Construção perde produtividade desde 2016
Queda registrada até 2023 evidencia desafios relacionados à mão de obra, eficiência dos canteiros e modernização da construção civil brasileira

A construção civil brasileira registrou uma queda de 25,8% na produtividade entre 2016 e 2023, segundo dados do levantamento “Mãos à Obra: Emprego e Produtividade na Construção”, elaborado pelo Departamento da Indústria da Construção e Mineração (Deconcic) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). O estudo foi apresentado em seminário realizado pela entidade nesta quinta-feira (8).
O resultado coloca a eficiência dos processos construtivos entre os principais desafios do setor. Em um segmento marcado por ciclos longos, elevado uso de mão de obra e forte dependência de planejamento, uma redução de produtividade pode repercutir diretamente sobre o andamento das obras e a capacidade das empresas de controlar custos e prazos.
A discussão ganha importância também para o mercado condominial. Empreendimentos residenciais dependem de uma cadeia extensa de profissionais, fornecedores, projetistas e empresas especializadas. Quanto menos eficientes forem os processos no canteiro, maior pode ser a dificuldade para cumprir cronogramas, controlar desperdícios e manter o desempenho esperado durante a execução.
Industrialização ganha espaço
O levantamento foi apresentado em um momento em que a indústria da construção discute alternativas para elevar a produtividade. Entre os caminhos debatidos estão a industrialização dos processos, a adoção de novas tecnologias e a modernização dos canteiros de obras. A programação do seminário da Fiesp incluiu, inclusive, um painel dedicado à industrialização e às formas de incorporá-la à construção brasileira.
A industrialização pode reduzir a dependência de determinadas atividades executadas integralmente no canteiro e aumentar a padronização de etapas. Sistemas construtivos industrializados, planejamento digital, automação e melhor integração entre projeto e execução são algumas das estratégias discutidas pelo setor para reduzir perdas e tornar a produção mais previsível.
Para obras de condomínios, a busca por eficiência também pode representar ganhos na manutenção e na gestão futura dos empreendimentos. Projetos mais bem planejados e processos construtivos com maior controle podem contribuir para reduzir falhas de execução e intervenções posteriores.
Mão de obra e qualificação
Outro desafio relacionado à produtividade está na disponibilidade de trabalhadores qualificados. A construção possui forte dependência de profissionais especializados, e a dificuldade de encontrar mão de obra preparada pode afetar o ritmo e a qualidade dos serviços.
A questão se torna ainda mais relevante diante da necessidade de modernização do setor. A adoção de novas tecnologias exige profissionais capazes de operar equipamentos, interpretar projetos digitais e trabalhar com processos mais padronizados.
A produtividade, portanto, não depende apenas de aumentar o ritmo de trabalho. Ela envolve planejamento, qualificação, tecnologia, organização do canteiro, disponibilidade de materiais e integração entre as diferentes etapas da obra.
Impacto sobre custos e planejamento
A redução da produtividade representa um desafio adicional para empresas que já enfrentam pressão de custos. O setor também convive com despesas crescentes relacionadas à construção. O INCC-M, por exemplo, acumulava alta de 6,61% em 12 meses até setembro de 2026, segundo a FGV.
Nesse cenário, melhorar a eficiência torna-se uma estratégia importante para evitar que perdas operacionais sejam incorporadas ao custo final dos empreendimentos.
Para síndicos e gestores condominiais, o tema também merece atenção durante obras de reforma, manutenção e recuperação predial. Cronogramas mais realistas, contratação de empresas qualificadas, acompanhamento técnico e fiscalização das etapas podem ajudar a reduzir atrasos e retrabalhos.
O desafio colocado pelos dados da Fiesp não está apenas em produzir mais, mas em encontrar formas de construir com maior previsibilidade, qualidade e eficiência. A modernização dos processos e a profissionalização da gestão aparecem, assim, como elementos importantes para que a construção civil consiga recuperar produtividade e responder às novas exigências do mercado.