Engenharia

Juros altos pressionam construção civil

Indicador da CNI e da CBIC recuou de 47,8 para 45,9 pontos; custos de mão de obra e materiais também pressionam o setor

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Guindaste içando cifrão no topo de um prédio · Foto: Ilustração gerada por IA

Construção civil registra queda na atividade no terceiro trimestre de 2026 sob pressão dos juros

A construção civil brasileira registrou retração da atividade no terceiro trimestre de 2026, pressionada principalmente pelas elevadas taxas de juros e pelo aumento dos custos do setor. O indicador que mede o nível de atividade ficou em 45,9 pontos, abaixo dos 47,8 pontos registrados no segundo trimestre, segundo a Sondagem da Indústria da Construção, realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), com apoio da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).

O resultado também ficou abaixo do registrado no mesmo período do ano anterior. Indicadores abaixo de 50 pontos sinalizam retração na atividade, conforme a metodologia da pesquisa.

De acordo com a CBIC, os juros elevados dificultam o acesso ao crédito e reduzem a capacidade de investimento das empresas. A situação afeta especialmente os negócios de menor porte, que dependem de financiamentos para ampliar operações, adquirir equipamentos e desenvolver novos projetos.

Juros elevados lideram preocupações do setor

As taxas de juros foram apontadas por 40% dos empresários como o principal problema enfrentado pela indústria da construção no terceiro trimestre. O percentual representa o segundo maior resultado da série histórica, iniciada em 2015, e aumentou 3,8 pontos percentuais em relação ao trimestre anterior.

A preocupação ocorre mesmo diante dos cortes recentes da taxa básica de juros. No período da pesquisa, a Selic permanecia em 13,75% ao ano, mantendo elevado o custo dos financiamentos.

Além dos juros, a carga tributária e a disponibilidade de trabalhadores também aparecem entre os obstáculos enfrentados pelas empresas. A tributação foi mencionada por 31% dos empresários, enquanto a falta ou o alto custo de mão de obra não qualificada foi apontada por 29%.

Segundo representantes do setor, as dificuldades de financiamento limitam investimentos em infraestrutura, maquinário e novos produtos. A menor capacidade de investimento também pode comprometer iniciativas de qualificação e contratação de profissionais.

Custos de construção continuam pressionados

O aumento das despesas com materiais, equipamentos e mão de obra representa outro desafio para as empresas. O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), acumulou alta de 6,64% nos 12 meses encerrados em setembro de 2026.

No mesmo intervalo, os custos relacionados à mão de obra avançaram 7,78%, enquanto os gastos com materiais e equipamentos subiram 6,06%.

Outro indicador acompanhado pelo setor, o Custo Unitário Básico (CUB) médio Brasil, calculado pela CBIC, registrou alta acumulada de 6,84% nos 12 meses encerrados em agosto. Nesse levantamento, a mão de obra apresentou aumento de 6,72%, e os materiais e equipamentos, de 6,94%.

A combinação entre crédito mais caro e insumos em alta reduz a margem de planejamento das empresas e pode dificultar a definição de novos investimentos e o orçamento de obras.

Acesso ao crédito e intenção de investimento também preocupam

As condições financeiras da indústria da construção permaneceram negativas no terceiro trimestre. O indicador que mede a facilidade de acesso ao crédito caiu de 39,3 para 37,9 pontos, indicando maior dificuldade para obter empréstimos e financiamentos.

A satisfação dos empresários com o lucro operacional também recuou, chegando a 40,7 pontos, o menor resultado desde o primeiro trimestre de 2021. Já o índice de satisfação com a situação financeira permaneceu em 45,2 pontos, abaixo da linha que indica condições favoráveis.

A intenção de investimento do setor atingiu 41,9 pontos em outubro. Apesar de ter avançado 2,2 pontos em relação a setembro, o indicador registrou o pior resultado para o mês desde 2020.

Expectativas apresentam melhora parcial

Apesar das dificuldades, alguns indicadores de expectativa registraram recuperação entre setembro e outubro. O índice relacionado ao nível de atividade chegou a 50,1 pontos, passando a indicar uma perspectiva neutra para os próximos meses.

As expectativas para compras de insumos e matérias-primas alcançaram 49,7 pontos. Já os indicadores de novos empreendimentos e serviços e de número de empregados ficaram em 48,6 e 48,7 pontos, respectivamente, permanecendo abaixo da linha de 50 pontos.

Os resultados mostram uma melhora parcial na percepção dos empresários, mas ainda apontam cautela em relação à evolução dos negócios.

Reflexos para o mercado imobiliário e a gestão condominial

O desempenho da construção civil é acompanhado de perto pelo mercado imobiliário, uma vez que as condições de crédito, os custos dos materiais e a disponibilidade de mão de obra influenciam o planejamento e a execução de empreendimentos.

Para os condomínios, a evolução dos custos de construção também merece atenção em obras de reforma, manutenção e modernização. A elaboração de orçamentos atualizados, a comparação de propostas e o planejamento financeiro ajudam a administração a lidar com possíveis variações nos preços de materiais e serviços.

Em empreendimentos ainda em construção, as condições econômicas podem influenciar decisões de investimento e cronogramas das empresas. Entretanto, os indicadores gerais do setor não permitem concluir, isoladamente, que haverá atrasos ou interrupções em obras específicas.

A retração registrada no terceiro trimestre evidencia os desafios enfrentados pela construção civil em um ambiente de crédito caro e custos elevados. A evolução dos juros, dos preços dos insumos e das condições de financiamento será determinante para acompanhar o comportamento do setor nos próximos períodos.