O seguro para danos à construção e responsabilidade por prejuízos causados a terceiros representa, em média, entre 0,1% e 0,3% do valor da obra, segundo os dados apresentados pelo Portas.
O impacto potencial das condições climáticas vai além dos empreendimentos residenciais. Um estudo do Instituto Internacional para Sustentabilidade estimou perdas anuais de até R$ 18 bilhões em aproximadamente 300 obras de infraestrutura. Os números reforçam a dimensão econômica que eventos climáticos adversos podem alcançar no setor.
Para condomínios e empreendimentos em construção, o cenário reforça a importância de incorporar os riscos climáticos ao planejamento das obras. A análise antecipada das condições do terreno, dos sistemas de drenagem, das estruturas temporárias e das atividades expostas ao clima pode contribuir para reduzir interrupções e preservar a segurança dos trabalhadores.
A adaptação climática ainda representa um desafio para a construção civil. Embora o setor tenha avançado em iniciativas relacionadas à redução de impactos ambientais, a preparação das obras para eventos climáticos extremos ainda precisa ganhar escala, especialmente diante da maior frequência de situações capazes de afetar prazos, custos e segurança.
Fonte: Portas