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Engenharia

Construção civil mira crescimento em 2027

Setor vê perspectivas positivas para o próximo ano, mas enfrenta juros elevados, falta de profissionais qualificados e necessidade de aumentar a produtividade

Construção civil projeta crescimento em 2027 e aposta em industrialização e qualificação
Foto: Reprodução

A construção civil mantém perspectivas positivas para 2027, mas deverá enfrentar um conjunto de desafios relacionados ao custo do crédito, à falta de mão de obra qualificada e à necessidade de elevar a produtividade. O cenário foi discutido durante o 13º Summit da Construção Civil, realizado pelo Grupo Tribuna, em Santos, e reúne preocupações que devem influenciar as decisões do setor nos próximos anos.

O presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Fernando Guedes, afirmou que o desempenho de 2026 permanece positivo. Segundo ele, há um volume significativo de empreendimentos imobiliários contratados e em fase de entrega, enquanto a infraestrutura também avança impulsionada por concessões, parcerias público-privadas, contratos de saneamento e obras públicas.

Para 2027, entretanto, o ambiente macroeconômico será determinante. A definição do cenário político e fiscal, o comportamento da taxa Selic e as condições de financiamento deverão influenciar diretamente a capacidade de empresas manterem ou ampliarem os investimentos.

Juros continuam no centro das preocupações

O custo do crédito é considerado um dos principais obstáculos para a expansão da construção. Como os empreendimentos imobiliários dependem de financiamento de longo prazo, taxas elevadas podem reduzir a disposição das empresas para iniciar novos projetos e dificultar o acesso dos consumidores aos imóveis.

A Selic estava em 14% ao ano no momento da entrevista concedida por Guedes. Para a construção civil, a velocidade de eventual redução dos juros será relevante para determinar o ambiente de investimentos em 2027.

O impacto não se limita às incorporadoras e construtoras. Um ambiente de crédito mais restritivo também pode afetar compradores, financiamentos imobiliários e o ritmo de lançamento de novos empreendimentos.

Falta de mão de obra pressiona o setor

Outro desafio apontado pela CBIC é a escassez de profissionais qualificados. A construção civil enfrenta uma falta sistêmica de trabalhadores preparados para acompanhar as novas exigências dos canteiros.

O problema ocorre justamente em um momento de transformação tecnológica. A modernização dos processos exige profissionais capazes de operar novos equipamentos, sistemas construtivos e ferramentas utilizadas para aumentar a eficiência das obras.

Dados do mercado de trabalho reforçam a relevância do setor. No primeiro semestre de 2026, o saldo de empregos formais na construção cresceu 6,52% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em junho, o segmento alcançou 3,119 milhões de trabalhadores com carteira assinada no país.

Industrialização ganha espaço

Diante da dificuldade para encontrar profissionais e da necessidade de elevar a produtividade, a industrialização aparece como uma das principais estratégias para os próximos anos.

Segundo Guedes, a construção precisa combinar industrialização e capacitação. A utilização de componentes pré-fabricados, processos mais padronizados e novas tecnologias pode reduzir a dependência de determinadas atividades executadas diretamente nos canteiros.

A tendência também está relacionada à reforma tributária, que, na avaliação do presidente da CBIC, deverá estimular mudanças na organização da produção. A indústria da construção terá de buscar métodos capazes de entregar maior produtividade e previsibilidade.

A modernização já vem sendo discutida em diferentes segmentos da cadeia. Sistemas industrializados, pré-fabricados, BIM, automação e soluções voltadas à racionalização dos canteiros ganham espaço justamente como respostas à necessidade de produzir mais com recursos limitados.

Infraestrutura sustenta parte do otimismo

A construção civil não depende exclusivamente do mercado imobiliário. As obras de infraestrutura também têm desempenhado papel importante na manutenção da atividade.

Concessões, investimentos privados, saneamento e obras públicas estão entre os segmentos que ajudam a movimentar o setor. Na Baixada Santista, por exemplo, Guedes citou projetos ligados ao Porto de Santos, ao complexo industrial de Cubatão e ao futuro túnel entre Santos e Guarujá como exemplos da concentração de investimentos na região.

Esse movimento amplia a demanda por empresas, profissionais e fornecedores de diferentes áreas da cadeia da construção, além de gerar impactos sobre outros segmentos da economia.

Mercado imobiliário segue como vetor

No setor residencial, os lançamentos realizados nos últimos anos também ajudam a sustentar as perspectivas para a construção.

O mercado imobiliário continua sendo um dos principais motores da atividade, com destaque para programas habitacionais como o Minha Casa, Minha Vida. A infraestrutura, por sua vez, contribui para diversificar as fontes de demanda e reduzir a dependência de um único segmento.

Para 2027, a combinação entre crédito, demanda por imóveis e investimentos em infraestrutura será fundamental para definir a velocidade de crescimento da construção.

Baixada Santista ganha relevância

A região da Baixada Santista aparece como um dos polos de atenção para o setor. Além do mercado imobiliário, a área concentra projetos relacionados ao Porto de Santos, à infraestrutura, ao saneamento e à atividade industrial.

O cenário também é acompanhado pelo poder público. Em Santos, foram registrados 2.117 pedidos relacionados a novas obras, demolições e projetos urbanísticos apenas nos primeiros sete meses de 2026. Mantido o ritmo, a expectativa municipal é chegar a aproximadamente 3 mil solicitações até o fim do ano.

A digitalização dos processos de aprovação também vem sendo utilizada para reduzir burocracia e aumentar a previsibilidade para empresas que pretendem investir na cidade.

Produtividade será decisiva

O desafio para os próximos anos não está apenas em construir mais, mas em aumentar a eficiência da atividade.

A combinação entre escassez de profissionais, custos elevados e necessidade de acelerar entregas torna a produtividade um dos principais indicadores para a competitividade das empresas.

Nesse contexto, a industrialização pode contribuir para padronizar processos, reduzir desperdícios e transferir parte das atividades realizadas nos canteiros para ambientes controlados de produção. A mudança, entretanto, exige investimentos, planejamento e trabalhadores preparados para operar novas tecnologias.

Setor mantém otimismo, mas depende do cenário econômico

Apesar das dificuldades, a CBIC mantém uma avaliação positiva sobre a capacidade de crescimento da construção civil. O setor possui uma cadeia extensa, movimenta fornecedores de diferentes segmentos e mantém forte capacidade de geração de empregos.

Para 2027, entretanto, o desempenho dependerá de uma combinação de fatores: trajetória dos juros, condições de financiamento, cenário fiscal, investimentos públicos e privados, demanda imobiliária e disponibilidade de mão de obra.

A construção civil chega, portanto, ao próximo ciclo com uma perspectiva de expansão, mas também diante da necessidade de modernizar sua estrutura produtiva. Para construtoras, incorporadoras e empresas ligadas ao setor condominial, acompanhar essa transformação será fundamental para antecipar custos, oportunidades e novas exigências do mercado.

A tendência é que industrialização, qualificação profissional e produtividade deixem de ser apenas estratégias de longo prazo e passem a ocupar posição central nas decisões da construção civil brasileira nos próximos anos.

Fonte: A TRIBUNA